Evocando um inimigo como a China, Trump fez discurso para pressionar aprovação da reforma eleitoral pelo Senado, a meses das intercalares, que republicanos querem vencer. Democratas mantêm finca-pé.
Pouco mais de 100 dias. Daqui a três meses e meio, os norte-americanos vão novamente às urnas para as eleições intercalares, que vão reconfigurar a Câmara dos Representantes e o Senado, atualmente controlados pelo Partido Republicano. Será um verdadeiro teste à administração Trump, que continua com a ofensiva no Irão e a lidar com os efeitos económicos adversos resultantes do conflito. Esta quinta-feira, em pleno horário nobre, o Presidente dos Estados Unidos da América (EUA) fez um discurso à nação. Mas não refletiu sobre o futuro. Em vez disso, olhou para várias eleições passadas e acusou a China, o Irão, a Venezuela e até a Rússia de interferência eleitoral.
Está muito em jogo para Donald Trump nessas eleições intercalares. Um congresso controlado pelo Partido Democrata funcionaria como um forte contrapeso aos seus poderes, principalmente ao estilo assertivo e dominante que adotou durante o segundo mandato. As sondagens indicam um cenário pouco otimista para os republicanos: até podem manter a maioria no Senado (que está longe de estar segura), mas a Câmara dos Representantes deverá passar para as mãos dos democratas. Uma possível paralisia institucional poderá ser o desfecho.
Tratam-se dos dois últimos anos de Donald Trump à frente dos Estados Unidos, ainda que o Presidente norte-americano nunca tenha afastado a possibilidade de se candidatar a um terceiro mandato, apesar de ser constitucionalmente proibido. O seu legado poderá ser colocado em causa, assim como o Partido Democrata ganhar força e confiança com uma vitória nas intercalares, abrindo caminho para as presidenciais de 2028. Por todas estas razões, Donald Trump está a tentar usar os recursos disponíveis para evitar este cenário — e a reforma da lei eleitoral pode ser um trunfo crucial para garantir vantagem nas urnas.
SAVE America. O Presidente norte-americano tem despendido grande parte do seu tempo a tentar que esta reforma eleitoral passe no Senado. A Câmara dos Representantes já deu luz verde, mas falta o aval dos senadores para que seja implementada. A grande mudança que introduz? Tornar obrigatória a apresentação presencial de um documento (como um passaporte ou uma certidão de nascimento) antes das eleições, além de impor a exigência de um documento com fotografia no momento em que se vota, algo que atualmente varia de estado para estado.
Na visão de Donald Trump, o voto por correspondência e a falta de identificação nas urnas são fatores desvantajosos para o partido que lidera: os eleitores republicanos normalmente votam presencialmente. O Presidente norte-americano argumenta também que aqueles dois fatores aumentam as chances de fraude. No entanto, os democratas consideram que estas medidas desincentivariam muitos eleitores a votarem e aumentariam significativamente a abstenção — principalmente entre os mais pobres e pertencentes a minorias tradicionalmente marginalizadas. E para o Partido Democrata, esta é uma das suas bases eleitorais.
Ainda assim, a reforma eleitoral dificilmente será aprovada. São necessários pelo menos 60 votos no Senado para a aprovar e ultrapassar o bloqueio que os adversários impõem neste tema. Neste momento, os republicanos contam com apenas 53 lugares — o que os obriga a convencer vários democratas a dar luz verde a este pacote de medidas. Donald Trump tem apelado à oposição, mas sem grande sucesso. Perante o impasse, o Presidente norte-americano recorreu à chantagem política: ameaça não ratificar nenhuma iniciativa legislativa dos democratas enquanto o SAVE America não for aprovado.
"Digo as vezes que forem precisas: o SAVE America está morta à nascença. Trump vai ter de enfrentar todos os eleitores — não apenas aqueles que quer — em novembro." Chuck Schumer, líder do Partido Democrata no Senado
Apesar da insistência dos democratas em não avançar com esta legislação, o Presidente norte-americano tem pressionado o líder do Senado, John Thune, para que convoque uma sessão para aprovar o plano SAVE America. No entanto, o responsável republicano não o deverá fazer e admite que tem sido impossível dialogar com os democratas, que não dão sinais de ceder. E até há republicanos que estão contra, como o senador Thom Tillis. Para estas intercalares, a não ser que haja uma grande surpresa, os norte-americanos devem continuar a poder votar por correio e não deverão precisar de documento de identificação no momento do voto.
