Ao longo dos anos, o disco ultrapassou a marca de 500 mil cópias vendidas e, cinco décadas após o lançamento, mais parece uma coletânea de sucessos.

Em sua busca pelo novo, Antonio Carlos Belchior (1946-2017) encontrou o delírio na experiência com coisas reais.

Nas andanças por São Paulo, o cearense de Sobral retratou dilemas dos jovens, vivências do migrante e contradições do Brasil, colocando tudo isso em seu disco Alucinação — um marco da MPB que completa 50 anos este mês.

De discurso direto e afiado, o álbum chegou às lojas em junho de 1976 e era puxado por Apenas Um Rapaz Latino-Americano, faixa que entrou em alta rotação nas rádios.

"Meu disco de maior sucesso aconteceu em 1976: Alucinação", disse Belchior ao jornal O Pasquim, em 1982. "Tenho uma visão carinhosa desse disco, que discutiu os sentimentos, os pensamentos, os corações e a mente de toda uma juventude."

Ao longo dos anos, ele ultrapassou a marca de 500 mil cópias vendidas e, cinco décadas após o lançamento, mais parece uma coletânea de sucessos.

De acordo com o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição, entre as dez músicas do compositor mais tocadas nos últimos cinco anos, metade é de Alucinação. Estão na lista Velha Roupa Colorida, (9º lugar), A Palo Seco (6º), Sujeito de Sorte (5º), Apenas Um Rapaz Latino-Americano (3º) e Como Nossos Pais (1º).

Mas, de 1971 — quando ele saiu de Fortaleza para o Rio de Janeiro de carona em um voo do Correio Aéreo Nacional — a 1975, os êxitos seriam só sonhos para Belchior.

Se naquele ano de 1971 o artista ganhou o 4º Festival Universitário de Música Brasileira, da TV Tupi, com Na Hora do Almoço, o triunfo se revelaria efêmero.

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"Ele achava que a vitória abriria portas", diz o jornalista Jotabê Medeiros, autor de Belchior: Apenas Um Rapaz Latino-Americano (Todavia, 2017), à BBC News Brasil.

"Inclusive, fez muitos contatos no Rio, frequentou o mundo das decisões de diretores artísticos, de gravadoras. Achava que teria uma recepção melhor e não foi bem assim."

Nessa tentativa de emplacar a carreira, Belchior fez um pouco de tudo.

Empregou-se num bar da praça Mauá, no centro do Rio, onde cantava tangos e boleros para assegurar o cachê. Dividiu o espetáculo Venha a Nós o Vosso Campo com Ruy Maurity, no qual os dois apresentavam suas músicas num vazio teatro Glauce Rocha.

Assinou contrato para lançar Na Hora do Almoço em um compacto simples, seu único registro fonográfico por lá, feito pela Copacabana, em 1971.

"E ele fracassou, né? O Rio não o acolheu como intérprete, como músico da noite, como nada disso", afirma Jotabê Medeiros.

"Resisti o quanto pude. Acabei me mandando pra São Paulo", contou o cantor em 1978.

Na capital paulista, ele gravou o primeiro LP, Belchior, também conhecido como Mote e Glosa.

Lançado pela gravadora Chantecler em 1974, o disco tinha direção musical do maestro e arranjador Marcus Vinicius e trazia uma sonoridade moderna, casando a influência nordestina (os pífanos, por exemplo) com concretismo, rock e música erudita.

Destacavam-se também as letras do jovem artista, entre o lirismo e a vanguarda.