Repressão a mulheres marca governo do Talibã O governador Abdullah Sarhadi entrega dinheiro para ajudar no tratamento de um menino que quebrou o braço e também destina recursos a uma mesquita local. Depois, em seu gabinete no norte do Afeganistão, uma conversa inesperada se desenrola. Uma jovem mulher diz ao ex-comandante do Talebã, de barba grisalha, que quer se separar do marido, a quem acusa de agredi-la e espancá-la durante meses. Ela não aceita que o pedido seja recusado. Em
25/08/2026 06h00 Atualizado 25/08/2026
Repressão a mulheres marca governo do Talibã
O governador Abdullah Sarhadi entrega dinheiro para ajudar no tratamento de um menino que quebrou o braço e também destina recursos a uma mesquita local.
Depois, em seu gabinete no norte do Afeganistão, uma conversa inesperada se desenrola. Uma jovem mulher diz ao ex-comandante do Talebã, de barba grisalha, que quer se separar do marido, a quem acusa de agredi-la e espancá-la durante meses.
Ela não aceita que o pedido seja recusado.
✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp
Em um país onde meninas são proibidas de frequentar o ensino médio, a jovem de 18 anos defende sua decisão com calma e segurança, com o rosto completamente coberto por um véu e óculos escuros. "Se houvesse alguma possibilidade de continuarmos juntos, eu não estaria aqui. Eu tomei minha decisão", afirma a mulher.
Depois de tentar convencê-la a não se divorciar, Sarhadi diz que as mulheres são "estúpidas" e "têm o intelecto deficiente", provocando risos entre autoridades, seguranças e homens mais velhos que estão ao seu redor.
A cena oferece um raro retrato de como é o cotidiano sob o regime do Talebã, cinco anos depois de o grupo derrubar o governo apoiado pelos Estados Unidos, em 2021.
➡️ Nesse período, as mulheres foram excluídas da maior parte dos locais de trabalho, proibidas de frequentar universidades e impedidas de viajar sozinhas ou de visitar parques e centros de lazer.
Ao longo de encontros realizados durante dois anos, a BBC teve um acesso incomum a figuras influentes do movimento islâmico extremista e acompanhou de perto homens que antes planejavam atentados suicidas ou passaram anos escondidos em refúgios clandestinos, mas que hoje ocupam cargos no governo ou integram as forças do Talebã.
Mulheres protestam contra proibição do Talibã à entrada de alunas em todas as universidades do país, em 22 de dezembro de 2022. — Foto: Reuters
O Talebã chegou ao poder afirmando que havia mudado, mas muitas de suas políticas são semelhantes à interpretação rígida da Sharia — a lei religiosa islâmica — que o grupo impôs na década de 1990.
Os homens que encontramos pareciam querer se apresentar como pessoas razoáveis, mas evitavam falar sobre a violência que praticaram no passado. Também presenciamos momentos de tensão entre governantes e a população.
O governador Sarhadi então responde à mulher, Tuba (nome fictício), que ela deve continuar casada. "Pergunte a si mesma: 'Quem vai querer se casar comigo depois que eu me divorciar?'", diz Sarhadi. "Você terá de ceder muito ou perderá sua dignidade e sua honra."
"Senhor governador, a minha honra e a minha dignidade já foram destruídas", responde Tuba. O marido escuta, à espera de sua vez de falar.
👉 Pela Sharia, uma mulher que pede ao marido que concorde com o divórcio pode ter de devolver parte ou todo o dinheiro que recebeu dele quando se casaram. Muitas vezes, as partes chegam a um acordo financeiro. Mas o marido de Tuba diz querer receber quatro vezes esse valor, quantia que a família dela se recusa a pagar.
O governador diz que a mulher deveria ter um quarto só para ela. Acrescenta que as autoridades vão advertir o marido para que não volte a agredi-la — "caso contrário, ele será preso".
Insatisfeito, o pai de Tuba diz mais tarde à BBC que a família vai tentar obter o divórcio na Justiça, embora, no sistema judicial do Talebã, seja muito difícil para uma mulher conseguir se divorciar sem o consentimento do marido.
De Guantánamo ao governo




0 Comentário(s)
Deixe seu comentário