Em novo true crime, 4 episódios apresentam casos de brigas entre vizinhos que terminaram em tragédia - Divulgação/Netflix Existe um tipo de medo que o cinema de terror consegue, algumas vezes, reproduzir tão bem quanto os documentários sobre crimes reais, aquele que nasce da rotina. Você tranca a porta, leva o lixo para fora, reclama do som alto do apartamento ao lado e segue a vida acreditando que esses pequenos incômodos fazem parte da convivência. 

"A Pior Vizinhança", nova série documental da Netflix, parte dessa sensação de normalidade para mostrar como desentendimentos aparentemente banais podem terminar em tragédias difíceis de imaginar.

Talvez seja essa proximidade que faz a série funcionar tão bem. Diferente de histórias sobre serial killers ou grandes conspirações, aqui o ponto de partida é algo que qualquer pessoa já viveu ou conhece alguém que viveu, um vizinho inconveniente. 

A produção pega essa experiência comum e a leva aos extremos, revelando casos de perseguição, manipulação, fraudes e assassinatos que começaram com discussões que pareciam pequenas demais para chegar onde chegaram.

Produzida pela Blumhouse (estúdio que construiu sua reputação transformando medos cotidianos em grandes filmes de terror), a série amplia uma linha que já vinha sendo explorada em documentários como “Os Piores Ex” e “Moradores Indesejados”. 

Agora, o foco sai de relacionamentos amorosos ou pessoas que dividem a mesma casa e atravessam o muro. O resultado é uma coleção de histórias que fazem qualquer discussão sobre vaga de garagem parecer menos inofensiva do que parece.

Disponível na Netflix, "A Pior Vizinhança" tem quatro episódios independentes, cada um acompanhando um caso real diferente. A série mistura entrevistas com vítimas, familiares e investigadores, imagens captadas por câmeras de segurança e bodycams policiais, além de reconstituições animadas que ajudam a organizar acontecimentos muitas vezes difíceis de acreditar. 

Em comum, todos os episódios mostram como conflitos entre vizinhos podem crescer até alcançar níveis extremos de violência, perseguição e crime.

O maior acerto do documentário está na preocupação em contextualizar os acontecimentos, apresentar os personagens e deixar que os próprios envolvidos reconstruam os fatos. Quando as imagens reais entram em cena, elas pesam muito mais porque o documentário já fez o trabalho de aproximar o público dessas pessoas. 

O segundo episódio, por exemplo, envolvendo a explosão de uma residência em Indiana, é daqueles que fazem o espectador pausar para pesquisar se aquilo realmente aconteceu. E aconteceu. 

Já o terceiro talvez seja o mais angustiante, justamente porque retrata uma situação que parece assustadoramente possível, comprar a casa dos sonhos e descobrir que o verdadeiro problema não estava no imóvel, mas na pessoa que mora ao lado.

O que mais me chamou atenção foi perceber como a série fala sobre a escalada da violência. Nenhum daqueles conflitos começou enorme. Eles crescem porque alguém ignora sinais, porque autoridades demoram a agir ou porque pessoas comuns acreditam que certas atitudes jamais ultrapassariam o limite da convivência. Quando esse limite finalmente é rompido, já é tarde demais.

O true crime já explorou praticamente todos os cantos da violência humana. Encontrar histórias tão inquietantes escondidas atrás de uma cerca de madeira ou de um muro baixo mostra que ainda existe espaço para surpreender, infelizmente, usando fatos que aconteceram de verdade.

*Fernando Martins é jornalista e grande entusiasta de produções televisivas. Criador do Uma Série de Coisas, escreve semanalmente neste espaço. Instagram: @umaseriedecoisas.

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