Um dos melhores livros para entender a crise financeira de 2008 é Fool’s Gold, da jornalista e antropóloga Gillian Tett. O livro acompanha a trajetória de ...
Um dos melhores livros para entender a crise financeira de 2008 é Fool’s Gold, da jornalista e antropóloga Gillian Tett. O livro acompanha a trajetória de um grupo de banqueiros do J.P. Morgan que, a partir dos anos 1990, desenvolveu alguns dos instrumentos financeiros que posteriormente estariam no centro da grande crise. A história é especialmente interessante porque começa exatamente com a intenção oposta: os instrumentos foram criados para reduzir, distribuir e administrar melhor o risco.
A ideia fundamental parecia brilhante. Quando um banco concede um empréstimo, ele carrega em seu balanço o risco de o devedor não pagar. Por que não separar esse risco do empréstimo e transferi-lo para outro agente disposto a carregá-lo? Foi dessa lógica que cresceram os derivativos de crédito, especialmente os credit default swaps, os famosos CDS. O risco de crédito deixava de ficar necessariamente concentrado no banco que havia feito o empréstimo e podia ser negociado no mercado.
Um dos episódios mais conhecidos relatados por Tett ocorreu em 1994, quando executivos do J.P. Morgan se reuniram em Boca Raton, na Flórida, para discutir novas formas de utilizar derivativos na administração de riscos. A partir dali desenvolveu-se uma engenharia financeira cada vez mais sofisticada para separar empréstimos, riscos e fluxos financeiros e depois redistribuí-los pelo sistema.
Em princípio, havia uma lógica econômica perfeitamente defensável. Se o risco pudesse ser distribuído entre milhares de investidores, fundos, bancos e seguradoras, o sistema financeiro poderia se tornar mais resistente. Um banco deixaria de carregar sozinho uma exposição muito grande. O risco seria dispersado.
O problema é que Wall Street começou a cometer uma confusão fundamental: passou a agir como se distribuir o risco fosse equivalente a eliminar o risco.
Essa diferença está no coração de Fool’s Gold.
Imagine um sistema financeiro no qual um banco concede uma hipoteca e depois vende aquele risco para outro investidor. Esse segundo investidor pode repassá-lo para um fundo, que pode incorporá-lo em outro ativo financeiro, que por sua vez pode ser vendido novamente.
Depois de algumas rodadas, ninguém sabe exatamente onde está o risco original.
Mas ele continua existindo.
O risco de uma família não conseguir pagar sua hipoteca não desaparece simplesmente porque aquela hipoteca passou pelas mãos de cinco instituições financeiras. A engenharia financeira pode mudar quem recebe o prejuízo. Ela não elimina o prejuízo caso o devedor deixe de pagar.
Durante os anos que antecederam 2008, entretanto, surgiu uma sensação crescente de que a diversificação, a securitização e os derivativos haviam tornado o sistema quase imune às grandes crises financeiras.
Esse excesso de confiança seria fatal.
Há aqui um paradoxo importante.
Os instrumentos criados para reduzir o risco individual das instituições acabaram permitindo que o sistema como um todo assumisse muito mais risco.
Se um banco sabe que terá de carregar um empréstimo durante vinte ou trinta anos, terá grande incentivo para verificar cuidadosamente quem está recebendo o dinheiro.
Mas se o banco acredita que conseguirá vender aquele empréstimo poucos dias depois, seu incentivo muda.
Surge o conhecido problema de originate to distribute: originar o crédito para depois distribuí-lo.
A qualidade do empréstimo passa a importar menos para quem originalmente concedeu o crédito.
A securitização criou, portanto, uma enorme capacidade de expansão do crédito. Hipotecas eram concedidas, agrupadas, transformadas em títulos e vendidas para investidores no mundo inteiro.
O sistema parecia capaz de transformar praticamente qualquer fluxo futuro de pagamentos em um ativo financeiro negociável.




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