Investigou, inovou e formou nas melhores instituições europeias e americanas, dirigiu o Instituto Gulbenkian de Ciência. É citadíssimo e premiadíssimo. E mais que convidado, foi sempre escolhido.
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"Melhor é difícil" é um podcast em que Maria João Avillez entrevista portugueses que são exemplos de excelência, que são os melhores nas suas áreas e contam como chegaram ao topo.
Bem-vindo, António Coutinho. É uma honra para mim tê-lo aqui como convidado.
É uma honra que me obriga a ler uma parte do seu currículo, porque entendo que devo partilhar o que ele é com quem nos está a ver ou com quem nos está a ouvir. António Coutinho, médico imunologista formado em Lisboa e investigador doutorado no Instituto Karolinska, em Estocolmo. Dirigiu laboratórios, departamentos e institutos de investigação na Suécia, Suíça, França e Portugal. Professor titular catedrático em faculdades de medicina na Suécia, Suíça e Portugal, e professor convidado em universidades na Europa, Estados Unidos e Brasil. É membro de várias academias e autor de centenas de artigos científicos, que o classificaram como o investigador mais citado de um ano que não podemos precisar bem, mas o que interessa é que foi o investigador mais citado em determinado ano e que conduziu 30 jovens investigadores a doutoramento. Foi premiadíssimo dentro e fora do país e distinguido com altas condecorações aqui e além-mar. Em Portugal, criou o programa Gulbenkian de Doutoramento, em 1993, dirigiu o Instituto Gulbenkian de Ciência, presidiu à Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa e ao Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia e ao High Level Group for a European Research Area. Melhor é impossível.
Não, melhor é muito possível, Maria João. Muito obrigado por me ter aqui.
Não, tinha de começar assim.
Pela sua gentileza em ler essa longa história.
Olhe, eu quase que me perdi na floresta deste seu currículo, tanto trabalho e tanto brilho na ciência e na investigação, na academia, ensinando, criando e inovando. Esta árvore de excelência, antes de voarmos para a Suécia, começou a ser, apesar de tudo, semeada um pouco aqui na universidade, na faculdade de medicina?
Sem dúvida. Eu ainda sou do tempo em que tive professores extraordinários na faculdade de medicina, que alguns deles certamente que me encorajaram para procurar respostas para perguntas que todos tínhamos, porque a ignorância era muito abundante. E isso levou-me a começar a fazer alguma investigação ainda aqui no país, antes de sair. E depois era óbvio para mim que tinha que fazer a investigação, que era a coisa que mais me atraía. Também me atraíam os doentes, e ver os doentes e estar com eles. Mas também me pareceu que sem fazer a investigação, não estava suficientemente preparado para tratar de coisas tão complexas como é a doença humana.
Antes de irmos para a Suécia, como eu tinha dito, exatamente pelo que acabou de me dizer, como é que se descobre a vontade da ciência como um caminho que se escolhe, sabendo que esse caminho exige uma dedicação especial no tempo, no estudo, na atenção minuciosa, na incerteza de resultados. O que é que o fez, gostando apesar de tudo, muito dos doentes, dizer: "É isto"?
Eu penso que o que foi mais atraente para mim nessa altura foi a questão da racionalidade. Quer dizer, na medicina da época, ainda havia muita coisa que era feita por métodos tradicionais e que não havia uma explicação racional pela qual estávamos a fazer. A racionalidade da ciência atraiu muito, não sei, como atrai quase toda gente que se preocupa com o que estamos a fazer aqui e com o mundo e como é que é o mundo.
De facto, a ciência e a filosofia nasceram juntas.
Com certeza. Mas é essa preocupação de racionalizar o mundo e a vida. E nesse período da minha vida, foi certamente o que mais me atraiu pela ciência. É verdade o que disse, que também atrai muito o sentido da dúvida.
Exato, a incerteza dos resultados é muito interessante.
De certa maneira, é a melhor vacina contra verdades absolutas. Percebe? É muito atraente.
E contra o império das verdades absolutas.
Exatamente. Atrai muito por isso.
Olhe, António, acho que temos que parar em Estocolmo e noutras cidades suecas, com o detalhe que esses anos lhe mereceram em mestres, em saber, em avanços, em resultados. O que é que gostava de lembrar aqui?
Com certeza. Gostava de lembrar, para começar, e sem dúvida, o meu primeiro mestre, que foi o meu orientador da tese de doutoramento, que se chamava Göran Müller, já falecido há uns anos, que era uma pessoa extraordinariamente generosa, extraordinariamente racional e que me ensinou o que é que é isto de fazer ciência. Eu cheguei lá sem saber nada. Era médico, sem saber nada de como é que se vivia no laboratório, como é que se faziam as coisas, quais eram as perguntas fundamentais. E ele recusou-se sempre a dar-me um tema de doutoramento, que a obrigação era que eu escolhesse, que eu descobrisse o que é que eu queria saber.
Mais do que escolhesse, descobrisse.


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