Existe uma vulgata keynesiana que insiste em tratar a economia como se fosse um sistema sem restrições físicas, no qual basta expandir a demanda para que a o...

Existe uma vulgata keynesiana que insiste em tratar a economia como se fosse um sistema sem restrições físicas, no qual basta expandir a demanda para que a oferta apareça atrás, sempre, na quantidade certa e no tempo certo. Nessa leitura não há escassez, não há gargalo, não há capacidade instalada, não há tempo de maturação de investimento. Há apenas um multiplicador rodando no vazio. É uma caricatura, e o mais curioso é que ela não se sustenta nem em Keynes nem em Kaldor, os dois autores normalmente invocados para justificá-la.

Comecemos por Keynes. A Teoria Geral não é um livro sobre demanda apenas. O conceito central do capítulo 3, o princípio da demanda efetiva, é definido como a intersecção entre a função de demanda agregada e a função de oferta agregada, a famosa curva Z. Keynes não eliminou a oferta do sistema; ele a manteve e disse que o ponto de equilíbrio de curto prazo é dado pelo encontro das duas curvas, com a demanda determinando onde esse encontro acontece. Isso é muito diferente de dizer que a oferta é infinitamente elástica. A curva Z tem inclinação positiva justamente porque, no curto período de Keynes, o estoque de capital é dado. Com equipamento fixo, aumentar o emprego significa operar sob rendimentos decrescentes, produtividade marginal caindo e preço de oferta subindo. A restrição está embutida na construção original.

O capítulo 21, sobre a teoria dos preços, é ainda mais explícito e continua sendo, na minha opinião, uma das passagens menos lidas do livro. Keynes se pergunta o que acontece com os preços quando a demanda se expande e responde que não existe aquele mundo binário no qual o nível de preços fica parado até o pleno emprego e depois explode. O que existe é uma sucessão de pontos de estrangulamento. Os recursos não são homogêneos nem perfeitamente substituíveis entre si, de modo que alguns setores atingem o limite de capacidade muito antes de outros. Certas qualificações de mão de obra ficam escassas primeiro. Alguns insumos travam antes dos demais. Cada gargalo desses produz um aumento de custo que se transmite ao nível geral de preços muito antes do pleno emprego agregado. Keynes chamou isso de semi-inflação, para distinguir da inflação verdadeira do pleno emprego. É uma teoria de inflação de oferta escrita pelo próprio Keynes, dentro da Teoria Geral.

Se ainda restasse dúvida, basta ler How to Pay for the War, de 1940. Ali Keynes analisa uma economia de guerra na qual a oferta é rígida por definição, porque a capacidade está toda direcionada para o esforço militar, e o problema macroeconômico deixa de ser insuficiência de demanda e passa a ser excesso de demanda contra um teto físico. É desse texto que sai o conceito de hiato inflacionário e é dele que sai a proposta de poupança compulsória. O mesmo autor que escreveu sobre desemprego involuntário por falta de demanda escreveu, quatro anos depois, um manual de como comprimir demanda diante de uma restrição de oferta. Keynes era um economista de conjuntura, não um ideólogo da demanda.

Kaldor é o caso mais interessante, porque ele é lembrado sobretudo pelos rendimentos crescentes, pela lei de Verdoorn e pela causação circular cumulativa, ou seja, pelo mecanismo através do qual a demanda puxa a produtividade e o crescimento se torna autorreferente. Tudo isso é verdade. Mas Kaldor foi também, e talvez principalmente, o teórico da restrição de oferta na economia mundial. Seu modelo de dois setores separa a economia global entre um setor primário, baseado em terra, sujeito a rendimentos decrescentes e operando em mercados de preços flexíveis, e um setor industrial, sujeito a rendimentos crescentes e operando com preços administrados por mark-up. A conclusão de Kaldor é direta: o ritmo de crescimento da indústria mundial é limitado pela capacidade de expansão do setor primário. Se a oferta de alimentos e matérias-primas não acompanha, os termos de troca se movem contra a indústria, o salário real é comprimido, vem a reação salarial, vem a inflação e o sistema trava. Foi exatamente assim que ele leu o boom de commodities de 1972 a 1974 e a estagflação que se seguiu, em Inflation and Recession in the World Economy, de 1976. Não é um modelo de demanda ilimitada. É um modelo no qual a demanda industrial esbarra num limite de oferta que vem de fora da indústria.

Há ainda a segunda restrição kaldoriana, que ficou conhecida através de Thirlwall: a restrição de balanço de pagamentos. Para uma economia aberta, a capacidade de importar define o teto de expansão da demanda doméstica. Um país pode ter capacidade ociosa interna e mesmo assim ser incapaz de crescer, porque o crescimento gera importações que ele não consegue financiar. É uma restrição de oferta no plano externo, e é provavelmente a mais relevante para o caso brasileiro.

Por fim, há a dimensão que talvez seja a mais importante de todas e a mais esquecida: o tempo. Mesmo aceitando integralmente o argumento kaldoriano de que o investimento responde à demanda, e não à poupança prévia, essa resposta não é instantânea. Construir uma fábrica, uma linha de transmissão, um porto ou um centro de distribuição leva anos. Formar um engenheiro leva mais ainda. Entre o estímulo de demanda e a ampliação efetiva da capacidade existe um intervalo durante o qual a economia opera com o estoque de capital que ela tem, e não com o que gostaria de ter. Nesse intervalo a demanda adicional se distribui entre preços mais altos, importações maiores e filas mais longas. Causação cumulativa é um mecanismo de longo prazo; a capacidade instalada é um dado de curto prazo.

Daí decorre a pergunta que me parece a correta, e que substitui com vantagem o falso debate entre demanda e oferta. A questão não é se a demanda importa, porque importa e é ela que determina o nível de utilização. A questão é qual a elasticidade da resposta da oferta a um estímulo de demanda, e essa elasticidade não é um parâmetro universal. Ela depende da estrutura produtiva. Uma economia com matriz industrial densa, diversificada e sofisticada responde a um estímulo de demanda produzindo mais bens complexos internamente. Uma economia com estrutura produtiva empobrecida e reprimarizada responde ao mesmo estímulo importando, ou inflacionando serviços não comercializáveis, ou ambos. O estímulo é o mesmo; o resultado é radicalmente diferente. É por isso que a agenda de complexidade econômica e a agenda macroeconômica não são temas separados. A capacidade de resposta da oferta é uma propriedade da estrutura, e mudar a estrutura é o que permite que a política de demanda funcione sem esbarrar tão cedo no gargalo.

Nem Keynes nem Kaldor escreveram um mundo sem restrição de oferta. Escreveram um mundo em que a demanda comanda o nível de atividade e a estrutura produtiva define até onde e com que velocidade a atividade pode ir. Perder de vista a segunda metade da frase transforma uma teoria sofisticada em slogan.