O poder público não pode atuar na lógica do 'estado de emergência' como primeira resposta aos fenômenos
Coordenadora da Associação de Defesa Etnoambiental - Kanindé
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Txai Suruí O El Niño já chegou ao Brasil. Esse fenômeno climático natural ocorre quando as temperaturas do Pacífico Equatorial sobem 2 °C acima da média, alterando correntes globais e provocando desequilíbrios severos no planeta.
No Brasil, os efeitos são desiguais: Norte e Nordeste sofrem com secas e calor intenso; Sul, com chuvas fortes e enchentes; Sudeste e Centro-Oeste enfrentam ondas de calor e baixa umidade. Afetando a saúde das pessoas,a produção agrícola e a segurança hídrica. Amazônia e Pantanal têm risco elevado de incêndios entre julho e novembro, quando a biomassa seca e os ventos favorecem as chamas.
Embora natural, o fenômeno é amplificado pelas mudanças climáticas, pressionando as safras e consequentemente a inflação.
Diante disso, é essencial preparar-se nos níveis individual, comunitário e do poder público. Sem alarmismo nem omissão: o El Niño é previsível, e a ciência antecipa impactos com meses de antecedência. O problema não é a falta de informação, mas a ausência de planejamento estrutural e a insistência em políticas reativas, que transformam eventos recorrentes em tragédias anunciadas.
O poder público não pode atuar na lógica do "estado de emergência" como primeira resposta. O cidadão deve limpar calhas, estocar água e ter plano de fuga, mas essas ações paliativas não substituem obras de drenagem, manutenção de barragens, captação de chuva no semiárido e etc. Devemos nos preparar e nos informar. Mas a resiliência individual não compensa a falta de diques ou sistemas de alerta.
Cobrar do poder público é ato de sobrevivência: exigir planos de contingência efetivos, investimentos permanentes em ciência, monitoramento e infraestrutura verde, não apenas em caminhões-pipa e cestas básicas. O gasto com remediação sempre supera o da prevenção.
Mas há um saber que o poder público insiste em tratar como folclore: a perspectiva indígena. Povos originários observam e sentem a mudança na natureza, antecipando secas e chuvas com precisão que a ciência confirma depois. Suas queimadas controladas reduzem incêndios; suas variedades tradicionais resistem à estiagem; seu manejo mantém a floresta em pé. Ainda assim, são os primeiros a sofrer e os últimos a serem ouvidos. Vivendo sob a imensa desigualdade social, os povos indígenas não tem os mesmos recursos para se recompor e suas florestas são as primeiras a sentir.
Cobrar com lente indígena significa exigir participação efetiva na construção de planos, demarcação e proteção territorial, e fomento à ciência indígena e não-indígena com verba pública para escolas, memória e agroecologia. Adaptação não se faz com soluções caras e centralizadas, mas de forma descentralizada, local e relacional: aprende-se a viver com o clima, não a combatê-lo.
Não se trata de pânico, mas de responsabilidade social e ambiental. O El Niño persistirá, e as mudanças climáticas amplificarão seus efeitos. Preparar o país com planejamento, verba bem aplicada, transparência e reconhecendo os conhecimentos tradicionais é o caminho para que, no próximo ciclo, não estejamos reconstruindo o que poderíamos ter protegido. A natureza avisa, a tragédia ocorre quando a gestão pública insiste em não escutar.
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