Dê de presentePrefira a Gazeta no GoogleDuas alianças históricas foram abaladas quase ao mesmo tempo, expondo o custo de uma política externa guiada por disputas internas. (Foto: Imagem produzida com auxílio de Open IA/Gazeta do Povo)Ouça este conteúdo

Há datas que os historiadores demoram décadas para reconhecer como pontos de inflexão. Outras se anunciam de imediato, com a clareza brutal dos desastres. O dia 4 de agosto de 2026 pertence à segunda categoria. Em menos de 24 horas, o governo Lula conseguiu a proeza, inédita em mais de 200 anos de história diplomática, de romper simultaneamente com os seus dois parceiros mais importantes do Hemisfério Ocidental. 

Mais do que contexto diplomático particularmente grave, trata-se da erosão deliberada de um dos ativos estratégicos mais valiosos que uma nação pode possuir, sua credibilidade internacional. 

Na política internacional, confiança não é um atributo moral; é ativo de poder que determina onde o capital será investido, quais tecnologias serão compartilhadas, que alianças sobreviverão às crises e quais países serão considerados parceiros em momentos de tensão. Credibilidade leva décadas para ser construída, mas pode ser destruída em poucos meses.

Credibilidade leva décadas para ser construída, mas pode ser destruída em poucos meses

Em Washington, o Departamento de Estado anunciou o cancelamento do visto da embaixadora do Brasil, Maria Luiza Viotti, episódio sem precedente na relação bilateral desde que os Estados Unidos, em 1824, tornaram-se o primeiro país do mundo a reconhecer a independência brasileira. 

Em Brasília, no mesmo dia, o Itamaraty convocou o embaixador da Argentina, Daniel Raimondi, para comunicar-lhe que estava dispensado, que a relação com o principal sócio sul-americano do Brasil ficaria rebaixada ao nível de encarregados de negócios e que o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli, não retornaria à capital argentina. 

Foram necessárias oito gerações de diplomatas para construir esses dois pilares. Bastou um governo lulopetista para dinamitar ambos no mesmo dia.

Convém medir a profundidade do buraco antes de perguntar quem cavou. A relação com os Estados Unidos jamais foi uma relação qualquer. Foi para Washington que o Barão do Rio Branco deslocou o eixo da política externa brasileira em 1905, elevando ali a primeira embaixada do Brasil no mundo e nela instalando Joaquim Nabuco.

 Foi ao lado dos americanos que a Força Expedicionária Brasileira tomou Monte Castello, e foi de Natal, transformada em principal plataforma logística dos Aliados no Atlântico Sul, o trampolim da vitória, que partiu parcela relevante do esforço de guerra que ajudou a derrotar o nazifascismo.

Essa aproximação nunca significou subordinação. Significou o reconhecimento de uma realidade elementar da geopolítica: grandes estratégias são construídas sobre interesses permanentes, não sobre afinidades ideológicas transitórias. Como ensinava Hans Morgenthau, o primeiro dever da política externa é preservar e ampliar o interesse nacional, jamais instrumentalizá-lo em favor de disputas domésticas.

 Apesar da hostilidade de Lula, os EUA permanecem sendo o principal destino das manufaturas brasileiras, o maior investidor estrangeiro acumulado no País há um século e a fonte de tecnologia, capital e certificações de que dependem setores inteiros da economia nacional. Brasil e EUA jamais travaram guerra entre si, jamais lutaram em lados opostos, jamais se trataram como inimigos. Era, como escreveram tantos dos nossos maiores, de Rui Barbosa a Afonso Arinos, uma aliança natural. Era.

Os acontecimentos de Washington dispensam adjetivos, mas não cronologia. Em março deste ano, o Conselheiro Sênior de Donald Trump, Darren Beattie, teve seu visto revogado. Beattie pretendia viajar ao Brasil para participar de uma conferência sobre minerais críticos em São Paulo e visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro. O MRE alegou informações falsas prestadas pelo governo americano para fundamentar sua esdrúxula decisão, a qual apenas serviu para reforçar, no exterior, a percepção de que Bolsonaro estaria sendo tratado como um preso político e aprofundou o desgaste da imagem internacional do Brasil.

Em junho, o presidente Trump indicou Daniel Perez para a embaixada em Brasília. O governo brasileiro, em manobra tão mesquinha quanto obtusa, sentou-se sobre o agrément, o ato de cortesia mais elementar da gramática diplomática, calculando empurrar eventual aprovação para depois das eleições de outubro e transformando um procedimento técnico e rotineiro em instrumento de cálculo político doméstico.

 Em julho, o Itamaraty negou vistos a dois altos funcionários do Departamento de Estado, sob a acusação irresponsável e gravíssima de que se tratava de uma manobra norte-americana para interferir nas eleições brasileiras. A resposta, dura, veio na terça-feira 4 de agosto: a chefe da missão brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti teve seu visto revogado, com o aviso público de que o documento será restabelecido quando o agrément for concedido, e com o acréscimo de que outras ações não estão descartadas.

Traduzindo do diplomatês: a escada da escalada está armada, e o Brasil insiste em, levianamente, subir os degraus. Na literatura clássica das Relações Internacionais existe uma premissa frequentemente ignorada por governos imprudentes e excessivamente confiantes em sua capacidade de improvisação: crises diplomáticas são fáceis de iniciar, mas extremamente difíceis de controlar.

Uma vez rompida a confiança estratégica entre dois Estados, cada gesto passa a ser interpretado sob a lógica da escalada, e cada resposta tende a produzir outra ainda mais severa. Um governo minimamente sério teria resolvido o impasse em uma semana, com um telefonema e uma nota. O governo Lula preferiu transformar um expediente de rotina em casus belli eleitoral, porque um conflito com Trump rende palanque, e o palanque, para o lulopetismo, sempre valeu mais do que os interesses do Brasil.

Traduzindo do diplomatês: a escada da escalada está armada, e o Brasil insiste em, levianamente, subir os degraus

O caso argentino é ainda mais revelador, porque ali nem sequer existe a desculpa da assimetria de poder. O que está em jogo não é uma disputa entre uma grande potência e um país emergente, mas a deterioração deliberada da relação entre dois países cuja prosperidade sempre esteve profundamente interligada.

A Argentina é o terceiro maior mercado das exportações brasileiras e o primeiro das nossas manufaturas de maior valor agregado; é o sócio fundador do Mercosul, o parceiro estratégico de meio século de integração paciente, de Itaipu ao acordo nuclear, da Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (ABACC), uma das mais bem-sucedidas experiências de construção de confiança estratégica entre antigos rivais regionais, às cadeias automotivas integradas.