O "samba" agora fala italiano. Com Ancelotti, o Brasil deixou de ser um bando de clãs e estrelas isoladas para se tornar num bloco sólido. Ainda a Alemanha: de potência mundial a fábrica de feriados.
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Sayonara, Alemanha. Sayonara, Países Baixos. Sayonara, Japão. Brasil, Marrocos e Paraguai seguem em frente neste mundial rumo aos oitavos. No menu de hoje, mais logo há um Costa do Marfim e Noruega, um França e Suécia, e depois das 02h00 temos também um duelo latino entre México e Equador. Para a avaliação e pontuação dos protagonistas da atualidade desportiva, tenho hoje comigo Mariana Fernandes, Augusto Inácio, Gabriel Alves e Pedro Henriques. Eu sou o Nelson Ferreira. Mariana, muito bem-vinda. Desta tarde, noite de ontem, algumas surpresas. Qual para ti foi a maior? A da Alemanha e pelo que estive a ler na imprensa, estão a ferro e fogo com muitos comentadores, ex-jogadores, tudo a dizer mal da prestação alemã que ditou em afastamento ontem frente ao Paraguai.
Sim, eu não sei se os alemães esperavam mais ou se os alemães achavam que por terem ultrapassado a fase de grupos, que era uma coisa que não tinha acontecido nas últimas duas edições do Campeonato do Mundo, estavam a dar sinais positivos de que podiam ser novamente candidatos a uma presença na final. A verdade é que daquilo que eu vi da Alemanha na fase de grupos, nunca houve propriamente uma indicação de que essa grande Alemanha, de que essa Mannschaft muito poderosa estivesse realmente de volta. Não que estivesse à espera de que acabasse por perder com o Paraguai, mas acho que acabou por ser um resultado que não é assim tão chocante, pelo menos para a larga maioria das pessoas.
Mesmo sendo frente a Paraguai?
Sim, o momento e a altura em que nós ficamos chocados com hecatombes da Alemanha já passou. Ficamos chocados em 2018, quando a Alemanha não passa a fase de grupos pela primeira vez na história. Ficamos novamente chocados em 2022, quando a Alemanha, pela segunda edição consecutiva do Campeonato do Mundo, fica de fora outra vez dos oitavos de final.
Portugal também já foi responsável por um péssimo momento da Alemanha, não é?
Sim. Agora, pela terceira edição quase consecutiva, porque a verdade é que se olharmos para estes 16 avos de final, são a fase de grupos de antigamente, porque o mundial foi alargado a 48 seleções, eu acho que já não choca assim propriamente as pessoas. Eu acho que o que choca é olhar para uma equipa que tem um treinador que me parece bastante competente, que é o Julian Nagelsmann, que tem uma boa mistura entre experiência e juventude, ou seja, a ideia de que ainda estão lá jogadores como o Joshua Kimmich e o Manuel Neuer, mas que estão jogadores muito jovens, como é o caso do Jamal Musiala e de outros jogadores que acabam por sair um bocadinho da caixa, porque o Nagelsmann foi a jogadores do Estugarda, foi a jogadores do Mainz, ou seja, tentou fugir um bocadinho ao óbvio para levar uma convocatória, de facto, bastante paritária. E acaba por ter exatamente o mesmo resultado. E não se pode olhar propriamente para este jogo contra o Paraguai, independentemente de ter sido nas grandes penalidades, independentemente daquele gol ter sido ou não bem anulado. E acho que isso pode ser discutido, ou seja, se de facto há uma falta sobre o guarda-redes naquele gol do Jonathan está no prolongamento. Não se pode olhar para esta vitória do Paraguai como sendo absolutamente não meritória, ou como se fosse absolutamente aleatória, ou como se fosse apenas demérito da Alemanha. Não.
Já valeu um feriado aos paraguaios.
Exatamente. Já tinha valido um feriado aos equatorianos quando venceram a Alemanha também. Portanto, a Alemanha está a despejar feriados por aí fora.
