Dados do Cadastro Único mostram que ainda existem mais de 300 mil brasileiros vivendo nas ruas e precisando de ajuda para evitar a fome
Pessoas em situação de rua esperando para receber pão e café. Foto: João Gabriel Corrêa
Página inicial / #Colabora Universidade Mais perto do que se imagina: a fome dos que vivem em situação de rua Página inicial / #Colabora Universidade Mais perto do que se imagina: a fome dos que vivem em situação de rua Por João Gabriel Corrêa ODS 10
Publicada em 26 de junho de 2026 - 01:58
Numa manhã de segunda-feira, em meio a uma grande fila, com o rosto visivelmente cansado e a barriga roncando, Maria, 19 anos, espera sua vez de pegar um pão e um copo de café, em uma ação de caridade em Campo Grande, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Nesse mesmo horário, uma televisão próxima mostrava um programa que, diariamente, serve uma farta mesa de café da manhã, transmitida para todo o país. Quando chegou a vez de a jovem ser atendida, ela disse à voluntária que a servia: “Com fome, tia, eu como até pedra”.
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Infelizmente, essa é uma cena comum, repetida todos os dias em locais como a Igreja de Santo Antônio, em Campo Grande, que presta serviços de caridade para a população em situação de rua. Lá, além da oferta de banho e café da manhã, o pátio acaba se tornando o ponto de encontro de diversas histórias, daqueles que buscam pelo menos uma refeição no dia.
“A gente, moradora de rua, a gente não pode escolher o que comer se até pão puro, comer arroz, feijão, a gente não pode escolher porque infelizmente morador de rua não tem…, as pessoas que dão não deixam a gente escolher”, disse Maria, enquanto recebia um pão embalado numa sacola plástica para levar e comer depois.
Há momentos em que ela consegue alugar uma casa com o que recebe mensalmente do Bolsa Família, um auxílio de R$ 600, mas só o aluguel custa em torno de R$ 450. A renda que obtém vendendo balas não é suficiente para complementar o orçamento e conseguir manter uma moradia e uma alimentação dignas, então acaba retornando às ruas. Maria vive nessa situação de idas e vindas desde os oito anos de idade.
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“Eu recebo R$ 600 reais por mês, mas todo mundo sabe que R$ 600 não dá pra nada, só o aluguel é R$ 450, o arroz tá quase galo (R$ 50), então assim, é bem difícil.”
A pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE mostra que os alimentos mais presentes nas mesas dos brasileiros são o café, o arroz e o feijão. Contudo, esse mesmo levantamento chama atenção para o fato de que outros itens importantes, como ovos, salada crua e carne bovina, acabam distantes das parcelas mais pobres da população, como mostra o gráfico abaixo:
Um estudo realizado pelo programa Polos de Cidadania da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com base em dados do Cadastro Único (CadÚnico), divulgado em abril de 2025, revelou que existem hoje no Brasil cerca de 335.000 pessoas em situação de rua.
“Ninguém está na rua porque quer, alguma situação que levou, e ela acaba se acomodando, ela perde sonhos, ela perde os objetivos, é um dia após o outro”, pontuou Arlete Ferreira, assistente social do projeto de Santo Antônio há cerca de 12 anos.
Um dos personagens dessa estatística é Salomão, 38 anos, que está em situação de rua há seis anos, e da mesma maneira que Maria, embora receba mensalmente o benefício do Bolsa Família, não consegue o suficiente para sair das ruas. Entre o banho e a fila do café da manhã, ele concordou em conversar sobre sua situação e contou que estava a caminho de uma unidade do CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) para tentar uma vaga em um abrigo.
Para reunir algum dinheiro e buscar uma alimentação mais digna, Salomão faz pequenos bicos. Com a quantia recebida nesses serviços, ele consegue acessar o Restaurante Popular de Campo Grande, comumente conhecido como “Garotinho”, para o almoço.
“Consigo muitas das vezes assim, um trabalho mais informal mesmo do que um formal, né?… às vezes a gente consegue uma capina para fazer, um caminhão de alguma coisa pra poder descarregar.”
Para o jantar, ele conta com a ajuda de carreatas, ou seja, voluntários que com seus carros fazem a distribuição de quentinhas. “É assim quase todos os dias, graças a Deus, né? As almas caridosas que vêm com a carreata, com a distribuição de quentinhas, e assim nós vamos sobrevivendo.”


