Algo acontece quando até o Canadá cogita fazer parte da União Europeia. Neste sábado (29), quem pode decidir se aproximar da Europa e se afastar dos Estados Unidos de Donald Trump é a Islândia, que decide em referendo sobre a retomada das negociações para ade…
A Islândia iniciou a contagem dos votos na noite deste sábado após um referendo acirrado sobre a retomada das negociações para a adesão à União Europeia, em uma votação marcada por preocupações dos islandeses com o custo de vida, a segurança, a soberania e o controle sobre os recursos pesqueiros do país.
A votação terminou às 22h (19h em Brasília), dando início a uma complexa operação para transportar as cédulas de cidades e seções eleitorais rurais por avião, barco ou carro. Um resultado confiável pode não estar disponível até o meio-dia de domingo, disseram autoridades eleitorais.
Na sexta-feira, uma pesquisa Gallup indicou que uma pequena maioria se opunha à proposta do governo de retomar as negociações, uma ligeira mudança em relação a levantamentos anteriores, que apontavam uma vantagem estreita dos defensores da retomada das conversas.
Os partidários do “sim” afirmam que a entrada no bloco poderia ajudar a reduzir as altas taxas de juros e oferecer mais segurança em um mundo abalado pela guerra na Ucrânia e pelas ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em relação a outra ilha do Ártico, a Groenlândia.
Os defensores do “não” argumentam que a adesão à UE ameaçaria a soberania da ilha e o controle sobre suas águas pesqueiras.
A campanha para o referendo estimulou o debate sobre o lugar da Islândia no mundo, disse a primeira-ministra Kristrun Frostadottir a jornalistas após votar na capital neste sábado.
“Este é um grande dia. Esperamos há anos para poder votar sobre isso”, disse Frostadottir, acrescentando que seu governo continuará seu trabalho independentemente do resultado.
Uma vitória do “sim” abriria caminho para negociações com Bruxelas. A Islândia teria de realizar um segundo referendo, provavelmente vários anos depois, para decidir se efetivamente entrará na UE.
Velhas questões, nova urgência
A Islândia solicitou pela primeira vez a adesão à UE em 2009, em meio a uma crise financeira que atingiu de forma especialmente dura a pequena e vulnerável economia do país. As negociações terminaram em 2013, quando um governo eurocético interrompeu o processo.
A renovação das turbulências geopolíticas trouxe nova urgência a uma questão debatida de tempos em tempos pelos islandeses há décadas.
Iwo Egill Macuga Arnasson, estudante de 19 anos que votou neste sábado em Reykjavik, disse ter apoiado a proposta de retomada das negociações.
“Acho que isso vai influenciar muito a minha vida, quer entremos ou não na União Europeia”, disse à Reuters.
Os debates na Islândia têm se concentrado mais nas taxas de juros, nos direitos de pesca e no custo de vida do que na segurança.
A Islândia enfrenta uma inflação persistentemente alta e juros que tornaram os financiamentos imobiliários extremamente caros. Os defensores do “sim” afirmam que a adesão à UE e a possível adoção do euro poderiam trazer algum alívio. A taxa básica de juros do Banco Central islandês está em 8%, ante 2,25% no Banco Central Europeu.
“Isso não resolveria os problemas estruturais da Islândia, mas poderia se tornar um catalisador para uma economia mais saudável”, disse Vilhjalmur Hilmarsson, economista-chefe da Viska, um dos maiores sindicatos da Islândia.
A líder da oposição, Gudrun Hafsteinsdottir, que liderou a campanha pelo “não”, argumenta que os benefícios econômicos são exagerados. “Esses não são problemas que Bruxelas resolverá por nós. São problemas que os políticos islandeses precisam resolver”, disse.
Ragnhildur Skarphedinsdottir, de 70 anos, afirmou que a Islândia está se saindo bem por conta própria e que votaria “não”. “Permanecendo independentes como somos, podemos olhar para o futuro com otimismo”, disse antes de votar em Reykjavik.
Pesca é principal ponto de impasse
Pelas regras da UE, as cotas de pesca são determinadas, entre outros fatores, com base nos padrões históricos de atividade pesqueira. Algumas autoridades argumentam que isso permitiria à Islândia manter o controle sobre suas águas, já que nenhum país da UE pesca nelas há décadas.




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