No "Realpolitik", Sérgio Sousa Pinto e Miguel Pinheiro falam sobre o falhanço da esquerda radical e sobre os sucessos e fracassos dos 250 anos dos Estados Unidos da América.
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Bem-vindos ao Realpolitik, uma conversa sobre política e atualidade todas as semanas aqui na Rádio Observador e em podcast também. Eu sou o Miguel Pinheiro.
Eu sou Sérgio Sousa Pinto.
E hoje nós vamos falar, na segunda parte, sobre os 250 anos dos Estados Unidos, que acontecem a 4 de julho, qual é afinal o balanço da experiência americana. Mas antes, eu e o Sérgio queremos conversar sobre a esquerda radical em Portugal, que está transformada um pouquinho num cadáver político. Em França, Jean-Luc Mélenchon, da França Insoumisa, é um dos principais candidatos às presidenciais do próximo ano. No Reino Unido, os Verdes do Zac Polanski estão em grande crescimento. Em Portugal, a esquerda radical está com um problema. O que lhe falta? Falta-lhe um caudilho, falta-lhe um programa. O que tu achas que está a faltar à nossa esquerda? À esquerda do PS.
Eu até pensava que tu querias conversar sobre a extrema-esquerda francesa, porque essa é uma entidade muito significativa na vida política francesa. A extrema-esquerda portuguesa são partidos muito diferentes, com histórias muito diferentes. O Partido Comunista é provavelmente o único, não sei se haverá outro, partido stalinista da Europa, portanto lá continua com os seus rituais, com o seu comitê central, com o centralismo democrático. Enfim, é um partido museológico. No entanto, tem uma implantação real na sociedade portuguesa, no mundo sindical.
No chamado mundo do trabalho.
Sim, podes chamar de mundo do trabalho. Não é só no mundo do trabalho. Tem também algum peso autárquico residual. Continua a ser um partido que vai definhando, continua a existir. E continuará a existir e provavelmente vai sobreviver às outras experiências. O esquerdismo também tem uma tradição em Portugal. O Bloco de Esquerda é um partido que nasce das estruturas e da fusão de partidos que já existiam desde o 25 de Abril.
E que, na realidade, teve representação parlamentar logo na Constituinte. Com a UDP.
O grande Américo Duarte, o deputado único da UDP na Constituinte, e foi tendo...
E depois teve mais deputados, não teve só o Américo Duarte.
Não, aliás, o Américo Duarte depois saiu e foi substituído pelo, não é Polivalente, o médico. Depois já vemos isso. Já vamos ver isso.
Lá temos que ir à presença artificial.
Há aqui um artigo sobre isso. Eu já lá vou. Eles de fato conseguiram depois juntar-se. Aliás, a iniciativa até penso que foi da própria UDP, que juntou ali uma série de famílias políticas que se odiavam e que deram lugar ao Bloco de Esquerda.
Sim, inclusivamente alguns ditos reformistas do PCP também se juntaram ao Bloco de Esquerda, portanto também fizeram parte da Plataforma de Esquerda, acho que era essa a designação do grupo, capitaneado pelo Miguel Portas. E portanto, uma experiência esquerdista. O que é o esquerdismo? O esquerdismo é uma mistura de utopia, denúncia, muitas vezes certeira, outras vezes demagógica, da crueldade do nosso sistema econômico-social. Respostas irrealizáveis, alternativas utópicas, sempre com o pezinho a fugir para o populismo. E tem uma longa tradição. Não é uma tradição especificamente portuguesa, quer dizer, logo na Revolução Francesa apareceu, e não foram os jacobinos. Os jacobinos eram de esquerda, era um partido enorme, tinha várias sensibilidades, autofágico, foram-se devorando, como toda mundo sabe. E depois tinha uma extrema-esquerda, que também foi devidamente passada pela guilhotina, quando começaram a incomodar demasiado o poder jacobino. Mas já existia uma extrema-esquerda populista, hebertista.
