Primeira colocada do prêmio Valor Inovação Brasil 2026 na categoria Agronegócio, a companhia reservou perto de 8% de sua receita líquida para a área de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I)

Os projetos inovadores já lançados responderam no ano passado por 53% do resultado (Ebitda) da Cargill Nutrição e Saúde Animal. Primeira colocada do prêmio Valor Inovação Brasil 2026 no agronegócio, a companhia reservou perto de 8% de sua receita líquida para a área de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I), combinando ciência aplicada, soluções digitais e serviços técnicos para gerar resultados práticos.

“O principal movimento não foi apenas lançar novos produtos, mas construir soluções integradas que gerem valor real para diferentes cadeias produtivas”, diz Marcelo Dalmagro, diretor de Tecnologia, Marketing Estratégico e Inovação. Entre outros indicadores nesta área, a companhia adota principalmente o Innovation Ebitda para mensurar o retorno de soluções tecnológicas lançadas no mercado.

A definição de projetos em geral se inicia a partir da “escuta ativa do cliente”, afirma Dalmagro. A companhia adota uma lógica “glocal”, neologismo para explicar que o braço de nutrição animal da multinacional “aproveita capacidades globais” na área de pesquisa e tecnologia e usa seu time local para adaptar ao país as soluções tecnológicas desenvolvidas no exterior.

Internamente, todo esse processo ocorre de forma multidisciplinar, ao longo do ciclo anual de planejamento estratégico, mobilizando lideranças de P&D, marketing, tecnologia, comercial e operações. “Muitas oportunidades nascem das conversas com clientes, dos dados observados nas propriedades e da leitura das mudanças no comportamento do setor”, diz ele.

Correções de rumo ocorrem ao longo do trajeto, incorporando mudanças no processo de desenvolvimento ou de adequação de tecnologias, a exemplo do Galleon GPS Lite, na avicultura, ou do Probeef Semiconfinamento, desenvolvido para bovinos de corte. No primeiro caso, desenvolvida globalmente como uma plataforma de análise do microbioma de aves. Com uso de inteligência artificial, a companhia percebeu que “parte relevante do mercado precisava de uma solução mais simples, rápida e aplicável à rotina do campo”. A escolha, diz o executivo, “foi transformar ciência avançada em uma ferramenta mais acessível”. No caso do Probeef Semiconfinamento, ao invés de adaptar produtos desenhados para sistemas convencionais de confinamento, a empresa decidiu reunir em um mesmo pacote cinco produtos exclusivos para terminação de gado de corte a pasto.

Segunda colocada, a Ourofino Saúde Animal espera continuar investindo em torno de 7% a 8% de sua receita líquida neste ano em PD&I, conforme Kleber Gomes, CEO da empresa. Com uma estrutura formada por duas dezenas de laboratórios integrados entre Cravinhos e a Fazenda Experimental de Guatapará, no interior de São Paulo, e uma centena de pesquisadores, a companhia em geral inicia o processo de PD&I a partir da identificação de desafios sanitários, produtivos e operacionais apontados por produtores e veterinários. Na sequência, são avaliadas a relevância do problema para a produção animal, a viabilidade científica e industrial, exigências regulatórias e potencial de geração de valor.

Mais recentemente, Gomes destaca o lançamento das tecnologias Safesui Glasser One, Nexlaner e WellPet, destinadas a animais de produção e de companhia. Primeira vacina de dose única para suínos, a Safesui oferece proteção de amplo espectro contra a Doença de Glässer, infecção bacteriana responsável por altas taxas de mortalidade. A solução desenvolvida incorpora quatro cepas prevalecentes no Brasil e tem aplicação em dose única.

O Nexlaner foi o primeiro ectoparasiticida à base de fluralaner desenvolvido por uma empresa brasileira para bovinos e o desafio foi chegar a uma formulação nacional eficaz, de fácil aplicação e menor período de carência. Destinado a animais de companhia, o comprimido WellPet, à base de fluralaner, foi desenhado para combinar ação rápida e proteção prolongada contra carrapatos e pulgas com alta palatabilidade. “Esses projetos reduzem a dependência de tecnologias importadas e contribuem para elevar a produtividade, reduzindo perdas”, diz.

