Com o amoníaco a passear na rua e as notas dos exames perdidas no "digital", o governo parece um "sketch" de humor. Junte-se o Reino Unido a inventar líderes e temos o caos internacional perfeito.

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À noite, para dar de 0 a 20, todos os dias na Rádio Observador, nova edição de "Iuvenes DoRe". Hoje, este domingo, com o António Costa e o Henrique Pornet na análise, a condução é do Miguel Viterbo Dias.

Bom dia, bem-vindos ambos. António Costa é incontornável. Estava há pouco a dizer que já não há silly season como antigamente. O governo tem dois ministros debaixo dos holofotes, o ministro da Educação e o ministro da Administração Interna, que têm provocado problemas à estrutura liderada por Luís Montenegro, que tem sido atacada nos últimos dias.

Sim, por motivos que sabemos muito diferentes. Fernando Alexandre e Luís Neves estão numa situação arriscada. Eu às vezes tenho alguma dificuldade em perceber, vocês perguntam-me o que é mais grave. Eu confesso alguma dificuldade em fazer essa escolha.

São coisas diferentes com gravidades.

Sim, e com naturezas muito diferentes. Vamos a Fernando Alexandre. Saíram as notas, já fiz aqui a minha declaração de interesse. Eu tenho uma filha que fez o exame, teve acesso às duas notas, no caso de Português e História, ao final do dia de sexta-feira. Primeiro uma nota lateral, mas reveladora. Forçar a todo o custo a nota a uma sexta-feira às 20h ou 21h, só para dizer que naquele dia... Sou até um bocado ridículo. Eu lembro-me de um Orçamento de Estado, tinha que entrar até 15 de outubro, entrou às 23h30, e creio que Fernando Teixeira foi o ministro e foi ao Parlamento fazer o número com uma pen vazia. Soa-me a isso. Na verdade, o prazo foi cumprido, enfim, QB, mas isso é, de facto, lateral. Mais grave foram os muitos casos. Eu não sei se foram centenas, se foram milhares, eu vi muitos casos de notas suspensas e, sobretudo, pior do que estarem suspensas ou com a anotação de suspensa, é a falta de informação sobre o que se iria. Isto é , perdão. Há 24 horas, durante o dia de ontem, já começaram a ser lançadas notas nas pautas desses alunos que estavam literalmente em suspenso, eles próprios, não apenas as notas. E eu acho que isto revela uma coisa que é uma reflexão que eu gostava de fazer. Fernando Alexandre é inquestionavelmente um ministro com uma visão verdadeiramente reformista pra educação e que tem mesmo o aluno como prioridade. Nós durante muitos anos tivemos muita discussão sobre educação que deixava o aluno pra último lugar no que se discutia, no que se analisava, era as carreiras, era a evolução profissional, também necessária e legítima dos professores, obviamente. Mas Fernando Alexandre, por exemplo, na fusão da FCT com a ANI, que é a área de ciência e área de inovação das empresas, mostra uma visão. Veremos nos próximos anos como é que vai resultar. Até na capacidade de trazer professores que estavam em serviços administrativos pra as escolas pra dar aulas, isso mostra uma visão. Na fusão de uma série de institutos e instituições, obviamente, se calhar também explicam algum desses problemas, não tenho informação que me permite ir por aí. Mas, na verdade, se o ministro não falha na visão política do que deve ser a educação e no nível de exigência que deve aumentar, falhou enquanto gestor. E essa é, de facto, a lição que eu acho que Fernando Alexandre deve tirar. Eu não sei mesmo, francamente, se Fernando Alexandre tem condições pra continuar em funções, por uma razão: aos ministros não basta ter competência técnica e até uma visão, e Fernando Alexandre tem as duas. É preciso ter autoridade junto de pais, junto de alunos, neste caso, junto de uma instituição que é o Ministério da Educação, que tem obviamente muitos corporativismos, como todos têm, mas Fernando Alexandre, o gestor, falhou. Falhou e à medida que se vai sabendo mais informação sobre o processo, mais nos convencemos que não havia condições pra avançar com a digitalização das correções. Ora, o Fernando Alexandre eu creio que em alguns momentos esteve mal na forma como conduziu. Eu não reduzo a comunicação a "comunicou mal". A comunicação resulta de uma opção de gestão e de opções políticas também. Quando em determinados momentos foi alegando responsabilidades para terceiros, culminando nesta sexta-feira com a responsabilização do júri do exame nacional, quando o júri faz parte obviamente da estrutura do Ministério da Educação, e se não está bem, o ministro tem a obrigação de o substituir. Vamos ver as auditorias, vamos ver os resultados disto, mas, de facto, como gestor desta empresa que se chama Ministério da Educação falhou. Enfim, não gosto deste pé de demissões com muita facilidade. Eu acho que agora o que é importante é avaliar o que aconteceu e perceber, até porque há uma segunda fase, e o que seria obviamente muito negativo que o ministro saísse agora no meio de uma primeira e de uma segunda fase, enquanto todo este processo não está concluído. Mas na dimensão política e da visão do que é a educação em Portugal, o ministro está muito correto na sua competência, obviamente sem questionável, eu diria à esquerda e à direita. Eu acho que na gestão Como gestor público falhou e isso é grave. O ministro da Administração Interna, a cada informação que se vai sabendo aumenta-nos a perplexidade. De facto, no caso da educação é mais grave do ponto de vista sistémico, porque obviamente diz respeito a todos nós.

