O que é uma caneta? E um chapéu? Se você disse que o primeiro é aquele objeto que usamos na hora de escrever e que o segundo é um acessório que colocamos na cabeça, talvez o clima de Copa do Mundo ainda não tenha batido tão forte por aí -o campeonato está a todo o vapor e tem a final marcada para o dia 19 de julho. Leia mais (06/26/2026 - 23h00)

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26.jun.2026 às 23h00

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O que é uma caneta? E um chapéu? Se você disse que o primeiro é aquele objeto que usamos na hora de escrever e que o segundo é um acessório que colocamos na cabeça, talvez o clima de Copa do Mundo ainda não tenha batido tão forte por aí —o campeonato está a todo o vapor e tem a final marcada para o dia 19 de julho.

É que, ao contrário do que muita gente pensa, as palavras não são duras nem estáticas. Elas se movem, são molengas, leves, serelepes. Estão sempre buscando vestir novos significados. Aliás, a poesia nasce justamente assim, dessa brincadeira com a linguagem.

Quando o papo é futebol, muitas expressões mudam de significado. Caneta e chapéu, por exemplo, se tornam nomes de dribles. Mas a lista é bem maior. Assim que o juiz apita, zebra e peixinho não são mais bichos, carrinho e bicicleta deixam de ser brinquedos e o elástico é uma coisa que não prende nenhum cabelo (leia mais abaixo).

Isso porque o futebol não é feito só de gols e faltas. Ele também é formado por palavras. Quem faz essa descoberta é a Gigi, personagem do livro "Ontem Vi meu Pai Chorar", que acaba de ser lançado. Como o título já entrega, a história começa quando a menina vê o pai se afogando em lágrimas após assistir a uma partida do time do coração.

Sem entender bulhufas sobre o esporte, a garota decide se mexer e investigar por que aquilo costuma emocionar tanto o pai. Só que, em vez de calçar chuteiras e ir a campo, Gigi começa o trabalho de detetive a partir do vocabulário.

"Eu sou uma garota que nunca jogou bola, mas que gosta muito de futebol. Acho que a minha aproximação com o esporte foi parecida com a da Gigi. Aconteceu mais pelas palavras, pelas falas, pelos cantos das torcidas", diz Luiza Romão, a autora da história. "A palavra tem esse poder, né? É o abracadabra. Ela é capaz de abrir mundos mágicos."

Mais conhecida dos adultos por causa dos livros de poesia, que já ganharam prêmios importantes como o Jabuti de melhor publicação do ano, a escritora entra pela primeira vez no campo da literatura infantojuvenil.

"Foi um aprendizado. Muitos escritores fazem um livro infantil depois de ter filhos ou crianças na família, mas comigo não foi assim. Essa história já surgiu para esse público. Foi pá-pum. Fechei os olhos e vi a Gigi, uma menina que vê o pai chorando por causa de um jogo de futebol", conta.

A partir dessa ideia, a autora escreveu uma primeira versão do livro, que foi sendo ajustada pouco a pouco ao lado da ilustradora Sílvia Nastari. Na literatura, texto e imagem precisam tabelar como dois jogadores de um mesmo time: um passa a bola para o outro, sem jamais ocupar o mesmo espaço.

Aliás, foram as ilustrações que transportaram Gigi para os anos 1970. "Foi uma sugestão da Sílvia, porque antes a história se passava nos dias de hoje. Mas foi uma mudança muito interessante, porque acabou colocando a narrativa numa época em que as mulheres eram proibidas de jogar futebol."

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Sim, isso já aconteceu no Brasil. De 1941 a 1983, mulheres e meninas eram impedidas de praticar o esporte. Nas imagens do livro, é possível ver até algumas manchetes de jornais daqueles tempos, que diziam bobagens como "o football mata a graça da mulher" e "pé de mulher não foi feito p’ra se metter em shooteiras".

A sorte é que os pensamentos e as ideias vão se transformando ao longo do tempo, assim como as palavras também mudam —a ponto de as "shooteiras" de ontem virarem as chuteiras de hoje.