Mamdani representa a nova safra na esquerda com o “eu primeiro”: desprezo ao emprego, ao setor privado, dependência de subsídios. Leia na Gazeta do Povo.
Por Jonas Rabinovitch
Dê de presentePrefira a Gazeta no GoogleO prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, da ala socialista do Partido Democrata. (Foto: SARAH YENESEL/EFE/EPA)Ouça este conteúdo
Dois fatos coincidentemente ocorridos no início de junho me ajudaram a esclarecer uma dúvida antiga: se o comunismo já foi tentado em 47 países e nunca deu certo, por que tanta gente ainda vota na esquerda radical? O primeiro fato foi um painel realizado pela Sociedade de Sabedoria Judaica de Nova York sobre 150 dias de Mamdani como prefeito de Nova York. Como vocês sabem, a capital mundial do capitalismo elegeu um prefeito comunista/socialista.
O segundo foi um artigo de capa da revista The Economist com o título “Como Lutar Contra o Socialismo da Geração Z”. A Geração Z nasceu entre 1997 e 2012, sucessora dos millennials, a primeira geração a crescer totalmente imersa na internet e nas redes sociais. O que o editor da The Economist chama de “Socialismo da Gen Z” eu chamo de “Democracia da Vagabundagem”.
O artigo da The Economist cita Mamdani como exemplo. O texto deixa claro que os eleitores de esquerda, pelo menos nos países mais desenvolvidos, não são mais motivados por ideologias coletivistas ou pela conquista dos meios de produção: o socialismo da Geração Z é uma doutrina do “eu primeiro”. Motivados pela fúria em relação a Gaza, eleitores jovens foram conquistados “em um ritmo impressionante”. A Geração Z foi influenciada por uma “cartilha eleitoral” combinando três fatores:
Financiamento do antissemitismo global, disseminando ódio a judeus no mundo inteiro, alegando que Israel estaria cometendo genocídio em Gaza. Isso tem dois efeitos: gera votos para a esquerda ao identificar judeus como culpados (já vi esse filme muitas vezes antes) e desvia a atenção de crises econômicas e corrupção.
É importante esclarecer que, no caso de Mamdani, judeus não têm nenhum preconceito para votar em um muçulmano, já que Mamdani recebeu 33% dos votos de todos os judeus que votaram para prefeito de Nova York, principalmente jovens. Sobre o suposto “genocídio em Gaza”, a Convenção das Nações Unidas sobre o Genocídio (1948) especifica cinco critérios “com intenção de destruir um grupo nacional, étnico, racial ou religioso”, como, por exemplo, “matar civis de forma indiscriminada”.
A Corte Internacional de Justiça não confirmou genocídio em Gaza. Até o processo ser concluído, o uso da palavra “genocídio” é prematuro, motivado por racismo antissemita politiqueiro. Afinal, que “genocídio” é esse em que a população palestina aumentou nove vezes (900%) desde 1948? Por outro lado, gritar “Palestina Livre do Rio (Jordão) ao Mar (Mediterrâneo)” equivale a clamar pelo genocídio de todos os judeus que vivem em Israel. Fico triste quando vejo que até o Brasil, um tradicional exemplo de convivência pacífica entre árabes e judeus, se transforma em berço de antissemitas que odeiam judeus por acreditarem que Israel estaria cometendo genocídio. Tanto Lula como Mamdani ajudaram a propagar essa mentira.
A Geração Z inaugura uma nova safra na esquerda com o 'eu primeiro': desprezo ao emprego, ao setor privado, dependência de subsídios estatais, uso de drogas e forte expectativa de que os ricos – resultado do capitalismo que eles desprezam – irão pagar por serviços públicos que seriam grátis para eles
Demagogia populista, prometendo serviços “grátis” (Mamdani prometeu ônibus grátis, mercados populares, aluguel congelado) e controle de preços por meio da taxação dos ricos. Está amplamente demonstrado, na teoria e na prática da gestão pública, que não existe serviço público “grátis”. Subsidiar serviços taxando os ricos excessivamente sempre gerou fuga de capital e investimentos.
