Imagine um restaurante que cobra R$ 300 por um jantar. À primeira vista, parece caro. Mas, se ele tiver três estrelas Michelin, talvez seja uma excelente relação entre preço e qualidade. Leia mais (06/27/2026 - 17h00)
Michael Viriato escreve sobre como cuidar do seu dinheiro, poupar e planejar o futuro
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27.jun.2026 às 17h00
Michael Viriato Imagine um restaurante que cobra R$ 300 por um jantar. À primeira vista, parece caro. Mas, se ele tiver três estrelas Michelin, talvez seja uma excelente relação entre preço e qualidade.
Agora imagine que o chef foi embora, o cardápio perdeu qualidade e os clientes passaram a desconfiar da comida. Os mesmos R$ 300 já não significam a mesma coisa. O preço não mudou. O contexto, sim. Com a Bolsa brasileira acontece algo semelhante.
Nos últimos meses, principalmente, depois da desvalorização de mais de quase 15% das máximas, tornou-se comum ouvir que a Bolsa brasileira estaria barata porque negocia próximo de 8 vezes o lucro das empresas, abaixo de sua média histórica. A conclusão parece intuitiva: se antes os investidores pagavam múltiplos maiores, basta esperar que tudo volte à média.
Mas existe um problema nessa comparação.
O múltiplo preço lucro não determina quanto uma Bolsa deveria valer. Ele é apenas o resultado da forma como o mercado enxerga algumas variáveis fundamentais como: a taxa de juros, o crescimento esperado dos lucros e o risco. Quando essas variáveis mudam, o múltiplo também muda.
Comecemos pelos juros. Warren Buffett costuma comparar o efeito dos juros sobre os preços dos ativos à força da gravidade sobre uma maçã. Quanto maiores os juros, maior é a pressão para baixo sobre o preço dos ativos financeiros.
Hoje, um investidor consegue comprar um título público prefixado de longo prazo e travar uma rentabilidade acima de 14% ao ano por cinco ou dez anos. Como se trata de um título do governo federal, não existe risco de crédito e a rentabilidade é certa no vencimento.
Com esse rendimento de 14% ao ano, em cinco anos uma aplicação de R$ 171 mil vai se transformar em R$ 329,2 mil. Você apostaria que o Ibovespa, hoje em 171 mil pontos, será negociado por 329,2 mil pontos em cinco anos? E, se ele alcançar, teria valido a pena o investimento comparado ao livre de risco?
Ao investir em ações, a realidade do risco é outra. Há riscos econômicos, políticos, regulatórios e corporativos. Por isso, o investidor deveria exigir um prêmio adicional para abrir mão da segurança oferecida pelos títulos públicos. Se esse prêmio for de apenas cinco pontos percentuais, a taxa mínima de retorno esperada passa para aproximadamente 19% ao ano. O efeito sobre o preço é imediato.
Imagine uma empresa que gera R$ 100 de dividendo por ano de forma recorrente. Se o investidor aceita um retorno de 10% ao ano, ela pode valer aproximadamente R$ 1.000. Agora suponha que a taxa exigida dobre para 20%. A empresa continua exatamente igual.
Produz os mesmos R$ 100, vende os mesmos produtos e atende os mesmos clientes. Ainda assim, seu valor cai para cerca de R$ 500. O dividendo não mudou. Apenas o retorno exigido pelos investidores.


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