Armindo Monteiro, da CIP, e José Bizarro, da PwC, debatem a integração do ESG na cadeia de valor, os desafios regulatórios das PME e como tornar a sustentabilidade um motor de competitividade.

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Sejam bem-vindos. Este é o podcast "Do Compromisso à Ação". São conversas sobre ESG, ambiente, sustentabilidade e governança. É uma parceria entre o Observador e a PwC. Hoje falamos da estratégia ESG ao longo da cadeia de valor. Como garantir um alinhamento com fornecedores, com clientes e com outras partes interessadas? É esta a pergunta de partida. Vamos tentar responder com o nosso convidado, Armindo Monteiro, presidente da CIP, Confederação Empresarial de Portugal, que se junta ao José Bizarro partner da PwC, com responsabilidade dos mercados. Eu sou o Paulo Ferreira. Antes de mais, duas boas-vindas a ambos. É um gosto recebê-los aqui. Armindo Monteiro, começando por si, até onde é que vai a responsabilidade de uma empresa por esta área dos impactos ambientais, sociais, governança, quando se fala de parceiros, de clientes ou fornecedores?

Olá, Paulo Ferreira. É sempre um privilégio regressar à Rádio Observador e na boa companhia do José Bizarro nesta excelente iniciativa, que aproveito, em nome da CIP, para saudar a da PwC, porque esta estratégia do ESG não é apenas uma nota de página nos relatórios, é absolutamente uma estratégia, e a CIP tem procurado sensibilizar isso e agradecemos muito que iniciativas destas possam contribuir para esta mudança de paradigma que ainda existe na economia portuguesa.

Para passar à ação, como diz o nome do podcast.

Para passar à ação. É importante que nós consigamos passar à ação. Tínhamos esta vontade e consigamos agora concretizar. Respondendo à sua questão, Paulo Ferreira, o primeiro ponto que eu queria assinalar é que esta estratégia ESG ao longo da cadeia de valor não é uma estratégia alternativa da estratégia que é desenvolver uma estratégia para a linha de negócio para a empresa. Ou seja, não se trata de uma estratégia alternativa. O objetivo é, que nos parece, claramente desenvolver uma estratégia em linha com a estratégia de negócio que suporta a criação sustentada e responsável de valor. Senão, estaríamos aqui quase que a ter que escolher entre uma e outra, e não é assim que nós entendemos o ESG.

Claro. Não é uma alternativa.

Não é uma alternativa.

Ele tem que estar na estratégia definida para a empresa. José Bizarro esta pressão, no fundo, acaba por fazer sentir ao longo da cadeia, desce ao longo da cadeia, se quisermos ver as coisas de cima para baixo. Podíamos pensar que parte de grandes grupos também, muitas vezes para PMEs que são fornecedoras. A capacidade de resposta é a mesma. Como é que as estruturas menos preparadas podem reagir?

Obrigado pelo convite e saudar a iniciativa e a disponibilidade do Armindo. A capacidade de resposta das empresas não é igual entre as grandes empresas e as pequenas empresas. Obviamente que esta necessidade no mundo global, como vivemos hoje, de olhar para a cadeia de valor como um todo e não apenas para a realidade que a empresa impacta diretamente, porque a empresa sofre um conjunto de influências, de impactos e de pressões externas, quer a montante, quer a jusante da sua cadeia de valor. E, portanto, esta realidade integrada que o ESG traz, que deve ser, como o Armindo dizia, integrada na estratégia da empresa, nos processos da empresa, e não uma realidade paralela gerida por duas ou três pessoas. Integrada nos processos para trazer a tal competitividade à empresa. Ou seja, deve-se olhar para o ESG como um fator de redução de custos, de competitividade, de proteção da própria empresa. Sobre as diferentes realidades. A União Europeia começou ou tentou avançar a uma velocidade, diria, excessiva. Depois, o mundo e a realidade acabaram por travar a União Europeia e adequar a velocidade, o pacote Omnibus. Hoje em dia, diria que a Europa está a acordar para esta realidade de forma mais pragmática e objetiva, porque independentemente da realidade e da ambição que existia e do caminho e do rumo, que é indiscutível que tem que ser este, é preciso proteger as empresas europeias e o ecossistema europeu. E, portanto, a Europa o que fez? Há efetivamente uma realidade para as empresas abrangidas, que são as grandes empresas, com volume de negócios acima de 450 milhões e mais de mil colaboradores, e depois há um conjunto de empresas não abrangidas, que têm uma norma específica, com menos requisitos regulatórios e, consequentemente, são esta norma específica com menos requisitos regulatórios que as empresas de média dimensão, de pequena dimensão, se têm que focar.

