A fome diminuiu muito no Brasil, mas não acabou. Manter o país longe do Mapa da Fome continua sendo um desafio, assim como deter o crescimento da obesidade

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Brasil saiu do Mapa da Fome em 2025, mas enfrenta novo desafio: a explosão da obesidade, impulsionada por ultraprocessados. É o “efeito gangorra”, com taxas crescentes em adultos e crianças. O artigo discute políticas públicas urgentes e a resistência da indústria, evidenciando a complexidade de garantir alimentação saudável para todos.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

Em 2025, o país saiu novamente do Mapa da Fome. Uma conquista histórica. Enquanto os indicadores de subnutrição regrediram, os de sobrepeso e obesidade, no entanto, aumentaram, impulsionados pelo alto consumo de ultraprocessados.

“É o efeito gangorra: cai de um lado, sobe do outro”, resumiu o economista Walter Belik, diretor-adjunto do Instituto Fome Zero, em sua participação numa das mesas do 7º Fórum de Políticas Públicas da Saúde na Infância, promovido no final do ano passado pelo Infinis – Instituto Futuro é Infância Saudável, cujo tema foi segurança alimentar.

Segundo ele, isso vem acontecendo não só no Brasil, mas também em outros países em desenvolvimento, como a China, que conseguiu reduzir a subnutrição a níveis irrisórios, mas a obesidade cresceu de forma exponencial.

Hoje, a má alimentação é um dos problemas mais graves de saúde pública no país. “A obesidade precisa ser enfrentada e trabalhada com políticas públicas da mesma forma que fizemos com a fome”, reconhece Lilian dos Santos Rahal, secretária nacional de Segurança Alimentar e Nutricional do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, em entrevista exclusiva à coluna.

O enfrentamento, no entanto, é complexo. “Ninguém questiona quando a gente fala que precisa acabar com a fome. Mas em relação à obesidade muitos dizem que não é um problema de política pública e, sim, de cada um”, diz. “Não dá para enfrentar a obesidade culpabilizando os indivíduos.”

Entre 2006 e 2024, o número de adultos brasileiros com obesidade cresceu 118%, passando de 11,8% para 25,7%, segundo dados da pesquisa Vigitel 2025 (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico), divulgada no início deste ano.

Entre as crianças, o cenário é especialmente preocupante. A porcentagem de meninos e meninas de até 5 anos com sobrepeso quase dobrou de 2000 a 2024, passando de 6,1% para 10,9%.

Em 2025, pela primeira vez na história, a porcentagem de crianças e adolescentes obesos no mundo superou a de subnutridos, segundo relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

O Brasil segue a tendência mundial. Em 2025, o percentual de crianças e adolescentes de 0 a 19 anos obesos foi de 4,9%. Já o percentual de magros ou muito magros atingiu 4,2%.

Nos supermercados, metrô, bancas de jornal e cantinas escolares, a disponibilidade de ultraprocessados chama a atenção, assim como a alta do consumo e o tamanho exagerado das porções e embalagens.

A participação de ultraprocessados na alimentação dos brasileiros mais que dobrou desde os anos 1980, passando de 10% para 23%, segundo coletânea publicada na revista Lancet, no final do ano passado.

O ENFRENTAMENTO DA FOME E DA OBESIDADE

 O fato de o Brasil ter saído do Mapa da Fome não significa que o problema foi totalmente resolvido e que não há mais fome no país. A porcentagem de brasileiros subnutridos hoje é menor que 2,5%. Ou seja, avançamos muito, mas o desafio ainda persiste. “Não podemos descuidar da fome nunca”, diz a secretária nacional de Segurança Alimentar e Nutricional.

Segundo ela, só chegamos a esse resultado graças a um conjunto de políticas e de ações, como o redesenho do Bolsa Família. “Quando o programa volta a olhar a composição familiar e retoma os repasses adicionais de acordo com as características da família, há um impacto muito grande na redução da desnutrição”, avalia. “Isso acontece não só porque você está transferindo renda, mas também porque há uma condicionalidade de saúde do programa que é o acompanhamento nutricional.”

Outra ação muito importante, tanto para o enfrentamento da fome quanto do sobrepeso e da obesidade, é a alimentação escolar. O Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) atende a cerca de 40 milhões de estudantes de instituições públicas, da creche ao ensino médio. A alimentação é acompanhada por nutricionistas e fiscalizada pelos Conselhos de Alimentação Escolar.

No ano passado, o governo federal reduziu o limite de alimentos processados e ultraprocessados no cardápio das escolas públicas brasileiras por meio da Resolução CD/FNDE nº 3/2025. O novo texto determinou que, a partir deste ano, no mínimo 85% dos recursos sejam destinados à aquisição de alimentos in natura ou minimamente processados e, no máximo, 10% para a compra de alimentos processados e ultraprocessados. Também recomendou que alimentos que façam uso de rotulagem nutricional frontal de alto conteúdo não sejam adquiridos. Medidas importantes que devem ter impacto num futuro próximo.

As escolas são um lugar estratégico para melhorar a alimentação de crianças e adolescentes. Mais de 90% das escolas privadas contam com cantinas. Na rede pública esse índice é de 21,6%. Os ultraprocessados são mais da metade dos campeões de venda das cantinas brasileiras, com destaque para refrigerantes e salgados, segundo a Pesquisa Comercialização de Alimentos em Escolas Brasileiras (Caeb) mais recente (2022-2024). Na maioria da escolas (51,9%) esses produtos custam, em média, menos que os outros alimentos.

Para enfrentar esse problema, em dezembro de 2023, o governo federal publicou o Decreto nº 11.821/2023, que estabeleceu uma diretriz nacional para a promoção da alimentação saudável nas escolas, com eixos como educação alimentar e nutricional e regulação da oferta e da propaganda nas escolas de produtos ultraprocessados dirigida ao público infantil.