O Mediterrâneo tem zonas até 6ºC acima do normal e os oceanos bateram um novo recorde. Mais calor no mar significa noites mais quentes, mais humidade, tempestades mais intensas e mais "heat domes".

O mar quente não é apenas mais um sintoma das alterações climáticas. É também uma gigantesca reserva de energia capaz de influenciar o tempo e o clima em terra, alimentar noites tropicais, fornecer mais humidade às tempestades e aumentar a pressão sobre os ecossistemas marinhos. Afinal, o que está a acontecer ao Atlântico Norte e ao Mediterrâneo?

Os dados do Copernicus mostram que, a 29 de junho, praticamente todos os mares europeus apresentavam temperaturas da superfície acima da média, com destaque para o Mediterrâneo ocidental, o mar do Norte e o Báltico.

???? Ya hace mucho calor sin que haya olas de calor: un meteorólogo italiano advierte del papel que juega el mar Mediterráneo.https://t.co/rO5iNuI5Pt pic.twitter.com/ls331VzXBY

— Meteored España (@MeteoredES) July 2, 2026

Sim. E não apenas no Mediterrâneo. A 21 de junho, a temperatura média da superfície dos oceanos fora das regiões polares atingiu 20,86ºC, segundo o Serviço de Alterações Climáticas Copernicus (C3S), superando o anterior recorde de 20,83ºC, registado em 2023 e repetido em 2024. O Serviço de Vigilância Marinha do Copernicus (CMEMS) chegou mesmo aos 21,0ºC, mais uma décima do que os máximos anteriores.

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— Eltiempo.es (@ElTiempoes) July 1, 2026

O Mediterrâneo ocidental apresenta atualmente anomalias de até +6ºC, enquanto algumas zonas do Tirreno já se aproximam dos 30ºC. O mar do Norte e o Báltico também registam anomalias muito significativas. À escala global, a diferença é de apenas algumas centésimas de grau. Mas os oceanos cobrem cerca de 361 milhões de quilómetros quadrados, aproximadamente 71% da superfície do planeta, e absorvem perto de 90% do excesso de calor provocado pelo aquecimento global, segundo a NASA e a Organização Meteorológica Mundial.

Contas feitas, em 2025, os oceanos acumularam mais 23 zetajoules de energia adicional. A Organização Meteorológica Mundial comparou essa quantidade de calor a cerca de 200 vezes toda a eletricidade produzida no mundo em 2024.

Tal como acontece na atmosfera, também o mar pode entrar em onda de calor. Os cientistas falam de uma onda de calor marinha quando a temperatura da superfície do mar se mantém durante vários dias consecutivos muito acima do normal para aquela região e para aquela época do ano (a mesma definição para as ondas de calor em terra).

O Mediterrâneo tornou-se um dos maiores pontos de preocupação do planeta porque estas ondas de calor marinhas, tal como as terrestres, estão a tornar-se mais frequentes, mais intensas e mais duradouras.

Os dados do Copernicus mostram que, nos últimos três anos, toda a bacia mediterrânica registou condições de onda de calor marinha e pelo menos metade do mar sofreu episódios classificados como severos ou extremos.

Há várias razões, mas uma delas é particularmente importante este ano: os bloqueios anticiclónicos persistentes.

Ora, quando o anticiclone se instala, o vento diminui drasticamente, o mar perde menos calor para a atmosfera e as águas superficiais aquecem rapidamente. Todo um ciclo vicioso.

The Mediterranean Sea #heatwave is so severe, I ran out of colors in my color table. Sea surface temps are peaking at 8C/ 15F above normal! Perhaps more impressive is how expansive the area of +6C/ +10°F anomalies are (in white). Much of the water is 29-32C/ 84-90F. The Sea is… pic.twitter.com/cqNxE3pb7C

— Jeff Berardelli (@WeatherProf) July 1, 2026

O problema é exatamente este processo que se pode tornar circular. O mar aquece e, ao aquecer, ajuda a reforçar e a estabilizar o anticiclone, contribuindo para a persistência dos bloqueios atmosféricos. O anticiclone aquece o mar e o mar ajuda o anticiclone a permanecer no mesmo local durante mais tempo. E temos um bloqueio.

????️???? Teremos que pedir ao departamento de meteorologia que amplie mais uma escala: a das temperaturas dos mares e oceanos.

Anos atrás, foi preciso ampliar a escala de temperatura da superfície do ar de 50°C para 52°C.

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