É neste contexto de bloqueio no Senado — e com o tempo a apertar até 3 de novembro de 2026 — que Donald Trump vê as opções a serem cada vez mais limitadas para reformar a lei eleitoral e procurar formas de eventualmente beneficiar o Partido Republicano. Assim sendo, o chefe de Estado norte-americano está a apostar em métodos mais criativos, com mais ou menos sucesso.
No sistema político norte-americano, há uma palavra que surge sempre antes de eleições decisivas: gerrymandering. Este termo descreve a manipulação dos limites dos círculos eleitorais para beneficiar um determinado partido. É uma tática frequente e difícil de travar, uma vez que a responsabilidade do desenho eleitoral cabe aos governadores e aos governos de cada estado — e os tribunais federais não possuem mecanismos para travar este fenómeno.
Assim sendo, os estados republicanos alinhados com Donald Trump têm aproveitado essa vantagem para redesenhar os mapas em favor do seu partido. Nos últimos tempos, o Presidente norte-americano conseguiu vitórias significativas na alteração dos círculos eleitorais em estados como o Texas, o Missouri e a Carolina do Norte. Ainda que nas eleições presidenciais este sistema não tenha tanto peso para o colégio eleitoral, nas intercalares a alteração dos mapas tem um impacto verdadeiramente determinante.
Aumentar os limites de um círculo eleitoral para passar a incluir bastiões. Encolher outro distrito para neutralizar o impacto dos eleitores mais suscetíveis de votar na oposição. Numa Câmara dos Representantes em que cada círculo eleitoral elege um único congressista, pequenas diferenças no mapa podem levar à eleição de um democrata ou de um republicano, sobretudo nas regiões onde a corrida costuma ser renhida.
O Partido Democrata tenta responder na mesma moeda. Por exemplo, o governador da Califórnia, Gavin Newsom, considerado um rival para os republicanos nas presidenciais de 2028, avançou com a alteração dos mapas eleitorais no estado e levou a medida a votos. Num estado fiel aos democratas, os californianos aprovaram a alteração em referendo, embora o Departamento de Justiça e os republicanos tenham recorrido aos tribunais para tentar anular as mudanças. Na mesma linha, os democratas tentam usar a via judicial para travar o gerrymandering que beneficia a força política rival.
Não é apenas através deste mecanismo que a administração Trump está a tentar travar uma provável vitória dos democratas nas intercalares. A presidência conhece perfeitamente a base eleitoral do partido adversário, composta essencialmente pela classe média branca das grandes cidades nas costas leste e oeste, pela população negra e pela comunidade latina e asiática. Ora, muitos destes últimos são imigrantes naturalizados há poucos anos — e os aliados de Trump estão precisamente a tentar diminuir a sua participação e o seu peso nas urnas.
A reforma eleitoral da lei SAVE America poderia dificultar a participação de muitos cidadãos que obtiveram a nacionalidade norte-americana há pouco tempo, dado que os obrigaria a apresentar documentos difíceis de obter. Mas a administração Trump foi além disso: através do Departamento de Justiça, a presidência tentou aceder aos cadernos eleitorais de vários estados, justificando a medida com a necessidade de verificar se a situação dos eleitores está devidamente regularizada.
Ao mesmo tempo que tentava identificar imigrantes em situação não regularizada, a administração Trump foi mais longe e chegou mesmo a criar uma base de dados federal centralizada — cruzando os registos da Segurança Social com os dos serviços de imigração — para fiscalizar a cidadania dos eleitores. O mecanismo não estava, ainda assim, totalmente funcional e vários estados recusaram-se a conceder informações. O New Hampshire foi um desses casos.
Se é verdade que os serviços secretos norte-americanos não têm provas concretas de que essa interferência direta tenha ocorrido, Pequim até teria um interesse claro em desestabilizar o seu principal rival geopolítico. Mas a questão é se o regime deu ordens diretas para intervir durante as eleições passadas e prejudicar intencionalmente Donald Trump.
Uma forma de pressionar os norte-americanos (em particular os senadores) a apoiarem a reforma eleitoral e uma maneira de justificar a importância do SAVE America: estes foram os principais objetivos de Donald Trump com este discurso. Mas nada parece alterar a posição dos democratas, principalmente num ambiente tão polarizado como o da política norte-americana.
Before the president gets on television tonight to peddle lies and conspiracy theories, here is what you need to know:
The 2020 election was not stolen. We won, and he lost.
— Kamala Harris (@KamalaHarris) July 17, 2026


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