A São Martinho ampliou em 75% o investimento em PD&I no ano passado, saindo de R$ 120 milhões em 2024 para R$ 210 milhões, afirma o CEO Fabio Venturelli. Segundo ele, os recursos foram direcionados principalmente para a expansão da produção de etanol de milho e de seus coprodutos na Unidade Boa Vista (GO), para o desenvolvimento da produção de biometano a partir da vinhaça da cana-de-açúcar na Unidade Santa Cruz (SP), inaugurada em agosto do ano passado, e ainda na implantação de sistemas informatizados baseados em IA para aumentar a eficiência da operação.

Numa parceria com instituições especializadas, a empresa iniciou ainda projetos para desenvolvimento de bioinsumos para controle sustentável de pragas que infestam os canaviais, incluindo soluções inovadores baseadas em RNAi (RNA de interferência) e moléculas semioquímicas para o manejo da praga Sphenophorus levis, o bicudo-da-cana.

“Como toda atividade de inovação envolve riscos e incertezas, os projetos frequentemente passam por ajustes de rota, aprendizados e evoluções”, constata o CEO, lembrando como exemplo o desenvolvimento da colhedora de cana de duas linhas movida a etanol – uma inovação considerada disruptiva e que começou a ser testada em 2025.

Já a Syngenta definiu como prioridade para este ano o lançamento global do herbicida Virestina, desenvolvido para lidar com a crescente resistência de plantas daninhas a defensivos no mercado – problema relatado oficialmente em 75 países, atingindo mais de 100 culturas diferentes, “sendo que as gramíneas representam 40% das 273 espécies resistentes catalogadas”, afirma André Savino, presidente da companhia no Brasil.

A tecnologia, desenvolvida por cientistas da empresa no Centro Internacional de Pesquisa em Jealott's Hill, no Reino Unido, demonstrou eficácia no controle de gramíneas resistentes a herbicidas mais comuns, como o glifosato e o cletodim, apresentando ainda rápida degradação no solo e menor impacto ambiental. Segundo ele, o país recebe “grande parte” dos quase US$ 2 bilhões investidos anualmente em todo o mundo em PD&I e a definição dos projetos considera o alinhamento às prioridades estratégicas, às necessidades do campo e a oportunidades de avanço na agricultura tropical. O processo, dali em diante, é tocado por equipes multidisciplinares, envolvendo várias áreas da empresa.

No desenvolvimento do Tymirium, molécula nematicida e fungicida com registro no Brasil para mais de 60 culturas, a companhia alinhou busca de resultados e demandas dos produtores, realizando ainda um estudo em parceria com a Agroconsult e a Sociedade Brasileira de Nematologia. Presentes em mais de 90% das amostras de solo coletadas em todo o país, os nematoides geram perdas para a agricultura estimadas em US$ 150 bilhões por ano, abrindo caminho para doenças que podem derrubar a produtividade das lavouras em 15% a 25% a depender da cultura.

A Corteva reforçou no ano passado investimentos nos dois centros de pesquisa e tecnologia instalados em Mogi Mirim (SP) e Palmas (TO) para dar maior segurança, agilidade e celeridade ao processo de inovação, além de incrementar a integração entre mais de 120 estações de pesquisa globais e 11 unidades no Brasil. A unidade de Mogi Mirim, detalha Rodrigo Neves, líder de Pesquisa e Desenvolvimento para Proteção de Cultivos e Biológicos na América Latina, consolidou-se como maior centro de pesquisa integrada em proteção de cultivos da companhia no mundo, unindo os times dos setores de químicos e biológicos, com a expansão da área total para 122,7 hectares e aumento da capacidade de campo para P&D em 71%. “O grande diferencial será a implementação de 12 novas casas de vegetação e do primeiro laboratório biológico de Nível de Biossegurança 2 (NB2) da Corteva fora dos Estados Unidos, o que permitirá gerar soluções exportáveis para os EUA e para programas globais da empresa”, aponta Neves.

Na área de sementes, o Centro de Tecnologia de Palmas passou por uma intensa transformação tecnológica, recebendo “investimento significativo” em automação, robótica e digitalização de processos de pesquisa, produção de sementes e montagem de ensaios, registra Pedro Tanno, líder de Pesquisa e Desenvolvimento para Sementes no Brasil e Paraguai. Diante da inexistência no mercado de soluções adequadas, a equipe brasileira desenvolveu um robô, assim como o respectivo software, “para separação automatizada de milhões de amostras de sementes e híbridos, já validado nos EUA e na Europa e instalado no Brasil”, afirma.