Será que a resposta para as adversidades da América Latina – cronicamente a patinar entre o populismo, a cleptocracia e o narcotráfico - está numa cidade perdida nos Andes?

“América Latina” é uma barafunda semântica: o que há em comum entre um gaúcho dos pampas, um surfista de Ipanema,  um geek da Cidade do México, um chef de cuisine de Lima (a culinária peruana tem uma galáxia de estrelas no Michelin, com alguns dos melhores restaurantes do mundo) e um haitiano praticante de vodu? Nicles. O menu é variado. Como notou o talentoso autor chileno Alejandro Zambra, ao observar que o seu – como Portugal – é um país de poetas: “Ser um poeta chileno é como ser um chef peruano ou um futebolista brasileiro ou uma top model venezuelana”.

Mas há ranços que os latino-americanos partilham (sobretudo os progressistas), como o fetiche mórbido por catástrofes tal como o massacre dos índios e a escravidão.  No período colonial só houve opressão mefistofélica e não se fala mais nisso.  Por isso, a cultura local tem que ser choramingas. E deve exorcizar o capitalismo, pois o comunismo é muito mais fixe (conquanto só no século XX tenha causado a morte de 100 milhões de terráqueos). Toda a responsabilidade das vicissitudes regionais  foi, é e será eternamente do colonialismo (europeu) ou do neocolonialismo (EUA), embora os latino-americanos sejam independentes há mais de dois séculos.

E convém cultuar santos do pau carunchoso (Perón, Guevara, Fidel) com estátuas equestres, carinhas larocas em T-shirts e hagiografias embevecidas. Como o melodramático “As Veias Abertas da América Latina’, de 1971, do uruguaio Eduardo Galeano, clássico do maniqueísmo panfletário, que o próprio autor renegou em 2014, admitindo que hoje nem ele leria aquela fantochada. O que não impediu Hugo Chávez de mimosear um exemplar a Barak Obama (felizmente, uma edição em castelhano, de que Obama não percebe patavina).

O outro lado da moeda é o complexo de inferioridade latino-americano, sedimentado no rótulo pejorativo “cucaracha” (barata), ou no conceito do autor brasuca Nelson Rodrigues: “complexo de vira-latas” (cão rafeiro).

O próprio Simón Bolivar, que liderou Bolívia, Colômbia, Equador, Panamá, Peru e Venezuela à independência, suspirou: “A melhor coisa a fazer na América Latina é ir-se embora”. Apesar de toda a exuberância caliente, é sugestivo que as duas obras literárias latino-americanas mais icónicas sejam “100 Anos de Solidão” (do Nobel colombiano Garcia Márquez) e “O Labirinto da Solidão” (do Nobel mexicano Octávio Paz). Antes só do que mal acompanhado? Nem por isso. É mais a versão do provérbio corrigida por Fernando Pessoa, para o qual era melhor “antes só do que, até, bem acompanhado”.

É instrutiva uma espreitadela no antes e depois do colonialismo em dois países emblemáticos: o Peru e o México. O México canta olé no futebol por causa das touradas espanholas, e nos estádios os adeptos criaram a ola, simulando uma onda humana nas bancadas. Já o Peru chama-se assim por causa de uma embrulhada verbal escanifobética, que até inclui a Turquia (Turkey, “peru” em inglês) – apesar de a ave epónima ser natural do México, e dizer-se “pavo” em Espanhol. Adiante.

As principais civilizações pré-colombianas no México e no Peru foram os Astecas (além dos Maias) e os Incas. O Império asteca acabou um ano depois da chegada (1519) do espanhol Hernán Cortés. O inca (cuja área compreendia o Peru, a Bolívia, o Equador, a Colômbia, o Chile e a Argentina), durou três anos pós- Francisco Pizarro e seu punhadinho de 168 soldados. Os Incas eram 12 milhões. E só a capital asteca Tenochtitlán (onde hoje é a Cidade do México) correspondia a uma ciclópica e tentacular Veneza, com teias de canais, ilhas flutuantes e aquedutos, e uma população (200 mil habitantes) superior às das metrópoles europeias da altura (Roma e Londres).

