Como este besouro pode 'enganar' uma colônia inteira de cupins À primeira vista, parece que um cupim está montado nas costas de um besouro. Mas a imagem engana. O que lembra um operário da colônia faz parte do próprio corpo do inseto e representa uma das adap…

Por Rodrigo Peronti, Terra da Gente

04/07/2026 08h27 Atualizado 04/07/2026

Pesquisadores da USP descreveram a espécie de besouro Austrospirachtha carrijoi, que possui uma expansão no abdômen que imita um cupim. A estrutura serve de disfarce na colônia.

Cientistas supõem que a adaptação física, somada a mimetismo químico e comportamental, permita ao besouro infiltrar-se no cupinzeiro. Ele receberia alimento por meio de trofalaxia.

Descoberto em 2014 pelo entomólogo Tiago Carrijo, o besouro não nasce com o disfarce. O abdômen expande-se depois, em um processo chamado crescimento pós-imaginal.

Como este besouro pode 'enganar' uma colônia inteira de cupins

À primeira vista, parece que um cupim está montado nas costas de um besouro. Mas a imagem engana. O que lembra um operário da colônia faz parte do próprio corpo do inseto e representa uma das adaptações mais curiosas já registradas entre besouros que vivem associados a cupins.

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Descrita em 2023 por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), a espécie Austrospirachtha carrijoi apresenta uma expansão do abdômen que, com riqueza de detalhes, lembra um cupim. A estrutura reproduz diversos aspectos da anatomia de um operário, criando um verdadeiro 'disfarce' para viver dentro da colônia.

A principal hipótese dos cientistas é que essa adaptação permita ao besouro viver entre os cupins e, possivelmente, receber alimento por meio da trofalaxia, processo em que os insetos trocam alimento boca a boca.

Até o momento, porém, esse comportamento ainda não foi observado diretamente. A hipótese é sustentada por características anatômicas da espécie e pelo conhecimento acumulado sobre outros besouros especializados em viver dentro de cupinzeiros.

Como este besouro pode convencer cupins a alimentá-lo sem ser descoberto — Foto: Divulgação artigo / Pesquisador

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Um "fantoche" criado pela evolução

Na divulgação do estudo, em entrevista ao Jornal da USP, o pesquisador Bruno Zilberman resumiu a adaptação de forma simples.

"O bicho criou um fantoche de cupim no próprio abdômen e ele usa isso para se camuflar dentro do ninho dos cupins."

Segundo o pesquisador, durante a evolução a parte membranosa do abdômen foi sendo moldada até adquirir a aparência de um cupim.

A estratégia vai além da simples semelhança visual.

Embora para nós o disfarce seja impressionante, os cupins praticamente não utilizam a visão para reconhecer indivíduos da colônia. Também em entrevista ao Jornal da USP, Zilberman explicou que esses insetos são cegos e identificam companheiros principalmente por estímulos táteis e químicos.