É preciso estar perto da morte para aprender a amar a vida? Romance promete uma narrativa profunda e reflexiva, mas escorrega na previsibilidade.
Publicado no Japão em 2013, Três dias de felicidade (Mikkakan no koufuku) é um romance escrito por Sugaru Miaki e com capa ilustrada por E9L. Em 2016, o romance recebeu uma adaptação em mangá intitulada I sold my life for ten thousand yen per year (Jumyou wo kaitottemoratta. Ichinen ni tsuki, ichiman’en de) ilustrada por Shouichi Taguchi, cuja publicação dos três volumes, no Brasil, ficou a cargo da JBC. O romance chegou ao nosso país no ano passado, novamente pelas mãos da JBC e com tradução de Mie Ishii.
Versão em mangá da história. | Reprodução/JC
O enredo de Três dias de felicidade gira em torno do protagonista Kusunoki, um homem de 20 anos que vive uma vida infeliz e acredita que nunca será capaz de encontrar a felicidade. Um dia, ele ouve falar de um local onde é possível vender sua expectativa de vida e, como não tem nenhuma esperança de ter um futuro feliz, acaba vendendo seus próximos 30 anos por 300 mil ienes. Restam-lhe, assim, apenas três meses de vida para ser capaz de encontrar a felicidade.
O romance é uma narrativa um tanto melancólica. Narrado em primeira pessoa pelo próprio Kusunoki, o leitor se vê imerso no pessimismo e na autopiedade da personagem, tendo acesso a todos os pensamentos de uma pessoa que se afunda em autocomiseração ao mesmo tempo que, no fundo, continua se apegando à esperança de que um dia algo bom vai acontecer.
Imagem: Reprodução/JBC
Três dias de felicidade narra como uma pessoa que odeia a vida e o mundo pode mudar e ser salva da autopiedade quando se vê prestes a morrer. No Epílogo, Sugaru Miaki chega a falar isso explicitamente, que é a mudança desse tipo de pessoa que ela desejou contar. Por meio da narração de Kusunoki, o romance tenta trazer algumas reflexões não necessariamente relacionadas ao valor da vida, mas sobre felicidade, aceitar ou não a vida que se tem, o modo que se olha para vida e para o mundo etc. A narrativa também aborda temas pesados como suicídio, depressão e perda, e até mesmo tangencia uma leve crítica ao que a sociedade japonesa valoriza ou não, mas tudo bem levemente. Em outras palavras, a história se propõe a ser um tanto reflexiva e profunda, mas existe um problema na maneira como essa tentativa é executada, ou melhor, no caminho que a narrativa segue.
A premissa do romance é interessante e ele tem algumas personagens interessantes, como o próprio Kusunoki, a Himeno e a Miyagi. Como já dito, Kusunoki é o protagonista e o narrador da história. O leitor acessa o universo do romance por meio dos olhos e dos pensamentos da personagem principal. Como narrador, ele tem uma função interessante: não apenas descreve os lugares com bastante detalhes — o que nem sempre é comum em narrador-personagem de romances contemporâneos voltados para um público mais jovem — e conta o que está acontecendo, mas também tem conhecimento do futuro. Esse traço é interessante porque o narrador não está lendo um Kusunoki contar o que está acontecendo com ele agora, mas sim o que aconteceu com ele; e os momentos em que o narrador dá uma pista de algo que ainda vai acontecer, servem como uma forma de despertar curiosidade do leitor acerca do que ainda está por vir e mantê-lo engajado na narrativa. É um recurso muito simples, mas que definitivamente funciona.
Como personagem, Kusunoki também é uma pessoa um tanto contraditória e isso é bom; contudo, algumas partes de sua construção podiam ser melhores. Ele vive uma vida muito infeliz aos seus 20 anos, porém, ao mesmo tempo que acredita que é um fracasso e que vai ser sempre assim, no fundo — e nem é tão no fundo assim — continua tendo a esperança de que algo bom vai acontecer em sua vida. Kusunoki tem essa expectativa no exato tempo em que a narrativa se desenvolve, pois, quando tinha 10 anos, sua amiga de infância Himeno fez uma previsão: no próximo verão, daqui dez anos, algo bom vai acontecer, e eles dois serão grandes e famosos.
