As mudanças climáticas já não representam apenas uma ameaça ambiental futura: elas estão gerando impactos concretos na saúde física e mental das populações em todo o mundo. Leia mais (06/26/2026 - 19h00)

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26.jun.2026 às 19h00

As mudanças climáticas já não representam apenas uma ameaça ambiental futura: elas estão gerando impactos concretos na saúde física e mental das populações em todo o mundo.

Relatórios recentes da OMS (Organização Mundial da Saúde) e do Lancet Countdown on Health and Climate Change alertam que eventos extremos, como secas prolongadas, queimadas, ondas de calor e enchentes, têm intensificado quadros de ansiedade, sofrimento psicológico, depressão e deslocamentos forçados, entre populações historicamente vulnerabilizadas.

Vivemos em um contexto de emergência não declarada. Por isso, é fundamental agir desde já na preparação antecipada e no alerta precoce das populações. Devemos nos apropriar de conceitos já desenvolvidos, testados, aprimorados e validados pelo Comitê Permanente Interinstitucional (IASC, na sigla em inglês), o fórum de coordenação humanitária mais antigo e de mais alto nível do sistema das Nações Unidas.

Entre as abordagens desenvolvidas pela IASC, está o ERP (Emergency Response Preparedness), que envolve planejamento, avaliação de riscos e treinamento —como o desenvolvimento de planos de evacuação, a montagem de kits de emergência ou a implementação de sistemas de alerta— para gerenciar potenciais desastres naturais ou causados pelo homem, garantindo uma resposta rápida e eficaz.

Nas políticas globais de adaptação climática, no entanto, a saúde mental permanece praticamente invisível.

No Brasil, esse debate começa a ganhar força a partir da articulação entre pesquisadores, movimentos sociais, organizações da sociedade civil e comunidades diretamente afetadas pela crise climática.

Um exemplo concreto é o projeto, recentemente aprovado pela United for Global Mental Health (UnitedGMH), em parceria com o Vertentes - Ecossistema de Saúde Mental, que pretende fortalecer a integração entre saúde mental e mudanças climáticas nas políticas públicas brasileiras.

A proposta prevê o mapeamento nacional de políticas de clima e de saúde mental para identificar lacunas e oportunidades de incidência política, elaborar uma estratégia e articular ações concretas de advocacy, com base em evidências.

O projeto Vertentes Saúde Mental e Clima surge em um momento decisivo para o país, com a intensificação das secas históricas, das queimadas e das ondas de calor na Amazônia. Mais do que reconhecer os impactos emocionais da crise climática, o desafio agora é transformar esse reconhecimento em políticas públicas integradas e efetivas.

Isso significa fortalecer os sistemas públicos de saúde mental nos territórios mais vulnerabilizados, ampliar as estratégias de promoção e prevenção diante dos eventos extremos e reconhecer os saberes tradicionais como parte fundamental das respostas climáticas. Afinal, como mostram as comunidades amazônicas, não há adaptação climática possível sem floresta em pé, sem proteção dos territórios e sem cuidado com os corpos, as memórias e os modos coletivos de viver.

Estudos da OMS e da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) vêm alertando para que as mudanças climáticas impactam profundamente a saúde mental, em populações que dependem diretamente da natureza para sobreviverem materialmente, culturalmente e espiritualmente. Para essas comunidades, a floresta funciona como um verdadeiro sistema de cuidado, fonte de alimento, cura, pertencimento e equilíbrio emocional.

E as vozes do Tapajós, do Marajó e das comunidades quilombolas do Pará revelam que a crise climática também é uma crise de saúde mental, de memória e de continuidade dos modos de vida.

No Território Indígena Kumaruara, no Baixo Tapajós, Tainan Kumaruara, 27, relata: "Essa seca foi diferente… Houve um momento em que o igarapé secou, e as famílias foram obrigadas a sair."

A falta de água não afeta apenas o território físico, mas também o equilíbrio emocional e espiritual das pessoas que nele vivem. Arlete Kumaruara, 60, liderança indígena e comunitária, relata: "A gente não tinha água, não tinha como sobreviver… e tudo isso afeta o psicológico, principalmente das mulheres e das crianças." O que antes era abundância, pesca, roça, floresta viva, hoje dá lugar à escassez, à incerteza e ao sofrimento, comprometendo a saúde mental e as práticas da vida cotidiana.