Pesquisa com mais de 5.000 brasileiros revela que infraestrutura urbana é fator de proteção à saúde

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Envelhecer bem não depende apenas das condições individuais de saúde. O bairro onde uma pessoa mora pode ampliar ou limitar sua capacidade de permanecer ativa, independente e socialmente conectada, mostrou um estudo com mais de 5.000 brasileiros de 50 anos ou mais.

Aqueles que vivem em bairros com melhor mobilidade urbana, por exemplo, com acesso a transporte público e segurança para atravessar a rua, têm mais que o dobro de chance de se manterem ativos socialmente, mesmo quando enfrentam limitações físicas ou cognitivas.

O estudo do Hospital Sírio-Libanês, baseado em dados de 5.068 participantes do Elsi-Brasil (Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros), foi publicado na revista Age and Ageing, da Universidade de Oxford, e apresentado no mês passado na sede da OMS (Organização Mundial da Saúde).

O trabalho avaliou como características do ambiente urbano interagem com a chamada capacidade intrínseca, conceito adotado pela OMS que mede a reserva de saúde de uma pessoa a partir de cinco domínios: mobilidade, cognição, humor, vitalidade e funções sensoriais, como visão e audição.

A principal conclusão é que um ambiente urbano mais favorável pode funcionar como uma espécie de compensação para pessoas que perderam parte da capacidade funcional.

Entre aquelas com maior comprometimento físico e mental, apenas 12% conseguem manter níveis elevados de participação social em bairros com pior infraestrutura. O índice sobe para 30% entre aqueles que moram em locais com melhores condições de mobilidade e acesso a serviços.

"Envelhecimento saudável não depende apenas da ausência de doenças. O ambiente onde a pessoa vive pode ampliar ou limitar sua capacidade de continuar ativa, socialmente conectada e autônoma ao longo dos anos", afirma o geriatra Márlon Aliberti, do Hospital Sírio-Libanês, um dos autores do estudo ao lado de Christina May, chefe da reabilitação da instituição, e de Maria Lucia Costacurta Guarita, fisiatra.

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Segundo Aliberti, um dos diferenciais da pesquisa é justamente não olhar apenas para doenças. "Uma pessoa pode ter artrose no joelho e estar muito bem se faz reabilitação e consegue manter sua funcionalidade."

A análise considerou doenças crônicas associadas ao envelhecimento, como hipertensão, doença de Parkinson, Alzheimer, câncer e AVC (acidente vascular cerebral), além dos indicadores de capacidade intrínseca.

"Uma pessoa com Parkinson pode ter uma marcha mais lenta. Se o ambiente reduz a demanda, com uma travessia segura e um tempo adequado de semáforo, ela consegue fazer algo que talvez não conseguisse em outro contexto", diz o médico.

O efeito é ainda mais evidente entre grupos socialmente vulneráveis. As pessoas que mais se beneficiam de bairros com melhor infraestrutura são justamente aquelas com menor renda e que vivem em regiões historicamente menos assistidas por serviços públicos.

De acordo com o médico e gerontólogo Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil, o impacto de ambientes inseguros —que impedem, por exemplo, a prática de atividade física por falta de calçadas e iluminação adequadas e controle de todo tipo de poluição—, é sempre maior entre os mais pobres e marginalizados.