Afeta as famílias, de forma transversal também ao país inteiro.

E afeta o futuro destes miúdos que agora estão a entrar, ou pode afetar potencialmente, esperemos que não. No caso de Luís Neves é mesmo um caso individual, é daquela pessoa, daquele ministro, e das dúvidas que levanta sobre a consistência e a instituição Polícia Judiciária, que também é grave. No caso de Fernando Alexandre, eu acho que a avaliação sobre a sua continuidade requer mais tempo. Creio que no caso de Luís Neves, a sua continuidade está absolutamente posta em causa e diria que é um ministro absolutamente ferido na sua autoridade. E temo que a cada coisa que se saiba, como a que se soube agora nas últimas horas sobre a munícipe que ainda estava no outro lado, e que afinal era um munícipe e um outro lado que era muito perigoso para a Marinha, mas podia estar numa via pública em Barcelos como se nada fosse. É tão absurdo, é Monty Python. E isso torna absolutamente inviável e impossível a autoridade política de Luís Neves.

E num timing particularmente complicado que é este do verão.

Mas não nos esqueçamos, a ministra que o antecedeu saiu no meio da tragédia das tempestades, de Cristina Aliás. Lembramos que o primeiro-ministro assumiu a pasta durante algumas semanas, duas, três, quatro semanas. Eu acho que há uma avaliação que tem que ser feita política independentemente dessa decisão dos incidentes. Espera-se que o sistema esteja montado para responder, que não esteja à espera do ministro para que funcione.

Já te vou pedir as notas depois no fim. Entretanto, Henrique Borné, é também sobre avaliações políticas que vamos falar, mas no Reino Unido, com a sucessão de Keir Starmer por Andy Burnham, que deverá a partir de amanhã assumir outro protagonismo. Que mudança também é que se prevê para o Reino Unido com a mudança dos protagonistas, no caso do primeiro-ministro?

Bom dia, Miguel. Bom dia, António. Deixa-me só fazer um bocadinho de foiçenciar a alheia.

É a minha secção particular no "E o Vencedor É..." há uma subseção que é foiçenciar a alheia. Eu nesta tenho pouco a dizer, porque não tenho acompanhado, até porque não acompanho com tanta atenção e nem sou parte interessada no caso da questão da educação. E portanto, se calhar mais distância ainda, mas eu estava a ouvir o António e de facto a notar aqui as duas diferenças grandes neste assunto. É que as histórias com