Trabalho publicado na "Nature Microbiology" reconstituiu o surto da doença na Região Metropolitana de 2017 a 2018

Arquivo/Agência Brasil

27.jun.2026 (sábado) - 6h40 Siga o Poder360 no Google

Um grupo de pesquisadores do Brasil e do Reino Unido reconstituiu a dinâmica do surto de febre amarela silvestre que atingiu a Região Metropolitana de São Paulo há 9 anos –marcado por mais de 90 mortes, pelo extermínio dos bugios do Horto Florestal e pela corrida aos postos de vacinação. Os resultados foram divulgados em março na revista Nature Microbiology.

O primeiro alerta foi dado em 9 de outubro de 2017, quando a carcaça de um macaco foi encontrada no Horto Florestal, zona norte da capital. Em 6 semanas, o vírus se espalhou de forma rápida, matando os cerca de 80 bugios que viviam no parque. “Foi a primeira vez que vimos a febre amarela avançar de forma tão explosiva em um ambiente florestal encravado dentro da cidade”, comentou Nuno Faria, docente do Imperial College London (Reino Unido), professor visitante da USP (Universidade de São Paulo) e coordenador da investigação.

O estudo calculou, pela 1ª vez, o número básico de reprodução da febre amarela silvestre, estimado em 8,2. Também conhecido como “R zero”, esse é um valor usado na epidemiologia para representar o potencial de dispersão de uma doença infecciosa. Nesse caso, significa que um único bugio infectado e picado por mosquitos podia transmitir o vírus a outros 8 animais, em média. Segundo os autores, trata-se de um valor extremamente alto para uma doença transmitida por mosquitos.

“A título de comparação, o R0 da covid‑19 variava entre 3 e 4 mesmo nos piores momentos da pandemia”, afirmou Adriano Pinter, professor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, que na época trabalhava na Sucen (Superintendência de Controle de Endemias) –órgão da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. Ou seja, cada pessoa com covid-19 podia transmitir a doença para outras 3 ou 4 pessoas, em média.

Pesquisas anteriores ao surto já apontavam os parques estaduais da Cantareira e Alberto Löfgren (Horto Florestal) como possíveis portas de entrada para a febre amarela na Região Metropolitana de São Paulo. Mesmo assim, o episódio surpreendeu os cientistas pela velocidade e intensidade da disseminação.

A rápida propagação nas Unidades de Conservação que margeiam São Paulo deixou os moradores dos bairros densamente povoados do entorno em extrema vulnerabilidade. Na pequena cidade de Mairiporã, vizinha à capital paulista, foram 142 casos notificados e mais de 40 óbitos, mesmo com a imunização em andamento.

“A 1ª lição que fica com esse episódio é que a vacinação de febre amarela precisa ser antecipada. Não podemos mais esperar encontrar macacos mortos para começar a imunizar as pessoas. A janela entre o 1º alerta e o pico de transmissão é de duas a 3 semanas. E a vacina leva de 10 a 12 dias para começar a proteger a população. Ou seja, quando o primeiro bugio aparece morto, já estamos atrasados”, disse Pinter à Agência Fapesp.

Dados da pesquisa indicam que o mosquito Haemagogus leucocelaenus, principal vetor do ciclo silvestre da doença, teve papel central na explosão de casos. O inseto, que tradicionalmente vive restrito à copa das árvores, também infectou humanos e outros primatas no solo, o que acelerou a transmissão. “Foi uma combinação de forças: a alta densidade de hospedeiros, a grande abundância de mosquitos, a presença desses vetores tanto no solo quanto na copa e a temperatura elevada. Tudo isso criou o cenário perfeito para uma propagação explosiva”, contou Juliana Telles, pesquisadora do Instituto Pasteur, que na época também trabalhava na Sucen.

Como o mosquito urbano (Aedes) também está presente nessa interface entre a floresta e a cidade, existe um risco de potencial reurbanização da febre amarela. “Nesse caso, o vírus também passaria a ser transmitido de humano para humano pelo Aedes aegypti. No entanto, detectamos o patógeno só em mosquitos Haemagogus, o que significa que a transmissão no horto ocorreu por meio do ciclo silvestre”, afirmou Faria, que também coordena o Cadde (Centro Conjunto Brasil‑Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus), ao lado da professora da USP, Ester Sabino.

Para chegar às conclusões descritas no artigo, os pesquisadores combinaram monitoramento de mosquitos, análise de carcaças de primatas, sequenciamento metagenômico (ou seja, de todo o material genético presente em amostras ambientais) e modelagem matemática. O trabalho foi possível graças a ações conjuntas entre as secretarias estaduais e municipais de Saúde e Meio Ambiente, articuladas por pesquisadores do Instituto Florestal, da Sucen –atualmente incorporada ao Instituto Pasteur– e da USP.

Telles ressalta a importância da integração entre instituições públicas de vigilância, pesquisa e conservação ambiental. “Ao integrar as diferentes frentes de vigilância, foi possível entender com precisão como o vírus entrou e se espalhou no parque. Essa abordagem combinada revelou quantas introduções virais ocorreram e mostrou que o ciclo de transmissão no Horto Florestal foi extremamente intenso e concentrado em um período muito curto, um padrão bem diferente do observado na Amazônia, por exemplo”, afirmou.

Os autores destacam ainda a importância de incorporar no trabalho a abordagem de Saúde Única (que reconhece a interdependência entre a saúde humana, animal, vegetal e ambiental). “O estudo de metagenômica viral identificou em um dos bugios infectados uma coinfecção com o vírus da hepatite A. Isso sugere contaminação por resíduos humanos nas bordas da floresta. O que acontece na borda da mata tem impacto direto na saúde pública”, alerta Telles.

O artigo Evolution and spillover dynamics of yellow fever at the forest-urban interface in Brazil pode ser lido aqui.

Este texto foi publicado originalmente pela Agência Fapesp, em 23 de junho de 2026. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360.