Seleção brasileira mobiliza torcedores sem qualquer vínculo familiar com o país

benefício do assinante

Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

benefício do assinante

Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

Salvar para ler depois

Recurso exclusivo para assinantes

assine ou faça login

É gol do Brasil. Milhares de fãs gritam, buzinam e ocupam as ruas para comemorar a vitória da seleção na Copa do Mundo de 2026. Há, porém, um detalhe curioso: nenhum deles fala português ou tem qualquer relação direta com o Brasil. São imagens de locais distantes —como Bangladesh, Líbano, Índia ou Jamaica, por exemplo—, países onde a camisa amarela se tornou um símbolo de pertencimento para milhões de pessoas.

Esses vídeos com torcedores estrangeiros, que têm viralizado nas redes sociais nas últimas semanas, mostram uma faceta importante do futebol brasileiro: sua capacidade de forjar uma identidade compartilhada entre pessoas que nunca tiveram qualquer contato com o Brasil, projetando a imagem do país no exterior.

"No universo das representações sociais sobre a Copa do Mundo, o lugar do Brasil já está consolidado. É o time de quem se pode esperar alegria, paixão e toques de genialidade. Os torcedores, de todas as partes do mundo, sempre esperarão da seleção brasileira um espetáculo, para reafirmar a certeza de que o futebol pode ser uma forma de arte", afirma o antropólogo e pesquisador Édison Gastaldo.

Se a seleção brasileira desperta sentimentos românticos ao redor do mundo, mesmo sem conquistar uma Copa há mais de duas décadas, isso se deve menos aos resultados recentes e mais ao imaginário construído ao longo de sua história. Afinal, o Brasil continua sendo o maior campeão mundial, com cinco títulos e uma tradição associada ao chamado "futebol-arte".

Segundo Gastaldo, a imagem do "futebol-arte" foi projetada a partir de campanhas marcantes, como a de 1938, e da fama de jogadores como Leônidas da Silva, Pelé e Ronaldo. Mesmo com um regulamento que favorecia seleções europeias durante décadas, que eram a grande maioria entre as participantes, dez dos 22 títulos mundiais foram conquistados por Brasil, Argentina e Uruguai, reforçando esse protagonismo.

"Essa escassez na representatividade das equipes da África e Ásia, pela própria concepção eurocêntrica da competição, aliada ao desempenho excepcional da equipe brasileira ao longo da história, construíram esta representação, que poderíamos chamar de 'o campeão do Sul Global'. Ou, nos termos dos anos 1960, 'o campeão dos subdesenvolvidos'", diz o antropólogo. "Ver um país como o Brasil ganhando de goleada das melhores seleções europeias, como o 5 a 2 contra a Suécia na final de 1958, por exemplo, e se tornando campeão do mundo trouxe um enorme prestígio para o futebol brasileiro", completa.

John Hughson, professor emérito de Estudos do Esporte e Cultura da University of Central Lancashire (Reino Unido) e pesquisador da cultura das torcidas de futebol, concorda. Para ele, sob uma perspectiva sociopolítica, embora seja um gigante do futebol, o Brasil tem uma ligação com diversos povos do mundo e representa o chamado Sul Global —conceito que define nações da América Latina, África, Ásia e Oceania e que compartilham histórias de colonialismo e desigualdade social.

"É provável que muitos torcedores de países não ocidentais sintam satisfação em ver seleções associadas às antigas potências coloniais serem derrotadas por equipes sul-americanas. Atualmente moro na Tanzânia e me dizem que muitos tanzanianos torcem pelo Brasil por causa da grande população afrodescendente do país, a maior fora da África entre aquelas originadas pelo tráfico transatlântico de escravizados. Muitos africanos enxergam no Brasil uma conexão cultural baseada nessa herança compartilhada, além da música e de outras tradições", conta.

Na avaliação de Leda Maria da Costa, pesquisadora do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, a consolidação desse imaginário foi impulsionada pelos meios de comunicação, principalmente com o advento da TV e das redes sociais, responsáveis por montar e difundir narrativas míticas em torno da seleção brasileira e do futebol. Além disso, o país é celeiro de novos ídolos, de Pelé e Ronaldo a Neymar e Vini Jr. Não à toa, o fenômeno continua atual nos dias de hoje —mesmo em um jejum de 24 anos sem título.

"Essas narrativas conseguem amplificar as vitórias, revestindo-as de uma aura mágica e, muitas vezes, míticas. Essas histórias vão compor a memória individual e coletiva sendo compartilhadas ano após ano. Porém, essas histórias não são meras invenções sem fundamento. Certamente que ganhar em campo é fundamental, sem vitórias dificilmente seria possível construir uma imagem tão poderosa da seleção brasileira como dona de um estilo único de jogar futebol", diz.

John Hughson compartilha uma memória pessoal que vai ao encontro desse racional. "Eu mesmo, hoje com mais de 60 anos, cresci na Austrália já com a ideia de que o Brasil era a maior seleção do mundo. Não sei exatamente de onde essa percepção surgiu, apenas me lembro de que ela sempre esteve presente", diz.

O exemplo da torcida internacional brasileira parece estar em quase todos os continentes. Mas o caso de Bangladesh é emblemático. Apesar de não ter um histórico de imigração ao Brasil, como o Líbano ou algumas nações africanas, ou reconhecer figuras históricas brasileiras, como a Jamaica, que enaltece as ligações de Bob Marley com o futebol brasileiro, a conexão vem de longe.

O tricampeonato mundial do Brasil, conquistado no México em 1970, encantou Sheikh Mujibur Rahman, principal líder do movimento independentista de Bangladesh, fã declarado de Pelé e da seleção brasileira. "A admiração era tamanha que Mujibur chegou a traduzir a biografia de Pelé e a tornou obrigatória nas escolas por considerá-lo um exemplo a ser seguido pela juventude", conta Leda Maria da Costa.