O exemplo mais estudado é o famoso Imposto de Solidariedade sobre a Riqueza (ISF) francês. Economistas calcularam que essa política levou a uma fuga de capitais de aproximadamente € 200 bilhões entre 1988 e 2007, resultando em grande perda líquida de receita tributária para a França. Alemanha, Dinamarca, Holanda, Noruega, Suécia e, mais recentemente, o Brasil sofreram significativas perdas de recursos fiscais tentando políticas semelhantes.
No caso do Brasil, a situação é pior: há uma combinação perversa envolvendo descontrole nos gastos do governo, aumento da dívida pública, taxas de juros altas, vários casos de corrupção e insegurança jurídica.
Desprezo pela iniciativa privada e pela geração de empregos, preferindo benefícios governamentais e bolsas sociais. Ignorar a iniciativa privada é matar a galinha dos ovos de ouro. Governos não geram riqueza, apenas distribuem receita. Governos são maus empreendedores, como demonstrado pelo fracasso de todos os países comunistas de economia centralizada.
Hoje, a China pratica capitalismo estatal, reservando para o governo monopólios estratégicos nas áreas de energia e minerais raros, telecomunicações, defesa, bancos e finanças. Mas não despreza o setor privado: 60% do PIB é gerado por empresas privadas, e há mais bilionários na China do que na Europa. Na Rússia, os chamados oligarcas são poderosos bilionários que dominam a economia capitalista, mas seu poder é subordinado ao Kremlin, i.e., Putin e aliados.
Historicamente, a esquerda defendia a “igualdade” e o “fim do capitalismo”. Talvez por ter percebido que não havia outro meio de produção alternativo ao capitalismo, a esquerda se renovou nos anos 1960. Surgiu a neoesquerda (ou “contracultura”), estimulada por acadêmicos ativistas como Herbert Marcuse e outros que queriam “uma revolução para mudar o Ocidente”.
Eles reinventaram o feminismo, promoveram o antirracismo e agora defendem causas como LGBT+ e a ideologia woke. O problema é a falta de propostas políticas claramente definidas e acionáveis. Além disso, há um forte separatismo. Por exemplo, se eu sou de centro-direita, não posso mais ser contra o racismo e contra a discriminação de mulheres e gays? Vejo isso como um grave erro tático da esquerda.
A Geração Z inaugura uma nova safra na esquerda com o “eu primeiro”: desprezo ao emprego, ao setor privado, dependência de subsídios estatais, uso de drogas e forte expectativa de que os ricos – resultado do capitalismo que eles desprezam – irão pagar por serviços públicos que seriam grátis para eles, os eleitores de esquerda. Nos EUA, Europa e Brasil, os democratas da vagabundagem preferem receber benesses do governo a trabalhar. Assim como um vírus, a esquerda sobreviveu por meio de mutações para se manter relevante e aceita.
O mundo enlouqueceu? Sim, e há um método por trás dessa loucuraCuriosamente, o falecido rabino de Londres, Lord Jonathan Sacks, descreveu o antissemitismo como um vírus que sempre evoluiu mudando de forma. Primeiro foi o ódio religioso (judeus teriam matado Jesus, apesar de o Vaticano já ter oficialmente negado essa acusação falsa), seguido do ódio racial (nazismo), e atualmente temos o ódio político que ataca a legitimidade de Israel, criando mitos conspiratórios sobre um suposto “genocídio”, “colonialismo”, “roubo de terras”, “assassinato de crianças” e outros.
Mas lembrem a lição da História: o ódio que começa contra judeus nunca acaba apenas em judeus. Absurdamente, hoje vemos até negros sendo nazistas e gays defendendo o Hamas.
O painel que debateu os 150 dias do prefeito Mamdani em Nova York chegou a uma conclusão controversa. Há dois "Mamdanis": o ideológico e o administrador. O Mamdani ideológico prometeu o que não podia cumprir – moradia barata, mercados populares e ônibus de graça – porque depende de dotações estaduais. Alguns analistas já antecipam recessão, crise fiscal e insegurança urbana. O Mamdani administrador vai tentar entregar uma Nova York com transporte eficiente e seguro, lixo coletado, ruas limpas, diminuição do crime e tranquilidade na cidade.