Como meia-dúzia de gatos-pingados espanholitos foram capazes de submeter duas sociedades prósperas com uma perna às costas? Pelas armas de metal, cavalos (originários da América, mas naquela altura do campeonato extintos há muito) e doenças exógenas como a varíola. Mas também outro fator mais decisivo: Astecas e Incas não eram democracias idílicas (muito menos socialismos primitivos, como alegou o historiador e fundador do Partido Comunista Peruano, José Carlos Mariátegui) porém impérios  sanguinários, que, além de oligarcas e esclavagistas, praticavam o sacrifício humano como uma moderna fábrica de salsichas.

A maior autoridade na questão (a australiana Inga Clendinan, de “Aztecs: An Interpretation”) conta que só no dia da inauguração do Templo Mayor (em 1487) as filas das vítimas se estendiam por 3 kms, com 20 mil pessoas (há quem fale em 80 mil). Nos festivais astecas regulares, o número de mortos era de 2 mil por dia, incluindo crianças. O coração dos sacrificados era arrancado do peito (“cardioectomia” hoje, “cuculeb” para os astecas) e lançado pelos degraus das pirâmides abaixo, tipo pontapé de saída. E se confessei que não sou vegano, os astecas eram um bocadinho mais javardos no paladar: eram canibais. Adeus, mito do bom selvagem.

Entre os Incas, tudo justificava a matança: feriados religiosos, colheitas, inundações, eclipses. Se o imperador morria, havia a “capacocha”: eram recrutadas/os as/os adolescentes mais belos,  e enterrados vivos lado a lado, como casais. Não admira que os outros povos nativos subjugados por astecas e incas odiassem seus opressores, e aderissem alegremente aos espanhóis (não que tenham ganhado muito com isso).

O México, independente desde 1821, hoje debate-se com os cartéis do narcotráfico (como o CJNG, Cartel Jalisco Nova Geração), e nada menos que 130 mil pessoas estão “desaparecidas”. Guadalajara, capital do estado de Jalisco, é uma das sedes do Mundial de Futebol, com o modernaço estádio Akron. O CJNG controla a região há anos e expandiu-se pelo México todo e mais 40 países, incluindo Portugal. Arrecada biliões de dólares anualmente com o tráfico de fentanil, metanfetamina e cocaína para os EUA. O chefe do cartel, “El Mencho”, foi morto em fevereiro, com a mãozinha do DEA americano, depois de Trump ralhar com a presidente Claudia Sheinbaum que se ela não tratasse do assunto, ele meteria o bedelho.

Guadalajara tem uma indústria tecnológica que valeu-lhe a alcunha de Silicon Valley mexicana, com a presença da Intel e da Bosch, entre outras high-techs globais. Porém, é o álcool, e não a informática, que põe a cidade no mapa. O município de Tequila, a uma hora da capital, é o santuário de uma indústria que produz até 500 milhões de litros de bebida alcoólica por ano, extraída da planta agave-azul, e gera receitas astronómicas. O que, por sua vez, fomenta a máfia da extorsão contra as empresas. Quem não paga, hasta la vista, baby: a média é de 1.500 assassinatos por ano – 125 todo o santo mês. O CJNG também lucra com sequestros, forçando as vítimas a atuarem como vigias, transportar drogas (“mulas”) ou tornar-se sicários.

Na noite de 10 de junho, horas antes da abertura do Mundial, a presidente Sheinbaum brindava no Castelo de Chapultepec, num jantar de gala finérrimo para hierarcas da FIFA. Lá fora, mães de desaparecidos protestavam pacificamente sob a chuva, tentando chegar ao Estádio Azteca. O grupo teve que parar, cercado por polícias. Uma das mães ajoelhou-se diante da tropa de choque, implorando para que as deixassem prosseguir. Os polícias não moveram um músculo, e a manifestação acabou.

Em 1990, no Peru, despontou um engenheiro de 51 anos que até então ninguém tinha visto mais gordo: Alberto Fujimori, de origem japonesa. Pois este ilustre desconhecido concorreu à Presidência da República contra o peruano mais célebre e reverenciado: Mário Vargas Llosa, Nobel de literatura em 2010. Para Llosa, ser presidente do Peru era “o emprego mais perigoso do mundo”.

Quem pensa que os peruanos suspiraram de alívio,  es