Moisés Mendes comenta trecho de artigo de Nicolás Lantos, publicado no jornal argentino El Destape, sobre o estigma de racismo na Argentina.
Esse texto abaixo é de trecho de artigo de Nicolás Lantos e foi publicado no jornal argentino El Destape. Lantos, que é um jornalista de esquerda, lamenta a campanha nas redes sociais, fora da Argentina, que tenta identificar o país como racista.
“O mito de que a seleção argentina é a única sem jogadores de ascendência africana é duplamente falso. Por um lado, existem seleções, como as do Uzbequistão e da Coreia do Sul, onde não há vestígios de ascendência africana, por razões totalmente lógicas.
Na atual seleção argentina, porém, a ascendência negra de alguns jogadores foi diluída por gerações da herança mista característica deste país, o que desmente a hipótese de um genocídio ancestral que começou a circular durante a última Copa do Mundo e ganhou ainda mais força nas redes sociais durante esta competição.
Isso não significa que o racismo não seja um problema na Argentina, nem que não existam racistas, como existem em todo o mundo. Alguns chegam a ocupar posições de poder. O assessor presidencial Santiago Caputo, após a eliminação do Brasil, publicou: “Que saco se tornou ser negro”.
Autoproclamado especialista em comunicação digital, ele compreende perfeitamente as implicações dessa mensagem nesse contexto. A vice-governadora de Mendoza, Hebe Casado, ligada à Casa Rosada, escreveu após a partida entre França e Paraguai: “Muito bem, Paraguai. A seleção africana não teve modos. Não suporto o Mbappe”.
Esses tipos de comentários, no entanto, são raros se comparados ao racismo de classe mais profundamente enraizado e comum na Argentina.
Neste ponto, é necessário relembrar alguns aspectos da história nacional. O porto de Buenos Aires jamais permitiu a atracação de navios portugueses transportando escravos. Os negros que viviam na cidade, alguns escravizados, outros livres, foram cruciais na resistência contra as invasões britânicas, que forjaram nossa identidade nacional uma década antes da independência.
Em 1813, foi declarada a liberdade de nascimento. A população afrodescendente, que representava um terço de uma população de alguns milhares, diminuiu gradualmente com as ondas de milhões de imigrantes da América Latina, Europa, Oriente Médio e Ásia, que o país sempre acolheu de braços abertos e assimilou de maneira absolutamente exemplar”.
O texto não ajuda a explicar muita coisa, mas mostra que jornalistas de esquerda também se incomodam com o estigma de que a Argentina é racista. Mas não admitem uma realidade incômoda. Assim como o Brasil, um país de negros, também é racista.


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