Havaianas, biquínis por debaixo da roupa, chapéus, óculos escuros, toalha. A promessa de uma Berlim, a 40°C, dava um certo tom de praia à capital alemã nas primeiras horas da manhã. Horas depois, filas na entrada de balneários, piscinas públicas e em restaurantes com ar-condicionado lembravam que o momento tropical tinha preço. Leia mais (06/28/2026 - 13h00)
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28.jun.2026 às 13h00
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José Henrique Mariante
Havaianas, biquínis por debaixo da roupa, chapéus, óculos escuros, toalha. A promessa de uma Berlim, a 40°C, dava um certo tom de praia à capital alemã nas primeiras horas da manhã. Horas depois, filas na entrada de balneários, piscinas públicas e em restaurantes com ar-condicionado lembravam que o momento tropical tinha preço.
Neste fim de semana, o capítulo alemão da mais severa onda de calor na Europa, que assola o continente há cerca de dez dias, seguiu roteiro parecido com o dos países vizinhos. Desde sexta-feira (26), o recorde de temperatura diurna caiu três vezes (41,3°C, 41,5°C e 41,7°C), e o noturno, uma vez (29,4°C).
Os atendimentos dispararam em hospitais e nos bombeiros. Há alertas sobre incêndios florestais e queimadas. O sistema de transporte virou um caos.
Em Brandemburgo, estado que abraça a capital alemã, 630 pessoas ficaram presas nos vagões de um trem que seguia de Hamburgo para Praga, na República Tcheca. O fornecimento de energia na linha foi interrompido na noite de sábado (27), depois do forte calor ter provocado uma tempestade.
Equipes de emergência tiveram que arrombar as portas dos carros. A climatização também havia sido interrompida. Três passageiros acabaram sendo hospitalizados.
O episódio fez a Deutsche Bahn, estatal ferroviária, reforçar a recomendação para que a população evitasse viagens desnecessárias. Na quinta-feira (25), quando a previsão meteorológica já apontava o auge do calor para o fim de semana, a companhia abriu a possibilidade de reembolso ou reagendamento sem custo de passagens compradas.
No centro de Berlim, o centenário metrô de superfície, o S-Bahn, também tinha parte das linhas paralisadas. Nos carros que corriam, sem ar-condicionado, as janelas das portas suavam com a transpiração dos passageiros.
O sistema, inaugurado em 1924, foi renovado recentemente, mas a refrigeração foi descartada por questões estruturais. Nem o prédio da chamada Chancelaria, que abriga o primeiro-ministro, Friedrich Merz, é totalmente climatizado. O dilema não é apenas de Berlim ou da Alemanha. Apenas 19% das edificações na Europa têm ar-condicionado. Em um continente antes frio, calor nunca foi um problema.
A mudança climática, provocada sobretudo pela queima de combustíveis fósseis, mudou radicalmente essa realidade.
A atual onda de calor é a mais severa da história da Europa, segundo estudo do WWA (World Weather Attribution), grupo de cientistas liderado pelo Imperial College, de Londres. As temperaturas recordes atuais seriam impossíveis há 50 anos.
Neste fim de semana, os termômetros superaram os 40°C não apenas na Alemanha, mas também na Itália e na Polônia. Na França, as autoridades estimaram um excesso de ao menos mil mortes relacionadas à onda de calor.
"Impulsionado pela mudança climática e pelo aquecimento global, o fenômeno da onda de calor ‘que ocorre uma vez a cada geração’ agora vem se repetindo quase anualmente. Já fomos alertados", escreveu em rede social Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS (Organização Mundial de Saúde).
Atualmente, 150 milhões de pessoas no mundo vivem sob calor extremo, a condição climática que mais mata no planeta.
Muitos sem chance de acionar qualquer tipo de serviço de emergência, como em Berlim. Apenas no sábado, mais de 2.000 chamadas foram recebidas.



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