Nem o sucesso de "Toy Story 5" evitou os cortes na Pixar. Entenda por que a crise do estúdio ameaça sua capacidade de criar novas franquias.
A atual crise de Hollywood não poupa ninguém. Nesta semana, a Disney realizou uma nova rodada de demissões em massa, com centenas de funcionários desligados. A divisão mais afetada do conglomerado é a Pixar Animation Studios, que perdeu 10% de seus cerca de 1.100 funcionários, segundo a imprensa americana.
Justamente o estúdio que acaba de entregar um sucesso estrondoso, com quase US$ 1 bilhão (R$ 5,05 bi) arrecadado mundialmente e uma das maiores bilheterias do ano nos cinemas. Acontece que esse resultado ajuda a explicar justamente por que a Pixar está em crise.
Essa não é a primeira rodada de demissões da Disney, apenas a mais recente. Desta vez, os cortes atingiram a National Geographic, a ESPN — incluindo diversas posições ligadas à recente aquisição da NFL Network — e, claro, a Pixar.
O CEO do grupo, Josh D'Amaro, não se pronunciou. Contudo, um comunicado enviado na leva anterior de cortes, em abril, dá algumas pistas sobre as motivações da companhia. "Nos últimos meses, analisamos maneiras de simplificar nossas operações em diferentes áreas da empresa para garantir que continuemos entregando a criatividade e a inovação de nível mundial que nossos fãs valorizam e esperam da Disney", afirmou o executivo à época.
Diante da velocidade com que nosso setor evolui, precisamos avaliar constantemente como construir uma equipe mais ágil e preparada para usar tecnologia, capaz de atender às demandas do futuro Josh D'Amaro, CEO da Disney
Nas entrelinhas, pesam dois fatores importantes.
O primeiro é o advento da inteligência artificial. Enquanto o lado mais visível da tecnologia segue sendo vídeos — e, agora, filmes — totalmente gerados com IA, na prática ela encurtou muitos caminhos da produção, principalmente nos efeitos especiais. Empresas como a Netflix já confirmam o uso de IA generativa, com resultados que muitas vezes passam despercebidos pelo público.
Na animação, isso é ainda mais sensível: a natureza desse tipo de conteúdo é justamente a ausência de uma figura humana real, de carne e osso. Em abril, esta coluna abordou algumas das dificuldades atuais para o conteúdo infantil — e o impacto é semelhante.
No caso de um estúdio desse segmento que tem como objetivo premiações como Oscar, a utilização de IA para criar cenas inteiras ou parte delas ainda esbarra em aspectos controversos, inclusive na elegibilidade para a disputa de estatuetas. Ainda assim, a inteligência artificial pode ser utilizada para pré-produção, marketing e outros segmentos que não envolvem diretamente o produto final.
Acontece que a Pixar é ainda mais detalhista que seus pares. Isso se reflete em um período de cinco anos para que uma ideia seja transformada em um longa-metragem, e também em orçamentos maiores.
"Minions & Monstros", filme da concorrente Illumination lançado agora em julho, precisou de apenas três anos e custou US$ 85 milhões (R$ 430 milhões), de acordo com a Variety. Já "Toy Story 5" exigiu cinco anos de desenvolvimento, com um orçamento de US$ 250 milhões (R$ 1,26 bilhões).
Ainda que caminhem para resultados de bilheteria bastante diferentes, os dois títulos ajudam a ilustrar abordagens distintas de investimento e retorno.
Mas tecnologia não explica tudo. Parte do problema está na própria estratégia criativa da Pixar.
Há dois anos, esta coluna trouxe como "Divertida Mente 2" era uma tentativa de retomada do estúdio. O longa animado foi um grande êxito — arrecadou quase US$ 1,7 bilhão (R$ 8,2 bi) nos cinemas, de acordo com o Box Office Mojo —, mas também um sinal da falta de ideias para novas propriedades intelectuais.
Naquele momento, apontei como os dez primeiros filmes da empresa — lançados entre 1995 e 2009 — foram sucessos marcantes, tanto de crítica quanto de público, inclusive vencendo oito Oscars competitivos e um honorário. Entre eles, houve apenas uma continuação: "Toy Story 2", de 1999.
A partir de 2009, já efetivamente como parte da Disney, o estúdio passou a alternar ideias originais com sequências. Neste período — atualizando os números — já são 21 longas-metragens. Desses, nove são continuações e um é um derivado ("Lightyear"). No Oscar, as produções venceram oito estatuetas — um aproveitamento bem inferior.
Em termos financeiros, são justamente as franquias já estabelecidas que ditam os bons resultados. Além de "Divertida Mente 2", ultrapassaram a cobiçada barreira de US$ 1 bilhão na bilheteria mundial os longas "Os Incríveis 2", "Procurando Dory", "Toy Story 3", "Toy Story 4" e, em breve "Toy Story 5".
A última produção original da Pixar a estourar nos cinemas foi "Divertida Mente", o primeiro, que fez US$ 858 milhões em 2015.
Quando o recorte é a retomada após os fechamentos provocados pela pandemia de covid-19, o cenário fica ainda mais preocupante.
"Elementos" faturou quase US$ 500 milhões (R$ 2,5 bilhões) nas bilheterias mundiais, o que significa um retorno de cerca de US$ 225 milhões (R$ 1,14 bi) para a Disney, já que os estúdios ficam, em média, com 45% da receita dos ingressos — o suficiente para praticamente cobrir, por pouco, o orçamento estimado em US$ 200 milhões (R$ 1 bilhão). "Elio" arrecadou US$ 154 milhões (R$ 750 milhões) para um investimento entre US$ 150 milhões e US$ 200 milhões. "Cara de Um, Focinho de Outro" trouxe uma melhora, com US$ 390 milhões (R$ 2 bilhões) em bilheteria para um filme que custou cerca de US$ 200 milhões.


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