Está chegando às telas a “Odisseia” de Christopher Nolan (ou já chegou?). Três horas de duração, orçamento de 250 milhões de dólares.Está chegando às telas a “Odisseia” de Christopher Nolan (ou já chegou?). Três horas de duração, orçamento de 250 milhões de d…

Está chegando às telas a “Odisseia” de Christopher Nolan (ou já chegou?). Três horas de duração, orçamento de 250 milhões de dólares. Li que o criticaram somente pelo trailer; Telêmaco, por exemplo, chama o nosso herói de mil faces de “daddy”, um vocativo, digamos, não muito grego — bem, dependendo de como se vê a coisa, talvez seja. Ora, convenhamos, é apenas cinema (algo como pingue-pongue com ares intelectualizados, ou seja, um dos modos de “distinção” de Pierre Bourdieu, para fingir cultura aqui). Com isso em mente, assistirei ao épico, é certo, mas à maneira latina e não de Ítaca: com um grão de sal. De qualquer maneira, segundo o que ruminei durante minhas horas mortas, receberemos pelo menos uma lição: nunca podemos sair de casa com Matt Damon, pois o retorno dará um trabalho dos diabos (“O Resgate do Soldado Ryan”, “Perdido em Marte”, “Interestelar”, “Odisseia”…).

Não é sobre o filme que primeiro pretendo me estender. Vou aos livros (“livro”, objeto que se pode encontrar em museus). Deles eu entendo, compro-os, acumulo-os, distribuo-os, creio que furtei alguns na minha juventude e até os leio. Também coloco as fuças na internet, por supuesto. Percebam muito bem, eu estava quieto no meu canto e não pretendia dar o ar da minha sem-graceza, estejam certos. Contudo, se há tempo de nascer e tempo de morrer, de permeio cometemos erros: numa noite insone qualquer, infantilmente entreguei a rainha para o adversário, clicando num único post sobre o filme e, como em geral acontece, desde então o senhor Algoritmo da Silva Gates vem me bombardeando com Ulisses, Penélope e toda a catrevagem que os acompanha. Busquei os livros, insisto: já disse que deles eu entendo? Espanei-os, abri-os, passei os olhos em algumas poucas páginas, meditei, cismei, matutei, tirei conclusões — com certeza erradas — e me surpreendi com tantas traduções em português.

Hora das ressalvas. A partir daqui, a gerência não se responsabiliza por objetos deixados no veículo e pelo texto longo e sem muita coerência. Não reclamem, eu estava mesmo acomodado num sofá, já com a forma do meu corpo nele impressa, quando fui convocado para a linha de frente das polêmicas inúteis. Pois então: querem o Homero escocês, legítimo, registrado em ata, de vera? Apresento-o, senhores desavisados.

É pelas traduções que podemos conhecer aquele grego que viajava sem Waze. A belíssima de Frederico Lourenço serve como parâmetro para o freguês escolher a que lhe aprouver, isso como padrão-ouro, numa comparação a partir dos dois primeiros versos (às vezes refeitos em três ou quatro). O tal exame clínico-literário se fará, logo abaixo, sem sinais de cesura ou divisão de versos; aqui o espaço é pouco e o editor não aceita “estrovo” e sempre está com a avó atrás do toco (goianês, meu amigo copidesque). Lourenço traduziu Homero diretamente do hexâmetro dactílico grego (nome do meu futuro filho: Hexâmetro Dactílico Franco de Assis). Leiam o início, em toda a sua beleza ancestral reconstruída: “Fala-me, Musa, do homem astuto que tanto vagueou, depois que de Tróia destruiu a cidadela sagrada”. Para quem se interessa por essas coisas, os acentos tônicos, na tradução de Lourenço, substituem por vezes as sílabas longas do original grego (ao Google, meninada: lá compreenderão pés métricos tônicos e átonos ou longos e breves). Desviei-me. Ah, sim, eu mencionara outras traduções para o prezado consumidor. A elas.

A famosa versão de Manuel Odorico Mendes: “Canta, ó Musa, o varão que astucioso, rasa Ílion santa, errou de clima em clima”. Carlos Alberto Nunes, com o seu “esfez” nos levando ao dicionário: “Musa, reconta-me os feitos do herói astucioso que muito peregrinou, dês que esfez as muralhas sagradas de Troia”. Maria Helena da Rocha Pereira, portuguesa: “Canta-me, ó Musa, o homem fértil em expedientes, que muito vagueou, depois que destruiu a cidadela sagrada de Troia”.

Mais, mais. Donaldo Schüller: “O homem canta-me, ó Musa, o multifacetado, que muitos males padeceu, depois de arrasar Troia, cidadela sacra”. Agora Leonardo Antunes: “Sobre o guerreiro de muitos encontros, musa, me conta — que muitas e tantas voltas trilhou, depois de ter pilhado a cidadela sagrada de Troia”.

Trajano Vieira, numa versão “Hino Nacional”: “O homem multiversátil, Musa, canta, as muitas errâncias, destruída Troia, pólis sacra”. Essa de Trajano Vieira, homem de reconhecida cultura, dói nos ouvidos, não? Espero que seja uma daquelas versões com o propósito de ensinar novas palavras a adolescentes emburrados e supostamente apontar-lhes o caminho dos clássicos. Nela lemos, pra acabá com os pequis de Goiás, “homem multiversátil”, infeliz achado de Vieira, uma “transcriação” à Haroldo de Campos. Méritos: Trajano Vieira usou dodecassílabos e a Editora 34 trouxe ainda, além de “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas”, um estudo de Italo Calvino.

Há outras adaptações; porém, ressalvado o fato de que cada uma reflete a sua época, fica estabelecido, sem possibilidade de recurso: em português, Lourenço bate de sete a um.