Mudança ocorre após dois séculos de domínio dos combustíveis fósseis
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As fontes renováveis, como solar e eólica, ultrapassaram o carvão como principal motor da geração de eletricidade global em 2025, marcando uma nova fase econômica. Liderada por China e UE, essa transição reflete investimentos massivos, custos em queda e busca por segurança energética, apesar de desafios como tarifas no Brasil e necessidade de infraestrutura de armazenamento.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
A economia vive tantos solavancos que nem sempre é fácil perceber quando uma boa notícia surge. Em 2025, as fontes renováveis de energia, como solar, eólica e hidrelétrica, ultrapassaram oficialmente o carvão como principal motor da geração de eletricidade no mundo. Juntas, as fontes renováveis agora respondem por 34% da matriz elétrica global, ante 33% do carvão. A mudança estrutural, confirmada pelo centro de pesquisa em energia Ember, de Londres, marca a primeira vez que isso ocorre. Ela é resultado de investimentos colossais nos últimos vinte anos, quando as modalidades limpas saltaram de 0,3% para os 34%, numa tentativa de frear a queima de combustíveis fósseis e as emissões de dióxido de carbono responsáveis pelo aquecimento do planeta.
China e União Europeia lideram essa transformação. Dos anos 1990 em diante, os europeus passaram a investir pesadamente na diversificação da matriz, inicialmente com parques eólicos instalados em áreas do Mar do Norte. Duas décadas depois, a China acelerou esse processo ao dominar a produção de turbinas e painéis solares, reduzindo drasticamente os custos da tecnologia. Hoje, a potência asiática fabrica mais de 80% dos componentes utilizados em parques de energia renovável. “O avanço tecnológico e a redução dos custos tornaram as energias renováveis a principal resposta ao crescimento da demanda por eletricidade”, afirma Jhonatan Colombo, professor de mudanças climáticas e transição energética da Fundação Getulio Vargas.
A geopolítica também tem contribuído para acelerar a mudança. Em diferentes regiões, governos e empresas procuram reduzir a exposição às cadeias internacionais de petróleo e gás, historicamente vulneráveis a conflitos, sanções econômicas e interrupções no abastecimento. Tensões em áreas estratégicas para o mercado energético, como o Oriente Médio, por onde transita cerca de um quinto do petróleo consumido no planeta, reforçam a busca de alternativas capazes de ampliar a segurança energética e diminuir riscos externos. De acordo com a consultoria Ember, a expansão da capacidade de geração solar e eólica já é suficiente para suprir praticamente todo o crescimento da demanda mundial por eletricidade. Mesmo em um cenário mais adverso, marcado por eventuais turbulências nos mercados de energia, a necessidade de recorrer ao carvão seria limitada, funcionando apenas como uma solução temporária.
O gás natural também foi um dos protagonistas da transição energética nas últimas décadas. Por emitir menos gases de efeito estufa que o carvão, passou a ser adotado por diversos países como uma alternativa intermediária enquanto a capacidade de geração renovável era ampliada. No Reino Unido, por exemplo, esse combustível teve papel central na redução do uso do carvão na matriz elétrica. Essa estratégia, porém, esbarra em uma limitação importante: assim como o petróleo e o carvão, o gás continua dependente de cadeias internacionais de suprimento e sujeito a oscilações provocadas por conflitos, sanções econômicas e disputas comerciais.
Os Estados Unidos lideram as exportações mundiais de gás natural liquefeito, seguidos por Rússia e Catar, três atores cuja posição geopolítica pode influenciar os preços e a oferta no mercado internacional. Diferentemente dos combustíveis fósseis, as fontes solar e eólica utilizam recursos locais e dispensam importações contínuas de matéria-prima. Além disso, a queda dos custos também explica o avanço das energias limpas. Segundo a Agência Internacional de Energias Renováveis, em 2024 a eletricidade gerada por parques eólicos custava cerca de 30 dólares por megawatt-hora, enquanto o custo da unidade de energia solar girava em torno de 40 dólares. Em 2010, os valores eram de 110 dólares e 420 dólares, respectivamente.
Nesse cenário, o Brasil ocupa uma posição privilegiada. Diferentemente de muitas economias que ainda dependem fortemente de combustíveis fósseis, cerca de 85% da eletricidade produzida no país já vem de fontes de baixa emissão, principalmente hidrelétricas. A tendência é que essa participação continue crescendo nos próximos anos, impulsionada por mais de 2 000 projetos solares e cerca de 450 parques eólicos em diferentes estágios de desenvolvimento. O planejamento energético brasileiro busca combinar a expansão das renováveis com fontes capazes de garantir o abastecimento em períodos de menor geração. Por isso, os planos incluem novos empreendimentos termelétricos, hidrelétricos e uma usina nuclear. Segundo estimativas da Aneel, os investimentos previstos para ampliar a capacidade de geração e reforçar a segurança do sistema somam 629 bilhões de dólares.
Mas nem tudo é vantagem por aqui. Apesar de possuir uma das matrizes mais limpas do mundo, ainda convivemos com tarifas excessivamente elevadas. Para a Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia (Abrace Energia), a política energética precisa estimular o consumo produtivo e favorecer a reindustrialização. “Todo esse custo é transferido para a tarifa. É necessário reverter esse desequilíbrio”, afirma Victor Iocca, diretor da Abrace Energia. Segundo a consultoria PwC Brasil, tributos, encargos e subsídios podem representar até 45% do valor da conta de luz. O resultado é uma contradição: o país produz energia relativamente barata, mas cobra caro do consumidor. Em dezembro, o megawatt-hora custava incríveis 145 dólares no Brasil, ante 125 dólares na Itália, 86 dólares na Alemanha e 56 dólares na França.
Outro desafio está na própria operação do sistema elétrico. Para o especialista e investidor Paulo Puterman, a transição energética só ganhará escala definitiva quando houver soluções eficientes de armazenamento. Hoje, hidrelétricas, térmicas e biomassa cumprem esse papel ao compensar a intermitência das fontes solar e eólica. Puterman também alerta para o chamado curtailment, quando usinas reduzem ou interrompem a geração por excesso de oferta, baixa demanda ou limitações na rede de transmissão. “O curtailment pode distorcer a realidade”, afirma Puterman. Em outras palavras, a capacidade instalada cresce mais rapidamente do que a infraestrutura necessária para entregar toda a energia produzida. “Os obstáculos deixaram de ser tecnológicos. Agora, é preciso planejamento”, afirma Gilberto Jannuzzi, pesquisador do Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético da Unicamp.
Foi o carvão que impulsionou a Revolução Industrial e redefiniu a economia mundial do século XVIII em diante. Ao abastecer máquinas a vapor, siderúrgicas, ferrovias e fábricas, o mineral tornou possível um salto sem precedentes na produção e consolidou um novo modelo de desenvolvimento. Por mais de 200 anos, esteve no centro da expansão econômica das principais potências. Com as energias solar e eólica cada vez mais baratas, os desafios já não estão na tecnologia, mas na expansão das redes elétricas, do armazenamento e dos investimentos. Se o carvão moveu a era das chaminés, a eletricidade de baixa emissão tende a sustentar a nova economia digital, dos centros de dados à inteligência artificial.
Publicado em VEJA, junho de 2026, edição VEJA Negócios nº 27


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