Para professora de Relações Internacionais do Colégio do México, Guadalupe González, governo Trump aprofundou fragmentação da América Latina ao privilegiar uma 'bilateralização extrema' na sua interlocução presidencial.

A América Latina está vivendo uma "onda azul" com as eleições presidenciais recentes vencidas pela direita radical na Argentina, na Colômbia, no Peru, entre outros países da região.

A definição é uma espécie de contraponto à "onda rosa" de governos de esquerda no início do século 21 nos países latino-americanos.

O termo "onda azul" foi usado pelo presidente argentino Javier Milei durante visita, em junho deste ano, do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a Buenos Aires. "Vem aí a onda azul pelas mãos de Flávio Bolsonaro", escreveu o argentino em suas redes sociais em claro apoio à campanha do candidato ao Palácio do Planalto.

A "onda azul" se refere a uma suposta tendência de sucesso nas urnas protagonizado por presidentes da direita radical que admiram e apoiam o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e quando, ao mesmo tempo, ele declara seu voto e respaldo aos políticos desta linha ideológica.

Foi assim na reta final da corrida eleitoral na Colômbia, por exemplo, quando Trump anunciou apoio a Abelardo de la Espriella, que foi eleito e tomará posse no dia sete de agosto.

Mas no Brasil, ações recentes do governo Trump, como a decisão de impor novas tarifas sobre produtos brasileiros, podem ter prejudicado o candidato da "onda azul", a três meses das eleições presidenciais.

Analistas têm declarado que as tarifas favorecem a candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e não a de Bolsonaro, seguidor de Trump.

Uma pesquisa Quaest divulgada no dia 10/07, antes do novo tarifaço da última quinta-feira (23/07), mostrou que 47% dos entrevistados concordam mais com Lula, que acusa Flávio Bolsonaro de ter pedido as novas tarifas contra o Brasil.

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No levantamento, outros 35% concordam mais com a versão do senador de que teria solicitado a Trump que não adotasse novas taxas sobre produtos brasileiros, de acordo com o portal G1.

Em entrevista à BBC News Brasil, a professora de Relações Internacionais do Colégio do México, Guadalupe González, formada pela London School of Economics (LSE) no Reino Unido, disse que o presidente americano, ao tomar partido em eleições em várias partes do mundo, desestabiliza democracias. No caso da América Latina, na opinião dela, fragmenta ainda mais a região.

Integrante do Conversatório Latino-Americano (Conlat), que reúne especialistas de universidades do Brasil, da Argentina, da Colômbia e do México que discutem as problemáticas do continente, González entende que Lula poderia se inspirar na tática da presidente mexicana Claudia Sheinbaum na relação com Trump – "cabeça fria e nada de discussões (bate-boca) público".

A seguir os principais pontos da entrevista com Guadalupe González.

BBC News Brasil - O presidente Milei, da Argentina, diz que a América Latina está vivendo uma 'onda azul' com a eleição de governos da direita em diversos países. Milei, inclusive, viajou ao Brasil para participar do lançamento da campanha à Presidência do senador Flávio Bolsonaro. A sra. concorda?

Guadalupe González - As forças políticas, principalmente de um novo tipo de direita, extrema-direita, que não é a direita tradicional latino-americana, vêm ganhando as últimas eleições. Então, é verdade que estamos vivendo uma 'onda azul'.

BBC News Brasil - A sra. diferencia uma direita radical da direita tradicional…

Guadalupe González - E este é um primeiro ponto. Além disso, essas direitas que têm vencido as eleições não são o mesmo tipo de direita e também não estão ganhando com os mesmos índices [nas urnas].

Mas ainda é cedo para saber se este é um movimento pendular, quanto irá durar e também quanto das agendas das direitas radicais pretendem realizar transformações de médio e longo prazo na política regional.

Existem duas maneiras de ler este momento. Uma é sobre o realinhamento político e ideológico dos eleitorados. Quer dizer, que de fato os eleitores latino-americanos são agora mais conservadores que antes. Esta é uma leitura e, além disso, nos distintos países acontecem coisas diferentes.