Galípolo disse ontem que 'a todo momento tentam interpretar o que o BC diz'
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A decisão do Copom de cortar a Selic gerou preocupação no mercado, interpretada como sinal de maior tolerância à inflação futura. Economistas alertam sobre a perda de credibilidade do Banco Central, o risco de crise econômica (comparando a um cenário “pré-Dilma”) e o impacto da inflação nas contas públicas e no poder de compra.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
A semana trouxe decisões importantes para os mercados, mas o que mais chamou atenção foi a interpretação dos comunicados dos bancos centrais. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve manteve os juros elevados e reforçou a preocupação com a inflação. No Brasil, o Copom reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, mas o texto divulgado foi lido por parte do mercado como um sinal de maior tolerância com uma inflação acima da meta em 2026 e 2027, com convergência mais consistente apenas em 2028.
Para Igor Lucena, economista e doutor em Relações Internacionais, esse é justamente o ponto que gera preocupação. Segundo ele, quando o mercado passa a acreditar que a inflação ficará acima da meta por um período prolongado, os reajustes de preços acabam sendo incorporados ao dia a dia da economia. “É muito ruim você dizer que a inflação vai fazer parte da nossa economia. Se você tem essa expectativa de não controle da inflação com a meta, você vai incorporando a inflação num segmento contínuo dentro dos preços”, afirmou.
Na avaliação de Lucena, a missão do Banco Central deve continuar sendo a preservação da credibilidade do regime de metas, mesmo que isso imponha custos para a atividade econômica no curto prazo. O economista alerta que o país enfrenta um quadro delicado, no qual uma inflação persistente pode acabar reduzindo investimentos, desacelerando o crescimento e pressionando o mercado de trabalho.
O alerta mais contundente veio quando Lucena comparou o momento atual a períodos que antecederam crises econômicas passadas. “Se a gente fizer um olhar para o passado, a gente está quase no momento, ou até pior, de um pré-Dilma, do ponto de vista de entrar em uma crise econômica e isso seria devastador. A única diferença que eu vejo hoje é que o Banco Central tem independência para tomar suas decisões”, disse.
Já Reinaldo Cafeo, economista e consultor de investimentos, avalia que parte da turbulência observada no mercado decorre da dificuldade de interpretação dos sinais enviados pelo Banco Central. Para ele, previsibilidade é um dos ativos mais importantes para quem investe e produz. “Quem investe no setor produtivo tem que ter um mínimo de previsibilidade.
E quando você não alimenta essa previsibilidade, é óbvio que você acaba gerando inclusive uma retração na economia”, afirmou.
Cafeo também demonstrou preocupação com o quadro fiscal brasileiro. Segundo ele, a combinação entre dívida pública acima de 80% do PIB e aumento dos gastos em um ambiente pré-eleitoral levanta dúvidas sobre a sustentabilidade das contas públicas. O economista afirma que parte do mercado interpretou a redução da Selic como um possível sinal de acomodação diante desse cenário.
“Há um grande receio de que essa decisão do Banco Central em reduzir os juros é como se ele tivesse jogado a toalha”, observou.
Para o economista, o risco de flexibilizar o combate à inflação vai muito além dos indicadores financeiros. “O pior imposto que a classe mais baixa de renda tem no país é o imposto inflacionário. Quando o sujeito vai fazer as compras, ele leva cada vez menos com o seu dinheiro”, afirmou.
Na avaliação de Cafeo, abrir mão da busca pela estabilidade de preços significa ampliar a perda de poder de compra das famílias justamente em um momento em que a economia ainda tenta equilibrar crescimento, juros e responsabilidade fiscal.
Um dia após a decisão do Copom, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, fez uma reflexão sobre a forma como a autoridade monetária se comunica com o mercado. Foi durante um encontro promovido pela Casa Civil sobre Gestão Pública. Em tom de descontração, ele lembrou uma frase tradicional do ex-presidente do Fed, Allan Greenspan: “Se o que eu sei ficou claro para você, você me entendeu mal”.
Segundo Galípolo, a comunicação das autoridades monetárias historicamente foi “bastante hermética”, justamente para evitar interpretações precipitadas e especulações excessivas. Ele recordou que, até o início da década de 1990, nem mesmo o Banco Central americano divulgava suas decisões de forma transparente. “No Brasil, passou a ser feito mais em 94 para 95 da gente ter uma governança onde você passa a comunicar essas decisões”.
Para ele há interpretações demais hoje em dia do que o BC diz, “a todo momento tentam interpretar o que o Banco Central diz em relação, inclusive as vírgulas do comunicado” A declaração foi interpretada por analistas como uma resposta às tentativas do mercado de decifrar cada palavra — e até as vírgulas — presentes nos comunicados do Banco Central.


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