E a diminuir a produtividade nestes países, não sei se é de propósito.
Eu acho que a Alemanha, de facto, está a atravessar um problema, que não sendo um problema tão grave como o da Itália, porque a verdade é que a Alemanha consegue apesar de tudo, continuar a qualificar-se para os Campeonatos do Mundo, é também um problema que tem de ser pensado. Obviamente, estamos a falar de uma equipa, de uma seleção, de um país que é quatro vezes campeão do mundo, que foi campeão do mundo há pouco mais de uma década, em 2014, e que entretanto não consegue sequer passar de fase de grupo ou 16 avos de final. Portanto, claramente algo está a falhar. Não sei se é no selecionador, se é na estrutura, se é na formação dos jogadores, mas é um país que precisa claramente de uma reformulação clara do seu futebol.
Gabriel Alves, um olhar aqui também para este Brasil e Japão, que não chegou a pênaltis, porque o Brasil marcou já perto do final da partida. É Ancelotti, Gabriel, que ganha este jogo também com as alterações que promoveu a partir do banco com a entrada de alguns jogadores?
Olha, boa tarde. Em relação ainda só aqui num toquezinho à Alemanha, Klopp disse ontem que se tomem decisões difíceis e Mateus foca a envolvência social à volta dos jogadores nos Estados Unidos. Portanto, atenção, porque são duas figuras que tocam aqui em pontos importantes. Quanto ao jogo Brasil e Japão, eu começo pela dignidade da equipa japonesa, sua saída. Quanto ao Brasil, eu até fiz aqui uma pequena resenha, um italiano que fala português e que fala futebol com a propriedade do saber, aquilo que não se deve fazer e aquilo que se tem que fazer. E depois dei duas palavras, a palavra líder, competência, Carlo Ancelotti, é o nome dele, para os mais íntimos, o Carletto. Isto é ver o que é de facto um grande treinador ao serviço de uma equipa e reformar também a conseguir transformar um pouco aquela mentalidade de bando, quer dizer, e de clãs, fazendo daquilo uma equipa, fazendo com que os jogadores tenham aqui um espaçoAspeto coletivo e sólido para além das estrelas. Nós faláramos ontem aqui da viniindependência do Brasil. Não, o Brasil ontem não foi viniindependente, de forma alguma. O Brasil foi dependente do bloco, do coletivo, naquilo tudo que Ancelotti, naturalmente, começando mal, retificou no intervalo com as alterações que fez. É evidente que a saída do Paquetá está a tocar, mas haveria sempre alterações. Não é pelo Paquetá estar tocado que essas alterações foram feitas. Elas existiriam. E a verdade é que ao existirem, conseguiram bater a bem organizada geométrica disciplina da equipe nipônica. Portanto, Ancelotti e este Brasil são dois fatores muito importantes e estejamos todos muito atentos, porque o Brasil, não tendo o samba de outros tempos, também não é o bando que tem vindo a ser nos últimos tempos. Isto está no leme. Um senhor chamado Carloto, para os mais íntimos.
Agostinho Inácio, e o que dizer deste Marrocos? Já muitos apontaram esta seleção como uma das favoritas. Chega aqui ao Campeonato do Mundo como campeã africana. Pode ir longe este Marrocos, que de resto também já tem na história alguns dissabores aqui com Portugal.
