Thomas Regnier disse que os eventos devem proteger valores democráticos, que não são respeitados na Rússia. A bienal lamentou a decisão: "O financiamento destinava-se a projetos sem ligação à Rússia".

A Comissão Europeia cancelou um subsídio plurianual de dois milhões de euros atribuído à Bienal de Veneza, considerando incompatível com os valores da União Europeia o regresso da Rússia à edição deste ano da mostra internacional de arte contemporânea.

A decisão, anunciada na terça-feira, foi tomada pela Agência Executiva Europeia para a Educação e a Cultura (EACEA), na sequência de um parecer jurídico e de uma recomendação da Comissão Europeia, segundo o porta-voz da instituição, Thomas Regnier, citado pela agência AFP.

A Bienal tinha confirmado o regresso da Rússia, que gerou protestos, à edição de 2026, que decorre desde 9 de maio e termina a 22 de novembro, reunindo cem pavilhões nacionais e uma exposição geral com 111 participantes.

Após a invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022, a Bienal de Veneza anunciou que, enquanto o conflito persistisse, não aceitaria delegações oficiais, instituições ou pessoas ligadas ao governo russo. A Rússia não participou nas edições de 2022 e 2024, mas regressou este ano ao certame.

A forma de atribuição dos prémios foi também contestada por um grupo de 67 artistas e 39 pavilhões nacionais, incluindo o de Portugal, que pediram para ser retirados da lista, dando seguimento ao protesto contra a participação de Israel e da Rússia na bienal, e em solidariedade com o júri que se demitiu em abril, tendo comunicado esta sua decisão publicamente nas redes sociais.

A crise na edição da Bienal de Arte de Veneza teve origem a 23 de abril, quando o júri internacional anunciou um boicote inédito: excluir da atribuição de prémios países cujos líderes fossem acusados de crimes contra a humanidade pelo Tribunal Penal Internacional.

Esta decisão do júri presidido pela curadora e gestora cultural brasileira Solange Oliveira Farkas gerou polémica imediata no meio cultural ao atingir diretamente as representações de Israel e da Rússia.

Perante este conflito institucional e falta de consenso, os cinco membros do júri demitiram-se em bloco a 30 de abril, nove dias antes da inauguração. O painel era ainda composto por Zoe Butt, Elvira Dyangani Ose, Marta Kuzma e Giovanna Zapperi.

A participação motivou protestos de representantes da Ucrânia e de vários setores do meio artístico internacional, incluindo do coletivo dissidente russo Pussy Riot, e, atualmente, o pavilhão permanece encerrado ao público, sendo apenas visíveis, através das janelas, gravações de vídeo das atuações apresentadas durante a abertura.

Criada em 1895, a Bienal de Veneza é uma das mais importantes manifestações internacionais dedicadas à arte contemporânea, reunindo, a cada dois anos, cerca de uma centena de pavilhões nacionais, exposições e eventos paralelos.