Embora tudo tenha dado errado nos anos que se seguiram, Kusunoki continua agarrado a essa ideia. Quando criança, Kusunoki e Himeno eram excluídos na escola, mas, diferentemente de Himeno, que era excluída por ser boa nas matérias, Kusunoki era excluído porque se achava melhor que todo mundo. Uma criança inteligente, com boa memória e que ia bem nos estudos, Kusunoki se achava superior às demais crianças de sua turma. É mais ou menos por aí que a construção de Kusunoki peca um pouco. A história não dá nenhum motivo para que Kusunoki seja assim, ele só parece ser assim naturalmente. Contudo, esse comportamento reverbera um pouco em quem ele se torna quando adulto. Uma criança inteligente e que se achava melhor que todo mundo, mas quando adulto trabalha muito fazendo bicos, ganha pouco, não se destaca em nada e é infeliz.
Pra uma criança que tinha grandes expectativas em si mesma, é um baque que o sucesso não seja alcançado. O comportamento de Kusunoki na infância e a situação em que ele se encontra na vida adulta têm certa relação com como é a sua família, que parece valorizar um pouco títulos e nomes — em um certo momento da história, a personagem comenta como seus pais não viam sentido em se matricular em uma universidade mediana, a única que Kusunoki conseguiu passar —, mas a família dele é sempre citada rapidamente, e tudo fica na base da sugestão. Desse modo, tudo o que o leitor tem acesso é: Kusunoki era assim quando criança e está nessa situação quando adulto, ele foi crescendo e ficando de tal jeito e o leitor só precisa aceitar.
A Himeno, por sua vez, é uma companheira de desgraça do Kusunoki. A vida dela também não dá certo, a previsão que fez aos 10 anos de idade também não funciona para ela. Himeno é um importante motor para uma reviravolta que acontece no livro. Ela é uma personagem interessante, porque serve para exemplificar como parte da infelicidade de Kusunoki é “culpa” dele mesmo. Ele olha só para si e alimenta fantasias, mas não enxerga as pessoas realmente.
A última personagem com mais destaque na narrativa é a Miyagi, a monitora responsável por Kusunoki durante os últimos três meses de vida dele. Inicialmente quieta e misteriosa, Miyagi vai ganhando pouco a pouco mais espaço na narrativa, embora parte do espaço que ela ganhe seja só para ser um motor de mudança para o protagonista. Miyagi tem sua própria história, ela não é uma maniac pixie dream girl, entretanto, apesar disso, é difícil não notar que a garota também tem como função salvar o Kusunoki. Esse detalhe não é a pior coisa do mundo nem estraga todo o livro, porém, a gente já viu esse filme, né? E existe uma questão levemente espinhosa em relação a essa função da Miyagi.
O que se pode perceber observando esses três nomes com maior espaço na narrativa é que Três dias de felicidade tem personagens interessantes e se propõe a ser um livro mais reflexivo e profundo. O problema é que para um livro que tem essa proposta, o romance é bastante previsível. A narrativa tem pequenas reviravoltas, e uma maior que é o ponto de virada da vida do Kusunoki, tem bons momentos, mas no geral o leitor consegue ver através da história a ser contada e sabe exatamente o que vai acontecer. Pra piorar, o como acontece também não é tão imprevisível a ponto de compensar a previsibilidade do que vai acontecer. Lá bem pro finalzinho até tem um como que abre mais possibilidades, então é menos previsível, mas você já sacou páginas atrás a ação principal.
O leitor percebe muito rápido o que vai acontecer entre ele e a Himeno, e percebe mais rápido ainda o que vai acontecer com relação à Miyagi. É algo facilmente notável e perceptível porque esses elementos já foram repetidos várias vezes em outras histórias. De certa forma, é como se o romance migrasse de algo mais introspectivo para uma história de amor. De repente, parece que ele está quase tangenciando um livro escrito pelo Nicholas Sparks. Sugaru até pega leve no melodrama e faz uma boa escolha em deixar isso mais para o final, mas mesmo assim, a história continua previsível e morna.
