Embaixador em Brasília diz à Folha que eventual ação militar dos EUA contra a ilha pode agravar situação
benefício do assinante
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
benefício do assinante
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.
Salvar para ler depois
Recurso exclusivo para assinantes
assine ou faça login
15.jul.2026 às 23h00
Edição Impressa Diminuir fonte
O retorno de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos, as medidas de bloqueio econômico intensificadas contra Cuba e as "práticas anti-humanas" contra migrantes adotadas por Washington são o pano de fundo do aumento sem precedentes do fluxo de cubanos ao Brasil, na visão da embaixada da ilha caribenha em Brasília.
Um conflito militar entre EUA e Cuba –ameaças de invasão à ilha são consideradas reais pelo regime cubano– pode piorar esse cenário, com migração desordenada, segundo o embaixador Víctor Manuel Palomo, em entrevista por escrito à Folha.
"Uma guerra militar contra Cuba teria graves consequências. Um conflito militar seria de alta intensidade e levaria à desestabilização da região, com inúmeras mortes entre o povo cubano e cidadãos dos EUA", disse Palomo. "Analistas mencionam que, entre as consequências de uma agressão militar a Cuba, está um possível movimento migratório desordenado."
O retorno de Trump ao poder –e a designação de Marco Rubio como secretário de Estado, cargo de quem exerce a chefia da diplomacia americana– coincide com o aumento das jornadas amazônicas de cubanos no Brasil, conforme o embaixador.
Uma "guerra multidimensional" levada adiante por Trump e Rubio —termo usado para se referir aos bloqueios econômicos sistemáticos— provoca apagões de energia, falta de água potável, queda na produção de alimentos e de medicamentos e deterioração de serviços básicos, segundo Palomo.
A intensificação dessas deficiências em Cuba é constantemente mencionada por migrantes do país que decidem buscar o Brasil, como a Folha constatou na apuração feita em Oiapoque (AP) –no extremo norte do país, uma região de amazônia atlântica– e em Santana (AP), cidade vizinha a Macapá cujo porto é usado nas jornadas rumo a cidades mais ao sul do país.
"O aumento da chegada de cubanos ao Brasil também coincide com a aplicação de medidas anti-humanas do atual governo dos EUA contra migrantes. A perseguição, a criação de centros de detenção e os processos forçados de deportação geram medo", afirmou o embaixador de Cuba no Brasil, que está na função desde maio.
Segundo Palomo, os EUA perseguem cubanos que têm relação com o país, uma "política promovida por políticos anticubanos". Rubio, o secretário de Estado de Trump, nasceu em Miami e é filho de imigrantes cubanos.
"Milhares de cubanos tiveram cancelado o status migratório nos EUA devido a essas políticas extremistas do presidente Donald Trump", disse o embaixador no Brasil.
A Folha mostrou, em reportagens publicadas em 27 de junho e no último dia 9, a jornada amazônica feita por migrantes cubanos para ingresso no Brasil, o que inclui vendas de imóveis, em alguns casos, e abandono de profissões.
Uma guerra militar contra Cuba teria graves consequências. Um conflito seria de alta intensidade e levaria a desestabilização da região.
Essas travessias são feitas por ar, terra e água, com passagens por Suriname, Guiana Francesa, região de Oiapoque e Belém, até cidades no sudeste, centro-oeste e sul do Brasil. Grupos têm optado por permanência no país, o que representa uma mudança em relação aos primeiros fluxos, quando os EUA e países vizinhos de língua espanhola eram mais procurados.
São comuns práticas de extorsão e atuação de equipes organizadas para a logística, que cobram valores exorbitantes por uma passagem de barco ou pelo transporte pela rodovia que liga Oiapoque a Macapá.
A PF investiga os crimes de organização criminosa, contrabando de migrantes, extorsão, lavagem de dinheiro e câmbio ilegal. A polícia já identificou 20 "pirateiros" –ou "picapeiros"– atuando nesse esquema.




0 Comentário(s)
Deixe seu comentário