Exposição massiva de propaganda de bets durante o torneio preocupa especialistas, que alertam para aumento de riscos entre pessoas com transtorno do jogo e comportamentos compulsivos.

E as bets têm se mostrado uma presença incessante. As marcas estão presentes em comerciais durante as partidas, patrocinam programas esportivos, jogadores, influenciadores digitais e campanhas nas redes sociais.

Embora pareçam uma versão digital dos conhecidos bolões, as apostas online durante a Copa do Mundo preocupam especialistas em saúde mental. Eles alertam que esse cenário pode representar um gatilho importante para pessoas que sofrem com ludopatia, também conhecido como transtorno do jogo.

Os dados mostram também que 37% dos brasileiros pretendem fazer apostas em bets durante o mundial. Entre os tipos de aposta preferidos estão resultado das partidas (51%), número de gols (26%), campeão da Copa (18%), lances específicos (10%) e no artilheiro (8%).

"Há um aumento expressivo da exposição aos jogos, às campanhas publicitárias das casas de apostas e às conversas sobre o tema.

Esse ambiente pode reativar o desejo de apostar, especialmente em indivíduos que ainda apresentam vulnerabilidade ao comportamento compulsivo. Além disso, o clima de entusiasmo coletivo pode reduzir a percepção de risco e favorecer decisões impulsivas", explica Cristiane Vaz de Moraes Pertusi, psicóloga e psicoterapeuta especialista em saúde mental e presidente da Associação Brasileira de Terapia Familiar (ABRATEF).

O Brasil vive uma explosão do setor de apostas esportivas. Segundo o estudo Análise do Mercado de Bets no Brasil, feito pela Tendências Consultoria em parceria com a Peers Consulting+Technology, as apostas movimentaram cerca de R$37 bilhões em receita bruta em 2025.

O setor já alcança mais de 25 milhões de usuários e opera em escala nacional, se consolidando como uma das áreas de maior crescimento dentro da economia digital brasileira.

Outros números ajudam a dimensionar o fenômeno das bets no país. Dados do Instituto Locomotiva, divulgados em 2024, apontam que aproximadamente 52 milhões de brasileiros com mais de 18 anos realizaram apostas esportivas. Entre eles, 79% pertencem às classes C, D e E.

O levantamento também identificou um dado considerado preocupante por especialistas: 64% dos apostadores afirmaram utilizar a principal fonte de renda para financiar as apostas. Em outras palavras, o dinheiro destinado ao orçamento familiar frequentemente é direcionado para jogos de azar.

"O apostador acredita que, por 'entender de futebol', pode prever o resultado dos jogos, o que é um erro cognitivo clássico da ludopatia. A sucessão rápida de partidas impede que o cérebro saia do estado de alerta, mantendo o sistema de recompensa constantemente ativado. O jogo passa a ser visto como normal nestas ocasiões, parte da celebração, o que dificulta a imposição de limites", explica Cíntia Sayd, psiquiatra, especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp).

A ludopatia, ou transtorno do jogo, é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um problema de saúde mental. Assim como ocorre em outras dependências comportamentais, determinados estímulos podem desencadear impulsos difíceis de controlar para quem sofre com o vício em jogos de azar e apostas.

Entre esses estímulos estão propagandas, notificações de aplicativos, comentários sobre apostas e conteúdo que associam o jogo à ideia de sucesso financeiro ou diversão garantida. Durante a Copa do Mundo, esses elementos se tornam ainda mais constantes e praticamente inevitáveis de se ter contato.

A situação é agravada pelo fato de que as apostas oferecem oportunidades múltiplas. Não se trata apenas de apostar na seleção vencedora de uma partida, é possível apostar em número de gols, escanteios, cartões, desempenho individual de jogadores e dezenas de outros eventos que ocorrem ao longo dos 90 minutos.

Essa dinâmica mantém o usuário conectado por períodos prolongados e favorece comportamentos compulsivos.

Um dos aspectos mais estudados pelos especialistas é a chamada "ilusão de controle". Muitos apostadores acreditam que seu conhecimento sobre futebol aumenta as chances de lucro.

Na prática, entretanto, os resultados permanecem sujeitos a fatores imprevisíveis.

A familiaridade com seleções, atletas e estatísticas pode gerar uma falsa sensação de domínio da situação. Durante a Copa do Mundo, quando o interesse pelo esporte atinge níveis máximos, esse efeito tende a ser potencializado.

Outro fator que representa um dos mecanismos mais perigosos do transtorno é a crença de que é possível recuperar perdas com novas apostas.

Após uma sequência de derrotas, muitos jogadores aumentam os valores apostados na tentativa de compensar prejuízos anteriores. O comportamento frequentemente leva ao endividamento e ao agravamento dos problemas financeiros.

"Para quem sofre com essa dependência, apostar não é só uma atividade prazerosa, ela vem com ‘fissura' e com dificuldade de controlar o impulso. Essa tentativa de recuperar as perdas, é muito ruim e cria um ciclo. E além disso, a pessoa pode ter a falsa sensação de controle, pensando que por entender de futebol ela consegue prever o resultado", explica Thiago Rodrigues de Castro, psiquiatra supervisor no ambulatório de transtorno de impulso do Instituto de psiquiatria da USP e professor na Faculdade Santa Marcelina.