Mais acessível, obviamente, para elas cumprirem.

E não como uma exigência legal e, portanto, a pressão não virá dos reguladores, nem do legislador, nem da transposição da diretiva para estas empresas. A pressão virá da sua cadeia de valor. E, portanto, é relevante que as micro, pequenas e médias empresas olhem para este tema como: como é que eu vou conseguir acrescentar valor? Como é que eu vou ser mais ágil? Como é que eu me vou integrar melhor na cadeia de valor dos meus fornecedores, dos meus clientes? Porque a pressão por algum desses lados virá. Pode vir dos fornecedores, pode vir dos clientes, pode vir da banca, pode vir até dos próprios consumidores. Mas olhar sempre para esta matéria, e isto é válido para as grandes, para as médias e para as pequenas, olhar sempre esta matéria como um fator de inovação, como um fator de competitividade, como uma oportunidade de reindustrialização, de olhar para os processos de outra forma.

Paulo Ferreira, eu posso só complementar esta ideia que o José Bizarro referiu, que tem toda a razão. A União Europeia, dada a altura, quis acelerar muito este processo e não teve em conta um dos pilares fundamentais, que é o pilar do tempo em que é possível produzir estas alterações. E por isso, na nossa perspetiva, é preciso agora devolver a pressão à União Europeia, perguntando e questionando a União Europeia sobre quanto tempo é que os estudos indicam que os benefícios qualitativos se vão verificar. Porque naturalmente, ao pretender fazer todas estas alterações, visa sempre benefícios. Ora, esses benefícios, como é que nós os verificamos?

Como é que se medem?

Como é que se medem e em quanto tempo.

E quais são e em quanto tempo, porque o mercado não pode estar a responder a objetivos não financeiros durante um tempo indeterminado.

E de alguma forma indeterminados também esses objetivos, no tempo.

Ficamos apenas com uma ideia de se têm benefícios, mas tão difusos que depois não se conseguem medir e, portanto, se não se conseguem medir, não se consegue perceber a vantagem.

E Armindo, complementando, há aqui, efetivamente, a necessidade de as empresas que competem no mercado europeu, os tais 20% do PIB mundial de mais de 400 milhões de cidadãos, como é que se vão proteger elas próprias? Porque temos empresas que competem apenas no mercado europeu, mas temos empresas que produzem no mercado europeu para competir em outros países com outra framework de produção. Portanto, é normal e natural, e fala-se muito da diretiva de report, agora que já está segmentada, as grandes empresas e as pequenas. Mas surgirão nos próximos tempos um outro conjunto de regulamentação específica para proteger as empresas e a produção europeia, e isso é fundamental. Agora a diretiva da desflorestação, que vai ter impacto em algumas atividades econômicas localizadas em território europeu. Mais uma vez, com a dinâmica da cadeia de valor, do fornecimento de madeira, do café, do óleo de palma, da carne e, portanto, deste conjunto de impactos, a Europa tem que acordar e tem que efetivamente proteger as nossas empresas, sabendo o caminho que temos que fazer, reduzindo a complexidade e essencialmente ajustando as respostas. Não é expectável que uma pequena e média empresa tenha a mesma sofisticação, capacidade técnica de análise, que tem uma grande empresa. Portanto, temos que olhar para este processo como a tal oportunidade e não como uma checklist regulatória, porque senão fica lá adstrita a uma sala com duas ou três pessoas assignadas, que serão um custo para a empresa, mas sem benefício. À luz daquilo que acabam de dizer, como é que olham para os riscos e oportunidades? Os riscos é que ao longo da cadeia de valor pode acontecer um problema qualquer ambiental, de governação, com corrupção, com transparência. E as oportunidades é fazer com que os fornecedores compitam entre si, muitas vezes para estarem mais alinhados com aquilo que é a prática do cliente.

