Nova minissérie da Netflix tem Sam Worthington e Britt Lower no elenco - Divulgação/Netflix Existe um conforto curioso nas adaptações de Harlan Coben para a Netflix. Mesmo não sendo impecável, as tramas assinadas por ele quase sempre conseguem despertar aquela vontade de assistir "só mais um episódio". 

“Eu Vou Te Encontrar” segue exatamente essa receita. É uma minissérie cheia de segredos, perseguições, suspeitos e revelações que parecem surgir a cada capítulo. Nem todas funcionam da forma como deveriam, mas poucas conseguem fazer o espectador largar a história antes do fim.

Baseada no romance homônimo de Harlan Coben, a série acompanha David Burroughs (Sam Worthington), um homem condenado pelo assassinato do próprio filho. Cinco anos depois da prisão, uma nova pista indica que a criança pode estar viva, obrigando David a fugir para provar sua inocência e descobrir quem realmente destruiu sua família. 

A investigação atravessa diferentes personagens, envolve organizações criminosas e transforma a busca pelo filho em uma corrida contra o tempo. A minissérie está disponível na Netflix.

A série é simplista, o texto não tenta reinventar o suspense policial nem construir uma investigação sofisticada. Seu interesse está em manter o espectador constantemente desconfiado de todo mundo. Cada episódio termina com uma revelação ou uma nova dúvida, criando aquele efeito difícil de resistir para quem gosta de montar teorias enquanto assiste.

Sam Worthington (Avatar) conduz bem esse protagonista marcado pela culpa, pelo desespero e pela esperança quase irracional de encontrar o filho. Não chega a ser uma atuação memorável, mas funciona porque o personagem nunca deixa de parecer humano, mesmo quando toma decisões impulsivas. 

Britt Lower (Ruptura) também acrescenta bastante à narrativa como a cunhada que decide ajudá-lo, oferecendo um contraponto importante ao protagonista em meio ao caos crescente.

Rapidez final atrapalha

O problema aparece justamente quando a série parece perceber que precisa correr para encerrar tudo. Os primeiros episódios dedicam tempo suficiente para desenvolver personagens, estabelecer motivações e construir o mistério central. 

Depois, quase sem aviso, o roteiro pisa no acelerador. Coincidências começam a surgir com frequência, pistas aparecem no momento exato em que são necessárias e alguns personagens tomam decisões difíceis de justificar apenas para fazer a trama seguir em frente.

Esse desequilíbrio tira parte do impacto das revelações. Não porque elas sejam ruins, mas porque a sensação é de que o roteiro encontra respostas antes de preparar o caminho até elas. Em um gênero que depende tanto da lógica interna, esses atalhos acabam chamando atenção mais do que deveriam.

O que ajuda é o fato de que Harlan Coben conhece como poucos a mecânica do suspense popular. Mesmo quando o quebra-cabeça apresenta algumas peças forçadas, ele sabe exatamente onde terminar um episódio, quando plantar uma dúvida e como conduzir o público até a próxima revelação. É um tipo de narrativa que talvez não sobreviva a uma análise muito detalhada, mas que funciona muito bem enquanto está sendo vivida.

No fim, “Eu Vou Te Encontrar”” dificilmente será lembrada como uma das melhores adaptações de Harlan Coben para a Netflix. Falta um pouco mais de cuidado na construção da reta final e sobra confiança em coincidências convenientes. Ainda assim, entrega o que promete, um suspense envolvente, cheio de reviravoltas e perfeito para ser maratonado em um fim de semana. Às vezes, isso já é mais do que suficiente.

*Fernando Martins é jornalista e grande entusiasta de produções televisivas. Criador do Uma Série de Coisas, escreve semanalmente neste espaço. Instagram: @umaseriedecoisas.

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