Após o assassinato do marido, fundador do Turning Point USA, ex-miss assumiu a frente da organização

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Anna Virginia Balloussier

Erika Kirk, a viúva de Charlie Kirk, enfrenta um impasse parido por sua própria cartilha conservadora: a mulher deve disputar o poder na linha de frente ou restringir-se à função tão defendida, com lastro bíblico, de auxiliadora do lar?

Seu marido era uma estrela em ascensão no Maga, movimento que leva o nome do slogan de Donald Trum: "faça a América grandiosa novamente". Kirk tinha 18 anos quando fundou o Turning Point USA, braço jovem do trumpismo que combatia o que via como hegemonia de ideias progressistas em ambientes estudantis —movimento espelhado no Brasil pelo Escola Sem Partido.

Charlie Kirk foi morto num atentado 13 anos depois, em setembro de 2025, com um tiro no pescoço enquanto discursava para milhares de pessoas em um evento universitário. O julgamento de seu presumido assassino começou nesta segunda-feira (6) —a procuradoria pede a pena de morte, que, no estado do Utah, onde o crime aconteceu, ocorre por meio de injeção letal ou pelotão de fuzilamento.

Erika, 37, ganhou protagonismo após a morte do marido. Ela passou a liderar o Turning Point e virou alvo de fogo amigo dentro do seu campo.

Erika vem sendo cobrada por não encarnar a típica esposa enlutada. Críticos miram suas roupas, modernas demais para o paladar conservador, a maquiagem carregada e a rotina sob os holofotes da mídia. Até um abraço que deu no vice-presidente J. D. Vance voltou-se contra ela, gerando especulações superficiais sobre um caso entre os dois.

O influenciador Joe Rogan, que declara voto em Donald Trump e comanda o podcast mais popular do mundo, chegou a falar de Erika em seu programa. E não falou bem. Disse que ela faz "olhos de demônio" e "de maluca", concordando quando um convidado afirmou que a viúva parece "empolgada demais" e uma "star fucker", gíria depreciativa para classificar alpinistas sociais.

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Kristin Kobes Du Mez, historiadora que estuda gênero na Universidade Calvin, sublinha o conflito entre a empreendedora Erika, mulher de negócios que fundou uma marca de roupas de inspiração cristã, a CEO Erika, atual líder do Turning Point, e a ativista Erika, que prega uma mensagem de submissão ao homem.

Para Du Mez, Erika se alinha a lideranças femininas que "dizem às mulheres para assumirem os papéis designados por Deus enquanto buscam uma carreira altamente pública como ativista política".

Seria, portanto, uma das muitas "influenciadoras cristãs glamorosas, geralmente loiras, que pregam a domesticidade e a submissão feminina sem necessariamente praticar o que dizem". Isso sem descuidar de uma "feminilidade performática", que vira parte do seu apelo.

"As mulheres conservadoras mais jovens abraçaram esse estilo: tons de rosa, estampas florais, vestidos de verão e outros visuais hiperfemininos", diz Du Mez.

A socióloga Amy Binder, da Universidade John Hopkins, acumula duas décadas de pesquisa sobre a feminilidade conservadora entre universitárias. Nesse anos todos, a mesma questão ressurge: "Como essas jovens, que estão se preparando para o mercado de trabalho, pensam sobre a ênfase do movimento na feminilidade tradicional?".

Binder pergunta a esse grupo, sobretudo sua parcela politicamente ativa, por que se opôr às feministas e ao conceito de igualdade de gênero. "Elas dizem que o feminismo valoriza apenas uma coisa: o mundo do trabalho. Que os democratas e as feministas não valorizam a família e desrespeitam as mulheres que escolhem ser donas de casa."

Por outro lado, essas mesmas jovens afirmam que a feminilidade conservadora abre mais opções para as mulheres, que podem escolher trabalhar ou cuidar do lar, tudo sem deixar "de ser feminina e bonita".