Mas mesmo aqui em Portugal, eles tiveram poder até há muito pouco tempo. É evidente que depois, entretanto, surgiu o LIVRE, e esta semana voltámos a falar do LIVRE porque houve aquele truque em que Rui Tavares diz que sai da liderança, mas na realidade continua a mandar. Mas surgiu o LIVRE a tentar ocupar aquele espaço da ecologia e uma tradição dos Verdes, mas com uma ecologia, pelo menos, não tão populista. Não é um ecopopulismo como aquele que nós vemos nos Verdes em Inglaterra com o Zac Polanski. Agora, tu achas que estamos numa fase de fragilidade temporária dessa esquerda radical? A mim parece-me que o que lhes falta é um líder, é um caudilho. Aliás, não é falta lhes assumir, porque o Bloco de Esquerda assumia isso, mas de facto toda uma versão populista de esquerda, um espelho daquilo que nós vemos à direita. E é o que tu tens com o Mélenchon em França, é o que tu tens com os Verdes no Reino Unido. De facto, aliás, o Zac Goldsmith assume que é ecopopulista. Dá-me a ideia que falta um caudilho que consiga liderar aquelas massas que se poderiam agregar à volta de uma esquerda radical.
Eu acho que a expressão caudilho não descreve bem o que eles precisam. O que eles precisam é de lideranças carismáticas. O Bloco de Esquerda tinha o Francisco Louçã, que era obviamente não só mentor, como a pessoa que trouxe força política e representatividade ao Bloco de Esquerda e tinha outras personalidades que a sociedade portuguesa apreciava: Fernando Rosas, Miguel Portas, mas foi sobretudo Louçã, no meu ponto de vista. E o LIVRE é actualmente o Rui Tavares, se afastar muito, a vida corre mal ao LIVRE, porque o LIVRE não é nada. O LIVRE parece assim uma espécie de partido lírico, um partido poético. É um partido que permite a uma certa esquerda desencantada com o PS votar nessas formações, como uma espécie de voto de protesto dentro da esquerda. Acho eu, porque não sei quem é que quer, sem fazer contas, defender o rendimento mínimo universal. Não sei como é que é possível. Como eu vou defender saúde para todos? Olhe, eu defendo saúde para todos e dias a menos. Votem em mim, que este é o meu programa. Mas não querem destruir o sistema democrático, não querem fazer mal a ninguém.
Em Portugal há uma coisa curiosa, que é: a tradição ecológica é de direita, porque Roberto Teles foi verdadeiramente o nosso primeiro político ecologista, depois o Carlos Pimenta, secretário de Estado do Ambiente nos governos de Cavaco Silva. Também é um ecologista importante na história da ecologia e do ambientalismo em Portugal, uma figura muito importante. Os Verdes não contam para nada, nunca contaram, eram um satélite do PCP, assim como o outro grupelho da intervenção democrática, só serviam para o PCP não pôr no boletim de voto PCP e pôr CDU, portanto, eram criações do PCP. E curiosamente, em Portugal, a ecologia em tempos nasceu realmente, credivelmente, na direita. Mas já perdeu esses pergaminhos. O que é que o PSD é hoje, ou o CDS? É alguma coisa de ambientalismo? Nada.
Sim, e houve ali uma fase quando o CDS estava a transformar em partido popular, que queria apostar no ambiente e na cultura. Houve ali uma altura, mas rapidamente desistiram disso. Agora, por que é que esta esquerda radical está a funcionar em França e no Reino Unido, ao contrário do que acontece cá?
Tenho uma teoria que vale o que vale, e estou disponível para substituir já estas minhas doutas teorias por outras melhorzinhas que alguém me possa apresentar. Os ingleses têm uma característica particular, que é: o radicalismo sempre esteve dentro do Labour. Eles têm um nome para isto, curioso, que não tem nada a ver, chamam soft left ao corbynismo, e chamam hard left a um grupo dito trotskista, portanto, o trotskismo está dentro do Labour. E quando se fala dos backbenchers em Westminster, geralmente estamos a falar de grupos que eles próprios estão tão distantes do mainstream, da linha de orientação do partido, que quase podiam estar noutro partido qualquer. Portanto, o Labour historicamente revelou uma grande capacidade e teve grandes dificuldades históricas, porque essa ala, liderada pelo Tony Benn, um político carismático e um homem bom. Há tempos, ouvi uma entrevista muito interessante com o Neil Kinnock, que foi o líder do Partido Trabalhista, filho de uma família que vivia relativamente bem, mas o pai era mineiro. E ele contava nessa entrevista conversas com o Tony Benn. O Tony Benn era um aristocrata e o líder da extrema esquerda do Labour. E quando a senhora Thatcher decidiu vender as casas municipais aos seus inquilinos.
Certo, para criar uma geração de proprietários.




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