Boa tarde a todos. Eu vou pedir também um feriado a Marrocos, porque fizeram-me deitar às 05:30 da manhã pra estar e ver o jogo até o fim. E realmente foi uma coisa fantástica, porque desde o primeiro jogo, quando eu vi Marrocos, que eu disse aqui, e agora é fácil estar a dizer, eu antes do Mundial tinha dito que estava com muita expectativa em relação ao México e à Costa do Marfim. Mas depois quando vi o primeiro jogo, eu disse assim: "Atenção a este Marrocos". Não foi ontem por ter eliminado a Holanda, não é por causa disso. É porque Marrocos tem um tipo de jogo, tem uma alma, tem uma dinâmica, tem uma vontade, tem um querer, tem uma determinação, tem uma intensidade e joga rápido, joga pra frente, com jogadores muito versáteis, muito rápidos. Eu, sinceramente, sou um fã deste futebol de Marrocos. E quando vi aquele jogo com a Holanda, a Holanda realmente marca aquele gol, mas eu vi sempre um Marrocos sempre à procura de qualquer coisa. E a gente temos sempre a pensar, ainda há pouquinho estávamos a falar da Alemanha. Alemanha está a viver de outros tempos. E a Holanda? A Holanda está a viver dos tempos da Laranja Mecânica. E o Brasil ganhou campeonatos do mundo, mas foi noutros tempos também. Esses países estão a viver muito daquilo que fizeram no passado. O que estão a fazer no presente, agora já é outra coisa. E a Holanda na segunda parte, Marrocos, na minha opinião, mereceu inteiramente ganhar. Já não era justo ir a prolongamento, nem ir aos pênaltis, mas mereceu ganhar precisamente porque Ronald Koeman, na minha opinião, e ao contrário daquilo que é o ADN desta seleção dos Países Baixos, é uma equipa que não é pra defender o resultado, é uma equipa que também tem que atacar e tem que ter profundidade. Ora, o que aconteceu? Parece-me que os Países Baixos adormeceram muito à custa daquilo que foi 1 x 0, defenderam. Marrocos conseguiu marcar um gol, mas fisicamente superiorizaram-se aos jogadores holandeses. Eu diria que Marrocos passa bem e pode ser uma das surpresas deste Campeonato do Mundo, até porque no outro Campeonato do Mundo, como se sabe, ficaram em quarto lugar e tão aquém àquilo que tem sido a evolução do futebol de Marrocos.
Pedro Henriques, deixo-te também espaço para, se quiseres deixar aqui um comentário a estas partidas de ontem, estas eliminações da Holanda, também Alemanha e Japão. Mas gostava de te perguntar também se de alguma forma achaste que João Félix ontem na conferência de imprensa, e há de novo uma conferência de imprensa durante esta tarde da seleção portuguesa, se João Félix deixou ou não uma bicada a Roberto Martínez quando diz que rende mais quando o colocam a jogar no sítio onde ele mais gosta.
Evocando o grande JJ, ainda por cima. Ora bem, em relação ao que aconteceu nestas 16 avos, o que está a acontecer, eu queria relembrar que chegaram aos 16 avos 13 seleções europeias, cinco da América do Sul, três da América do Norte. Das 10 africanas, porque o grande alargamento mundial foi altamente benéfico para vermos a África no seu peso total, passaram de cinco pra 10 seleções a estar presentes no mundial e dessas 10, nove passaram. É algo que não se pode descurar. E depois duas da Ásia. E curiosamente, estão neste momento quatro passadas, Canadá, Marrocos, Paraguai e Brasil, e nenhuma europeia. E a Holanda, os Países Baixos e a Alemanha já foram eliminadas, que são sempre potenciais candidatas a garantidamente estar muito mais além, independentemente das 16 avos serem fruto de algo que não acontecia por causa do alargamento, mas estaríamos todos convencidos que, pelo menos aos oitavos, muitas destas seleções apontadas até um bocadinho mais além. Depois, em relação à questão do que o Mataus falou a dado momento, que eu acho que é importante, não é só pela questão da Alemanha, é pela questão de todas as seleções, que é a maneira como tu cada vez mais tens que ter capacidade, vamos chamar de liderança, mas de gestão do balneário, dos egos. É tudo malta muito jovem e tudo malta milionária.
Ele aludiu ao fato de haver famílias, mulheres, tudo misturado.
Mulheres, filhos, uns sim, outros não.
Como se a Alemanha tivesse gente a mais neste mundial.




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