Diversificação produtiva transforma estado em referência nacional de tecnologia, inovação e competitividade industrial.

DiversificaçãoCidades especializadas movimentam bilhões e fazem o Paraná avançar na economia nacionalPor Juliet Manfrin

Dê de presentePrefira a Gazeta no GoogleA diversificação industrial do Paraná com tecnologia e inovação reflete na geração de emprego e renda. (Foto: José Fernando Ogura/Governo do Paraná)Ouça este conteúdo

Há um fenômeno silencioso e contínuo que cria o mapa econômico do Brasil a partir do Sul. No Paraná, quase 40 dos seus 399 municípios carregam um título que vai além da geografia: são "capitais", não de estados ou países, mas de setores produtivos que movimentam, segundo o IBGE, R$ 765 bilhões por ano e posicionam o estado como a quarta maior economia do país, atrás apenas de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Mais do que títulos simbólicos, essas denominações representam arranjos produtivos locais altamente especializados, responsáveis por empregos, exportações, inovação e competitividade de escala global. São mais de 25 mil parques fabris, 562 mil trabalhadores com carteira assinada e uma cadeia que alcança 3,3 milhões de pessoas quando somados os empregos indiretos.

A indústria responde por 25% do PIB paranaense, ou seja, R$ 130 bilhões, e o estado ocupa a terceira posição nacional em Valor de Transformação Industrial, superado apenas por São Paulo e Minas Gerais. Em 2024, a produção industrial do Paraná cresceu acima da média nacional, e o ritmo não dá sinais de desaceleração.

"O Paraná cresce muito acima da média nacional e temos regiões onde o avanço é extraordinário, próximo dos dois dígitos ao ano", afirma o presidente do Sistema Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), Edson Vasconcelos.

A meta do setor industrial é transformar o estado na terceira economia brasileira em menos de uma década. Para entender por que essa projeção não é apenas otimismo, a reportagem da Gazeta do Povo colocou o pé na estrada para conhecer algumas dessas "capitais" que constroem e moldam o projeto econômico.

O Paraná cresce muito acima da média nacional e temos regiões onde o avanço é extraordinário, próximo dos dois dígitos ao ano.

Capitais produtivas e industriais que a Gazeta do Povo visitouCianorte (região noroeste do estado) – Capital Nacional do VestuárioApucarana (norte) – Capital Nacional do BonéArapongas (norte) – Capital Moveleira NacionalPonta Grossa (Campos Gerais) – Capital Paranaense da CervejaUnião da Vitória (sul) – Capital da MadeiraNova Aurora (oeste) – Capital Nacional da TilápiaDois Vizinhos (sudoeste) – Capital da AviculturaFoz do Iguaçu (oeste) – Capital do Turismo do ParanáAlém da denominação específica de "capital" para um destaque específico, o estado do Paraná é líder nacional na produção de tilápias, com destaque em viveiros e indústrias no oeste do estado.

Após protestos, governo cede e sinaliza cota extra para arrasto da tainha em SCA moda que veste o BrasilO título de "Capital Nacional do Vestuário" de Cianorte foi conquistado à base de linha, agulha e escala industrial. O município localizado no noroeste paranaense integra o segundo maior polo de confecções do Brasil, atrás de Santa Catarina, em um eixo regional que inclui Maringá e cidades vizinhas.

Fábricas, lavanderias industriais e uma cadeia produtiva completa formam um sistema que impulsionou o PIB per capita local a R$ 50 mil. A ExpoVest, principal evento do setor na cidade, atrai compradores e lojistas de todo o país, fazendo de Cianorte endereço obrigatório da moda nacional.

Da pequena fábrica de Altair Andrade saem 5 mil peças de jeans por mês, todas com destino a uma grife de alcance nacional. "Estamos em todo o país", diz ele, sem exagero.

“Cianorte não fabrica apenas roupa, fabrica riqueza com escala industrial”, destaca o presidente do Sindicato das Indústrias do Vestuário de Cianorte, Alberto Nabhan. São 60 milhões de peças por ano, volume que responde por 20% de todo o jeans comercializado no Brasil e que concentra mais de 450 confecções, 600 grifes e 300 lojas de pronta-entrega em uma estrutura que representa 44,3% do PIB municipal.

“O setor emprega diretamente 15 mil pessoas e sua capilaridade é tão profunda que três em cada cinco moradores da cidade têm a renda ligada à indústria da moda, um índice que transforma o vestuário de setor econômico em identidade coletiva”, reforça a historiadora e pesquisadora em arranjos produtivos Aline Martins.

O circuito de abastecimento atrai lojistas de todo o país e do Mercosul. “Nenhuma vitrine conta essa história melhor do que os caminhões que partem de Cianorte levando moda paranaense para as araras de todo o Brasil”, completa a historiadora.

Do cultivo ao consumo: como a logística desafia o crescimento industrial do ParanáO boné que cobre o paísA 200 quilômetros de Cianorte está Apucarana, considerada a "Capital Nacional do Boné": oito em cada dez bonés produzidos no Brasil saem de lá. A produção mensal oscila entre 4 e 5 milhões de peças, com picos de até 8 milhões em períodos de alta demanda.

Mais de 2 mil empresas e indústrias de confecção operam integradas em um Arranjo Produtivo Local, segundo o Sebrae, que cobre todo o ciclo, do corte ao bordado, da costura à personalização. O setor sustenta aproximadamente 20 mil empregos diretos e indiretos.

A especialização começou nos anos 1970 e não parou mais. “Apucarana é um dos casos mais representativos de concentração industrial do país”, celebra o prefeito Rodolfo Mota (União Brasil).

A cadeia de bonés de Apucarana movimenta aproximadamente R$ 300 milhões por ano e sustenta 7 mil empregos diretos e 9 mil indiretos, números que, segundo o governo municipal e o Sebrae Paraná, representam cerca de 30% de todo o PIB do município, estimado em R$ 4,8 bilhões e distribuído entre serviços (48,9%), indústria (24,2%), administração pública (18,8%) e agropecuária (8,2%).

“O próximo passo é transformar a força produtiva em patrimônio reconhecido internacionalmente”, reforça o escritório Regional do Sebrae. A cidade iniciou, ao lado do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi), o processo de obtenção do selo de Indicação Geográfica para o boné apucaranense, movimento que protege a marca "Apucarana" da concorrência desleal e abre caminho para a exportação com identidade de origem.