Menos telas e mais vínculos nas escolas que ensinam a sentir, criar e pertencer

Enquanto o celular ocupa cada vez mais espaço na infância, educadores apostam na arte e no fortalecimento das relações entre alunos e professores para cuidar da saúde mental, apostando na inteligência ancestral como uma das melhores ferramentas para o futuro da educação.

Hoje, as crianças passam horas diante das telas, e muitas vezes, encontram cada vez menos oportunidades para conversar, criar, brincar e interagir com outras pessoas. A tecnologia trouxe inúmeras possibilidades para o ensino, mas também impôs o desafio de desenvolver empatia, criatividade, autoestima e inteligência emocional em uma geração digital e acostumada com a vida on-line.

O desafio para os gestores e professores está em criar vínculo com os alunos, pois quando eles ses sentem pertencentes à escola há uma experiência coletiva de criação artística,  há um benefício a mais na aprendizagem do conteúdo programático e uma contribuição significativa para a sáude mental de todos.

Duas experiências desenvolvidas em escolas brasileiras mostram como a educação pode resgatar esse protagonismo das relações humanas. Em Salvador, o Colégio São Paulo, da Inspira Rede de Educadores, incorporou a educação socioemocional à rotina desde a Educação Infantil, criando espaços permanentes de escuta, diálogo e acolhimento.

No interior do Paraná, em Guaraniaçu, a Escola Municipal Joaquim Modesto da Rosa encontrou na arte uma maneira de aproximar alunos, famílias e comunidade. O projeto "Arte que Planta Futuro", idealizado pelo professor Matheus Welington Picolli, transformou milhares de tampinhas plásticas em um grande mural colaborativo e mostrou que a criação coletiva também é uma forma de cuidar da saúde emocional.

Embora utilizem caminhos diferentes, as duas iniciativas compartilham a mesma convicção, a de que se aprende melhor quando nos sentimos pertencentes, valorizados e emocionalmente seguros. E esse talvez seja um dos maiores desafios — e também uma das maiores missões — da escola contemporânea.

Na escola de Salvador, o cuidado com a saúde mental faz parte da rotina escolar desde a Educação Infantil. A  diretora Larissa Machado, mestre em Psicologia da Educação, conta que lá há encontros permanentes, pois o trabalho precisa preceder qualquer conflito: "Nosso trabalho é essencialmente preventivo. Criamos espaços permanentes de diálogo para que as crianças possam falar sobre conflitos, emoções, convivência, bullying, cyberbullying e o impacto do mundo digital. Acreditamos que desenvolver essas habilidades desde cedo fortalece a saúde mental e contribui para relações mais respeitosas dentro e fora da escola."

Mas esse acolhimento tem um propósito, ele é planejado e construído junto com a rotina escolar: "Os vínculos não acontecem por acaso. Eles são construídos todos os dias, de forma intencional. Acreditamos que ninguém aprende de verdade se não se sentir seguro, acolhido e respeitado. Por isso, investimos muito na maneira como recebemos cada criança, na escuta durante um conflito, nas rodas de conversa, nos projetos colaborativos e, principalmente, na relação de confiança com as famílias", conta a diretora do colégio.

Larissa acredita que até os conflitos fazem parte do processo educativo: "Em vez de simplesmente apontar quem está certo ou errado, ajudamos o aluno a reconhecer o que está sentindo, compreender o impacto das próprias atitudes, desenvolver empatia e encontrar soluções por meio do diálogo. Quando a família participa desse processo, o resultado é ainda mais consistente, afinal, as crianças aprendem muito mais com aquilo que vivenciam do que com aquilo que apenas escutam. A cultura de paz se constrói na forma como os adultos conversam entre si, acolhem os erros, resolvem conflitos e demonstram respeito no cotidiano", conta.

Se em Salvador a palavra é instrumento de acolhimento, em Guaraniaçu, no Paraná, ela divide espaço com outra poderosa forma de expressão, a arte. Na Escola Municipal Joaquim Modesto da Rosa, o professor Matheus Welington Picolli criou o projeto "Arte que Planta Futuro", que mobilizou 263 estudantes, famílias, comerciantes e moradores para construir com os alunos um grande mural feito com tampinhas de garrafas plásticas. À primeira vista, o projeto fala apenas sobre sustentabilidade, mas na prática, traz o  pertencimento de alunos que deixam o celular por algumas horas para realizarem uma criação coletiva.

Matheus leciona há 13 anos na rede pública e observa uma mudança importante nas novas gerações:  "As crianças chegam cada vez mais conectadas às telas e, muitas vezes, com menos oportunidades de convivência, de brincar e de criar livremente.  Quando colocam a mão na massa, conversam, resolvem problemas juntas e veem um resultado concreto sendo construído, desenvolvem habilidades que nenhuma tecnologia consegue substituir: empatia, cooperação, paciência e senso de responsabilidade, relata o professor.

O mural tornou-se um símbolo da cidade, mas talvez o maior resultado não esteja na obra pronta.  "Pensei em unir Arte, educação ambiental e participação da comunidade em um único projeto. Depois que o mural viralizou, passamos a receber mensagens e doações de tampinhas de diversas regiões do Brasil. Isso mostrou que, quando uma boa ideia mobiliza pessoas, ela ultrapassa os muros da escola", conta o professor.

Em tempos de hiperconexão, talvez o maior ato de coragem da educação seja justamente devolver às crianças aquilo que nenhuma tecnologia consegue substituir, que é a experiência de serem vistas, ouvidas, acolhidas e inspiradas por pessoas. É nessa aproximação entre professores e alunos, na conversa que acolhe, na arte que desperta união e no espaço seguro para a expressão que a escola cumpre uma de suas missões mais nobres, que é ajudar a formar seres humanos empáticos. O futuro agradece.