Com tanta maquilhagem como improviso, esta é uma festa de "deboche" e humor e é uma celebração LGBT. Do Brasil chega a Lisboa e ao Porto e vai ter convidados portugueses em palco.
Bruno Motta é um dos pioneiros da comédia stand-up no Brasil, onde nasceu, no estado de Minas Gerais. Toda a vida fez teatro e improviso e pertenceu à primeira geração de cómicos que, no início do milénio, se dedicaram ao género humorístico muito popular nos Estados Unidos.
“Interessei-me pela linguagem do stand-up, por esse movimento”, confessa ao Observador, recordando as primeiras manifestações do fenómeno em Portugal, no programa da SIC, Levanta-te e Ri. Na altura, “trabalhei com alguns comediantes portugueses, fiz uns quantos shows em Portugal, com o Hugo Sousa ou o Miguel 7 Estacas, uma geração que depois ficou grande”, afirma.
Decidiu juntar duas linguagens, o humor de roast LGBT e o humor da comunidade drag, num espectáculo inédito e que, apesar da curta existência, rapidamente virou fenómeno. O Gongada Drag nasceu em São Paulo, em 2023, mas já percorreu o Brasil de este a oeste e conquista novos públicos na Europa: até à publicação do artigo, dois dos seis espectáculos em Portugal esgotaram (a última data em Lisboa, dia 16, e a segunda no Porto, dia 17 às 21h).
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O improviso é o grande trunfo da performance, que permite que nenhuma sessão ao vivo seja igual à anterior. “O show é organizado, tem um modelo, mas não é escrito, garante Motta. “Então, a partir daí, é tudo improvisado”, o que implica alguma interação com o público, que define o ritmo dos artistas em palco. “Num show comum você vai ter risadinha, risada e aplauso. Numa gongada você tem risadinha, risada, aplauso, urro, grito, comemoração e celebração.”
“A comunidade LGBT estava carente de um espetáculo de grande produção e a indústria da comédia também”, recorda o criador. “Então, tornámos-nos rapidamente um fenómeno, tanto nos palcos ao vivo, quanto nas redes [sociais], com os nossos conteúdos.”
A terceira cabeça de cartaz, não sendo drag, é um membro ativo da comunidade LGBTQIA+ e também um comediante reconhecido. Natural de Pernambuco, na região Nordeste do país, Júnior Chicó participou no júri do programa Drag Race Brasil, uma adaptação do formato original popularizado por RuPaul, e também foi uma das caras do reality show para comediantes, Se Rir, Já Era (Last One Laughing na versão inglesa, apresentada por Jimmy Carr).
A estes nomes, para já desconhecidos da maioria do público português, juntam-se outros mais familiares — figuras públicas nacionais que intercetam a Gongada Drag pela via do humor e/ou relação com as comunidades drag e queer. Convidar artistas locais é uma praxis habitual do grupo fundado por Bruno Motta, que visa aumentar a cumplicidade entre os humoristas e o público, enquanto promove a “variedade” em cima do palco.
“Entre os comediantes, a gente tem a Joana [Gama], que é uma mulher cis [identifica-se com o sexo biológico e género atribuído à nascença] e bissexual, o Dagú e o Diogo [Faro]”, confirma Motta. “O Pedro Pedroso é panssexual [sente atração por pessoas independente do género ou sexo] — o que é ainda mais confuso. Depois, no campo das drags temos a Sincera Mente, que faz comédia, a Alejandro Beauty e a Excita Lopran, que são brasileiras, mas vivem em Portugal há muito tempo, e a Karvel Kina.”
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“Não acredito que, de bom coração, se diga alguma coisa errada, mas acho que se deve respeitar o tema [e a sensibilidade dos intervenientes] — essa é a graça, gozar de maneira informada. Para isso preciso de ajuda. Quero ser a pior pessoa possível em palco, mas devidamente informada”, admite, referindo-se à prática de roast (ou o tal “deboche”) que é condição necessária nas exibições da Gongada Drag.
Segundo Bruno, o público da Gongada é cada vez mais abrangente, o que, na sua opinião, é um grande marcador de sucesso. “Realmente, é um show feito por pessoas LGBT, mas destina-se a toda a gente”, reconhece o fundador. “E acredito que para os heteros é muito exuberante e apela àquilo a que chamamos de aliados da comunidade. Quanto mais heteros assistirem, melhor.”
Nas palavras de Motta, “todo o mundo é LGBT”, de acordo com a leitura moderna do espetro de sexualidade desenvolvido pelo biólogo e investigador do comportamento sexual Albert Kinsey na década de 1940, afirma. O académico americano estabeleceu uma classificação em seis graus destinada a ordenar as pessoas conforme o seu grau de atração e comportamento sexual face ao mesmo sexo ou ao sexo oposto.
Os artistas que vêm agora a Portugal admitem não sentir preconceito e discriminação significativa nas digressões da Gongada. “Por incrível que pareça, nunca observei isso”, reconhece Júnior Chicó. Mas “quando eu levo o meu show a solo a cidades no interior [do Brasil], recebo muitas mensagens de pessoas que não são assumidas e que evitam ir ao teatro, para que a família não desconfie ou alguém do trabalho fique a saber”. O humorista destaca a diferença em relação à realidade de uma cidade grande como São Paulo, onde a liberdade sexual é maior, mas realça que o público da Gongada já é “muito nichado” e que “quem vai desavisado [ao espectáculo] acaba por se surpreender” pela positiva.
Na opinião dos artistas sob a orientação de Bruno Motta, resistir é a única forma de fazer frente à homofobia e, para tal, é necessário incluir eventos como a Gongada Drag nos espaços públicos e acessíveis a toda a gente e não apenas em locais reclusos e, por vezes, estigmatizados, como bares e recintos especificamente LGBT. “Tentamos sempre privilegiar os grandes teatros, os teatros nobres da cidade”, reflete Motta. “Acho que é importante dar visibilidade, acho que a presença e o tamanho da Gongada inspira as pessoas a desenvolver os próprios projetos.”
Em Portugal, os espaços escolhidos foram o Teatro Capitólio, em Lisboa, e o Sá da Bandeira, no Porto — duas das salas mais prestigiadas do catálogo nacional. Apesar disso, os brasileiros de visita não excluem uma passagem pelos bares que exibem performances de drag queens — sendo exemplos disso o Finalmente e o Trumps, na capital, ou o Invictus Café, no Porto.
A promessa da Gongada está lançada: consagrar-se o espectáculo de duas horas mais engraçado de que há memória, ao mesmo tempo que leva a “cultura do Brasil, o lip sync [performance na qual se canta em play-back] e a brincadeira”.
Em contagem decrescente para a estreia na Europa, Karoline Absinto e Júnior Chicó deixam de lado o português açucarado e começam a estudar o homólogo europeu. “A gente chega dia 11, a primeira apresentação é dia 13”, informa Chicó. “Nessa altura, já vou estar fluente no português de Portugal, já vou estar falando diferente.”




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