Médicos relatam falta de pessoal, medicamentos e equipamentos, piorando a situação de hospitais já fragilizados

Compartilhar matériaA Venezuela já estava fragilizada muito antes de dois terremotos consecutivos abalarem o país na última quarta-feira (24).

Os efeitos de mais de uma década de má gestão governamental e sanções econômicas são evidentes no Hospital Infantil Dr. José Manuel de Los Ríos, em Caracas, onde a médica Huníades Urbina-Medina só consegue atender quatro crianças por vez na unidade de terapia intensiva.

“Antes, podíamos receber até 10 pacientes na UTI”, disse Urbina-Medina. “Mas, há pelo menos 10 anos, não temos pessoal suficiente, não temos medicamentos suficientes, não temos ventiladores mecânicos suficientes.”

Uma das quatro pacientes em tratamento é uma menina de 12 anos que foi esmagada sob vários andares de um prédio que desabou. Ela está em agonia, com inúmeras lesões que ameaçam sua vida.

Aproximadamente 100 crianças foram tratadas em outras unidades do hospital desde a semana passada, uma fração dos feridos nos terremotos. O governo venezuelano tem atualizado o número de vítimas dos terremotos apenas gradualmente. Atualmente, o número é de mais de 1.700 mortos e mais de cinco mil feridos.

Na segunda-feira (29), equipes de resgate equatorianas disseram ter retirado com vida um menino de 12 anos dos escombros no estado de La Guaira, mas espera-se que os resgates se tornem cada vez mais raros agora que a chamada "janela de ouro" para sobrevivência após um terremoto já passou.

O Serviço Geológico dos Estados Unidos afirmou que há uma grande probabilidade de que os terremotos de magnitude 7,2 e 7,5 tenham matado dezenas de milhares de pessoas.

Talvez nunca saibamos o número real de vítimas; quando uma tragédia semelhante atingiu o estado de La Guaira em 1999, o governo nunca divulgou um número oficial de mortos.

O governo prorrogou o fechamento das escolas, e informações preliminares sugerem que 432 escolas somente em Caracas foram danificadas. Escolas que não foram danificadas estão entre os prédios que estão sendo usados ​​como abrigos temporários para os milhares de desabrigados.

Urbina-Medina disse à CNN que nenhum hospital na Venezuela estava preparado para uma emergência tão grande quanto os dois terremotos da semana passada.

“Nenhum hospital na Venezuela está preparado para o dia a dia”, disse Urbana-Medina. “Mas com essa catástrofe, a situação piora porque não temos medicamentos, pessoal e equipamentos suficientes aqui na Venezuela.”

Antes dos terremotos, o governo geralmente defendia seu sistema nacional de saúde como robusto, atribuindo as deficiências às sanções impostas pelos Estados Unidos.

Outros médicos que falaram com a CNN apresentaram queixas semelhantes. Muitos hospitais estão danificados, relatou o dr. Andrés Cortiz, voluntário da Healing Venezuela, uma organização beneficente britânica que oferece assistência médica gratuita no país.

Cortiz afirmou que oito hospitais em Caracas foram obrigados a fechar e que os restantes estão sobrecarregados de pacientes e carecem de materiais básicos de limpeza, como água sanitária e desinfetante.

Outros problemas são anteriores ao terremoto. À medida que a Venezuela afundou ainda mais na crise na última década devido à má gestão do governo socialista e às punitivas sanções econômicas dos EUA, Urbana-Medina viu muitos profissionais médicos qualificados deixarem o país em busca de melhores oportunidades no exterior.

Essa mesma fuga de cérebros afetou as escolas venezuelanas, que já sofriam com uma grave escassez de professores antes do terremoto.

Outros profissionais de saúde foram forçados a deixar o país mais recentemente. Logo após a prisão do então presidente Nicolás Maduro pelos EUA em janeiro, a Venezuela encerrou a longa missão médica cubana no país, cortando um recurso fundamental para comunidades carentes.

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Foram necessárias 24 horas após os dois terremotos para que o cheiro de morte emanasse das ruínas de Caracas. O odor dos corpos em decomposição agora paira sobre os prédios desabados por toda a cidade.

É insuportável, mas não desanima as famílias daqueles que ainda estão presos sob os escombros. Muitas acamparam ao longo da borda dos montes de concreto e vergalhões esmagados, aguardando notícias de seus parentes.