Diria que a ausência de ação pode sempre representar riscos reputacionais, riscos legais e riscos financeiros. Mas com uma abordagem estruturada, estes temas são claramente alavancas de competitividade, de inovação e acesso a capital e acesso à cadeia de valor. Porque conforme referiu o José Bizarro nós quando participamos em cadeias de valor lá fora, muitas vezes são utilizados estes temas precisamente para incluir ou excluir determinado fornecedor de uma cadeia de valor. E por isso este ponto não é apenas uma moda, é um fator de eliminação, é um fator de acesso ao mercado e de premiar ou castigar o fornecedor. Por isso, este ponto é um ponto importante. Nós claramente não podemos perder de vista os interesses dos shareholders, mas os stakeholders jogam cada vez mais um papel importante. E por isso os reguladores, os colaboradores, as comunidades exigem cada vez mais responsabilidade ambiental, responsabilidade social, de governance, diria, em toda a cadeia de valor, não apenas em determinada ação. E por isso, esta necessidade de equilibrarmos, e não podemos perder de vista isso, Paulo Ferreira, equilibrar objetivos de crescimento econômico com esses interesses dos stakeholders, mas não podemos perder a ideia do crescimento econômico. Há um ponto que é um ponto muito positivo, que no fundo dá razão a seguir esta lógica ESG, que diria de uma forma simples que é fazer a coisa certa. Se nós quisermos otimizar numa função linear, sem nenhuma restrição, naturalmente que o céu é o infinito. Nós podemos sempre produzir. E então se tivermos recursos abundantes e não escassos, podemos produzir até o infinito. Mas se introduzirmos neste modelo de otimização restrições, e as restrições são estas que estamos a falar, são as ambientais, desde logo, são as de governance, são as sociais. Nós introduzindo estas restrições e conseguindo à mesma otimizar, é claramente fazer a coisa certa, porque isto é estar do lado certo. Agora, conforme já referimos, não pode ser na velocidade que alguém do seu gabinete possa fazer, sem ter ligação ao chão de fábrica, sem ter ligação ao mercado. Isso não pode ser. Exige-se uma aproximação ao realismo e à realidade.

E nessa aproximação é fundamental, efetivamente, e esta é uma jornada importante para muitas micro, pequenas e médias empresas, porque convenhamos, olhando para o tecido empresarial português, muitas delas não despertariam para este tema da cadeia de valor se não fosse um conjunto de choques externos que tivemos nos últimos anos, seja a guerra, a invasão da Rússia à Ucrânia, seja o que se passou agora em Ormuz. Um conjunto de choques externos que obrigam e que tornam imperioso que as empresas adotem efetivamente esta jornada integrada como um todo e não como um departamento autônomo que preencha um conjunto de mapas. E devem olhar para este processo como um processo de partilha de responsabilidades, ou seja, dentro da tal identificação de risco, sistematização de riscos e que, eventualmente, antes desta jornada, não era habitual ver uma microempresa ou uma pequena empresa a sistematizar, olhar para a cadeia de valor, a perceber interdependências, mas olhar para este processo como partilha de responsabilidades. O que eu estou a fazer haverá de estar ligado com alguém a montante ou a jusante na minha cadeia de valor e, portanto, quanto mais interligado eu estiver com o meu fornecedor ou com o meu cliente no apuramento destes indicadores, mais capacidade eu vou ter para integrar melhor a minha cadeia de valor, fazer cocriação em conjunto com os meus clientes ou com os meus fornecedores. Lá está, este tema do ESG não deve ser um tema paralelo à organização, deve ser um tema que deve estar integrado na estratégia.