Pesquisa identificou sertralina em tubarões-martelo; resultados ainda serão submetidos à revisão por pares
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5.jul.2026 às 5h00 Atualizado: 6.jul.2026 às 18h16
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Pesquisadores do Projeto EcoShark, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), identificaram a presença do antidepressivo sertralina no cérebro de tubarões-martelo capturados no litoral fluminense.
Segundo a coordenadora da pesquisa, a bióloga Mariana Alonso, este é o primeiro registro do tipo no Brasil e um dos poucos descritos no restante do mundo. O achado acende um alerta sobre a contaminação dos oceanos por resíduos de medicamentos e seus possíveis impactos em espécies marinhas ameaçadas de extinção.
Os resultados ainda não foram revisados por pares. De acordo com a professora, o artigo deverá ser submetido à publicação em revista científica até o fim deste mês.
A equipe analisou 20 tubarões-martelo de duas espécies —o tubarão-martelo-recortado (Sphyrna lewini) e o tubarão-martelo-liso (Sphyrna zygaena)— capturados acidentalmente por pescadores parceiros do projeto em pontos do litoral do Rio de Janeiro, como Copacabana, Barra da Tijuca, Recreio e Guaratiba.
Foram examinados diferentes tecidos e órgãos, entre os quais fígado, músculo, brânquias, cérebro e as ampolas de Lorenzini, estruturas sensoriais localizadas na cabeça dos tubarões. O trabalho levou cerca de três anos entre a coleta dos animais, as análises laboratoriais e a interpretação dos dados.
"Normalmente, o fígado é o órgão onde encontramos a maior parte dos contaminantes. Desta vez, a sertralina apareceu praticamente apenas no cérebro. Foi isso que nos chamou atenção", afirma Mariana Alonso.
Segundo a bióloga, a sertralina foi detectada na maior parte dos tubarões analisados. Em alguns exemplares o antidepressivo não foi detectado, explicou Alonso, possivelmente por limitações relacionadas ao tamanho das amostras e à sensibilidade dos equipamentos utilizados.
Questionados, os pesquisadores responsáveis pelo estudo disseram que não divulgariam o número exato de animais em que a substância foi identificada porque o artigo ainda está em fase final de submissão a uma revista científica e os dados detalhados só serão tornados públicos após a revisão por pares.
A presença do medicamento justamente no cérebro preocupa porque esse é o órgão onde a sertralina age em humanos. Apesar disso, Alonso ressalta que ainda não há evidências de que os tubarões tenham sofrido alterações em decorrência da contaminação.
"Encontrar o contaminante foi o primeiro passo. Agora precisamos entender se ele interfere nos níveis de serotonina dos tubarões e se isso pode alterar seu comportamento", diz.
Em experimentos com peixes-zebra, espécie amplamente utilizada em pesquisas de laboratório, estudos anteriores associaram a exposição à sertralina a alterações como natação mais lenta e dificuldades de aprendizagem. Ainda não se sabe se efeitos semelhantes podem ocorrer em tubarões.
A próxima etapa da pesquisa buscará justamente responder a essa questão. Os pesquisadores pretendem ampliar o número de animais analisados para verificar se filhotes, juvenis e adultos apresentam níveis diferentes de contaminação e investigar se a substância pode ser transferida da mãe para os filhotes durante a gestação.
Ambas as espécies analisadas são consideradas ameaçadas de extinção. O tubarão-martelo-liso é classificado como vulnerável, enquanto o tubarão-martelo-recortado é considerado criticamente ameaçado, um dos níveis mais elevados de risco de desaparecimento.
"Os tubarões são considerados sentinelas dos oceanos. Se chegou ao tubarão, [a substância] passou por toda a cadeia alimentar", afirma Alonso.




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