O final de Três dias de felicidade ganha ares heroicos que, ainda que não se deem no âmbito do macro e das grandes ações, ainda é um heroísmo simbólico onde um homem é mudado pela garota por quem se apaixona e se sacrifica por ela; já a mulher se apaixona por esse homem, e também o salva a seu próprio modo. Ou seja, tudo descamba para um romance meio clichê. Apesar desse desenrolar não ser necessariamente a pior decisão narrativa do mundo, existe um outro ponto bastante incômodo nesse rumo.
Neste romance existe uma tentativa de abuso sexual, ou melhor, a consideração de uma tentativa de abuso sexual, e é incomodo, mas não surpreendente, o fato de que esse acontecimento é tratado de forma completamente leviana. Em um determinado momento da história, o Kusunoki pensa em “fazer algo ruim”, em estuprar uma mulher, Miyagi. Ele verbaliza esse desejo, a garota sabe disso, ela sente essa intenção. Como dito anteriormente, essa história é muito previsível, então é meio óbvio que o Kusunoki não consegue levar o pensamento à cabo e desiste, mas toda a narração da situação embora finja levar a sério essa atitude, na verdade, não compreende o quão violento é essa ação. As palavras na página até dizem o quão ruim sesse tipo de atitude é, mas a história em si não trata esse pensamento como algo deplorável.
Miyagi não demonstra medo em nenhum momento, ela espera pacificamente o desenrolar ou não da violência. E quando Kusunoki desiste e reconhece que foi um babaca, ela até o consola dizendo que ele nem é dos piores (tem um erro na edição, um “não” em excesso, mas o que ela está dizendo é que ele não é dos piores, como se isso fosse pouco). Além disso, logo em seguida a essa cena, as duas personagens estabelecem uma conexão, a garota fala do passado dela para ele, eles se aproximam. Futuramente, ela cita que é a partir do incidente na estação, a conversa que acontece logo após ele pensar em abusá-la, que ela se sente vista. A personagem se apaixona pelo Kusunoki, é com ela que o romance se desenvolve. Ele ganha amor e afeto da mulher que ele pensou em estuprar, Kusunoki desperta amor e afeto na mulher que ele pensou em estuprar simplesmente porque não tinha nada a perder e a achava atraente.
É verdade que a literatura não precisa ser moral nem ensinar nada a ninguém, mas precisa tratar os temas que aborda, ela precisa fazer alguma coisa com eles. Três dias de felicidade simplesmente escusa o pensamento de Kusunoki, é como se fosse aceitável um homem prestes a morrer ter pensamentos ruins e um desses pensamentos ser abusar de uma garota indefesa, e devido a condição que a personagem se encontra essa atitude é reprovável, mas a mulher pode ser compreensiva, passar por cima disso. A história simplesmente se nega a lidar com a gravidade da temática que decidiu abordar.
Obviamente, apontar esse aspecto do romance não significa que ele precisa ser queimado em praça pública, ou retirado das prateleiras, mas é fato que o tratamento que é dado a esse episódio é reflexo de como muitas pessoas, mesmo mulheres, ainda veem o abuso sexual como uma violência menor em relação às outras, e que, mesmo inconscientemente, acham “aceitável” que um homem infeliz e desenganado, de todos os pensamentos ruins possíveis, tenha logo esse impulso. E essa é a parte mais desastrosa do romance.
Em resumo, Três dias de felicidade é um livro com uma proposta e algumas personagens interessantes, e tem alguns bons momentos. Contudo, a narrativa melancólica e reflexiva é bastante previsível e se desenvolve de modo a se transformar num romance clichê, abandonado o potencial profundo do livro. Para piorar, ele não é capaz de tratar com seriedade todos os temas que aborda, sendo esse, talvez, o maior problema do livro. Enquanto uma história de amor adornada de delicadeza e beleza se desenvolve, é quase impossível não pensar o tempo todo: o final feliz desse protagonista parece ser ao lado da mulher que ele quase violou, e ninguém, além do próprio leitor, parece se importar com isso.




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