À medida que a tecnologia de Inteligência Artificial ganha escala surgem novas preocupações e Joana Linhas defende que o desafio está na capacidade de parar para pensar como queremos construir o futuro.
Nunca se falou tanto de Inteligência Artificial. Todos os dias surgem novas ferramentas, novas funcionalidades e novas promessas de um mundo novo – mais rápido, mais eficiente e mais evoluído. A velocidade a que estas mudanças acontecem faz com que, muitas vezes, a discussão fique circunscrita a que inovação vai chegar primeiro. Mas talvez esteja a faltar outra questão igualmente importante: a que custo?
Sem desprimor pela revolução digital que permitiu avanços ímpares em áreas como a saúde, mobilidade, comunicação e/ou produtividade, à medida que a tecnologia ganha escala torna-se impossível ignorar que esse crescimento traz uma preocupação premente.
Grande parte da transformação digital que hoje damos como garantida depende de infraestruturas físicas robustas, como os data centers que suportam plataformas cloud, serviços digitais e sistemas de IA. Segundo a Agência Internacional da Energia (IEA), o consumo elétrico associado aos data centers deverá aumentar significativamente até 2030, impulsionado sobretudo pela crescente utilização de IA. Embora muitas vezes invisível para quem utiliza tecnologia no dia a dia, esta realidade demonstra que o digital também tem uma dimensão física e energética que começa agora a ganhar maior relevância no debate público e empresarial.
Já não basta perguntar o que a tecnologia consegue fazer. É igualmente imprescindível perceber como é desenvolvida, implementada e utilizada. A eficiência energética, a sustentabilidade das infraestruturas digitais, a ética na utilização de IA ou impacto operacional das novas ferramentas começam a ganhar espaço nas decisões estratégicas das empresas. E isso é um sinal positivo, porque demonstra que o setor está gradualmente a evoluir de uma lógica de velocidade para um patamar moral de sustentabilidade e visão de longo prazo.
Ao mesmo tempo, esta transformação reforça outro desafio essencial: o talento. Não existe inovação sustentável sem profissionais preparados para compreender a complexidade destas mudanças e para tomar decisões mais conscientes. Mais do que dominar ferramentas tecnológicas, as empresas precisam cada vez mais de pessoas com pensamento crítico, capacidade de adaptação e uma visão equilibrada sobre o impacto da tecnologia nos negócios e na sociedade.
Neste contexto, a colaboração entre empresas, universidades e comunidades tecnológicas torna-se cada vez mais relevante. A formação contínua, a especialização e a partilha de conhecimento terão um papel essencial na criação de um ecossistema tecnológico mais sustentável, capaz de acompanhar a velocidade da inovação sem perder de vista os desafios que essa evolução traz consigo.
Portugal tem vindo a afirmar-se como um ecossistema tecnológico competitivo e atrativo, particularmente na região Norte, onde existe uma comunidade empresarial, académica e tecnológica cada vez mais dinâmica. O próximo passo passa agora por garantir que este crescimento acontece de forma sustentável e equilibrada, com uma visão de longo prazo sobre o impacto da tecnologia nas empresas, nas cidades e nas pessoas.
A inovação continuará inevitavelmente a acelerar. Mas talvez o verdadeiro desafio esteja precisamente na capacidade de, no meio dessa velocidade, saber parar para pensar como queremos construir o futuro.
