O pacto civil, concretizado após mais de duas décadas, sofre reviravolta com nova condição de Trump sobre os Acordos de Abraão

Compartilhar matériaNa tarde de quarta-feira (22), autoridades se reuniram na sede do Departamento de Energia, no centro de Washington, para um evento que levou mais de duas décadas para acontecer: a assinatura de um acordo nuclear civil entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita.

Dois conjuntos de bandeiras americanas e sauditas foram colocados no palco e sobre a mesa onde estava sentado o secretário de Energia, Chris Wright. Uma grande tela transmitia a participação de seu equivalente saudita, em Riad. Após meses de atrasos, o acordo finalmente foi assinado.

Os sauditas haviam conquistado grande parte dos pontos que desejavam no acordo.

Mas, tão rapidamente quanto foi anunciado, o acordo pareceu desmoronar.

Na manhã de quinta-feira (23), Trump afirmou em uma publicação nas redes sociais que o acordo estava sujeito a uma nova condição: a Arábia Saudita teria que aderir aos Acordos de Abraão, uma iniciativa que remonta ao primeiro governo Trump e que levou vários países árabes a normalizarem suas relações diplomáticas com Israel. Trump também negou que o acordo permitiria o enriquecimento de urânio.

Segundo uma fonte familiarizada com o assunto, o presidente já estava irritado com o anúncio do acordo, pois Wright não havia informado a Trump que faria a divulgação.

A frustração de Trump foi agravada, segundo fontes ouvidas pela CNN, após uma onda de críticas de especialistas e veículos de mídia conservadores.

Isso incluiu uma cobertura cética no canal de sua preferência, a Fox News, e na página editorial do Wall Street Journal, que questionaram por que o acordo havia sido firmado sem um acordo de normalização das relações, algo que ambos os veículos destacaram que o presidente Joe Biden também vinha buscando.

A nova condição, que a Casa Branca insistiu ser há muito tempo um objetivo de Trump e que não deveria ter surpreendido ninguém, surpreendeu os próprios negociadores nucleares do governo.

Segundo duas fontes informadas sobre o assunto ouvidas pela CNN, a exigência de adesão aos Acordos de Abraão era inesperada para eles.

Com a confusão tomando conta da situação, autoridades da Casa Branca culparam seus colegas do Departamento de Energia, de acordo com uma fonte, que afirmou que a Casa Branca havia pedido ao departamento que não divulgasse o acordo na quarta-feira. Mas Wright — que, no passado, já havia sido criticado por funcionários da Casa Branca por se antecipar aos acontecimentos — seguiu em frente, inclusive concedendo uma entrevista à Fox Business.

Na visão de alguns assessores de Trump, o acordo ainda não estava finalizado, pois cartas que precisavam ser enviadas ao Congresso ainda não haviam sido encaminhadas.

A fonte afirmou que o presidente e muitos de seus principais assessores ficaram furiosos com a decisão de divulgar o acordo.

Trump disse a repórteres na sexta-feira (24) que ele e seu secretário de Energia — que estava atrás dele no Salão Oval — não haviam discutido o assunto quando questionado se havia autorizado Wright a assinar o acordo.

“Não conversamos sobre isso, mas sempre ficou entendido — e Chris sabia, e a Arábia Saudita sabia — que, se eles não aderissem aos Acordos de Abraão... eu não faria o acordo”, disse Trump.

“A equipe de energia do presidente Trump está totalmente alinhada, e sempre esteve: o acordo nuclear civil negociado entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita depende da adesão da Arábia Saudita aos bem-sucedidos Acordos de Abraão, que ajudarão a trazer uma paz verdadeira ao Oriente Médio”, afirmou a porta-voz da Casa Branca, Taylor Rogers, em um comunicado divulgado na noite de quinta-feira.

O Departamento de Energia destacou sua estreita coordenação com a Casa Branca. “Isso é notícia falsa. O Departamento de Energia coordenou de perto as negociações e, posteriormente, o anúncio desses acordos com a Casa Branca e o Departamento de Estado.

Qualquer sugestão em contrário é falsa”, afirmou o secretário de imprensa Ben Dietderich em um comunicado na noite de quinta-feira, acrescentando que o acordo e os Acordos de Abraão “alcançam um objetivo comum — promover uma paz duradoura por meio do comércio, e não do conflito”.

A irritação da Casa Branca aumentou quando a coletiva de imprensa de quinta-feira foi dominada por perguntas sobre o acordo. Karoline Leavitt destacou que Trump era o “negociador final” quando questionada sobre por que a nova condição não havia feito parte do anúncio de quarta-feira.

A publicação de Trump no Truth Social na manhã de quinta-feira também pegou os sauditas de surpresa. Para eles, o acordo nuclear — que não incluía a exigência de normalização das relações — havia sido uma grande vitória.