Seleção argentina avança para as oitavas de final e, mesmo sofrendo, segue sonhando com a quarta estrela na Copa do Mundo

Por Guilherme Azevedo

9 min de leitura03/07/2026 • 21:51Ouça o artigo agora0:009:24A sofrida classificação da Argentina sobre Cabo Verde manteve vivo o sonho da “quarta estrela” e deu sequência a uma das trajetórias mais fascinantes do futebol internacional nos últimos anos. Em um roteiro longe do esperado por qualquer torcedor albiceleste, a seleção atual campeã do mundo sofreu, mas mostrou a força de uma equipe vitoriosa, mirando outra taça.

Desde que Lionel Scaloni assumiu a seleção, em 2018, a equipe conquistou duas Copas América, uma Finalíssim e a Copa do Mundo do Catar. Depois do sofrimento diante os estreantes, a equipe voltou a se colocar entre as favoritas ao título em 2026.

Entrar no canal Nas oitavas de final do Mundial deste ano, a seleção se destaca pelo estilo de jogo que parte da valorização da posse de bola, mas que também encontra a tradicional “raça” . Hoje, ainda assim, a Argentina monta a estrutura ideal para potencializar Lionel Messi, o craque do país há cerca de duas décadas.

A Argentina, todavia, também se destaca por algo que ultrapassa o bom trabalho tático: a valorização das relações humanas. Não é incomum, aliás, que cenas do elenco reunido celebrando, rindo ou cantando viralizem. Da mesma forma, o próprio Scaloni é flagrado em momentos de extrema emoção, dando o tom de um elenco unido.

Sempre que fala de futebol, seja em entrevistas coletivas ou exclusivas, Scaloni fala também de pessoas. “Muitos argentinos entendem de futebol, de 4-3-3, de 4-4-2. Mas há coisas fundamentais e que vão para além da tática, da técnica ou da estratégia. Porque se você se dá bem com o outro, quando o outro é seu amigo, você vai se doar muito mais. Eu cresci com isso. Reunimos todos, armamos um mate e começamos a conversar sobre como eles estão, sobre a vida… coisas que talvez outros não façam”, disse o treinador em uma cena da série El Método Scaloni, da plataforma Flow.

Lionel Scaloni, técnico da Argentina – EFE/ Juan Ignacio Roncoroni

Nesta Copa do Mundo, em entrevista coletiva ainda durante a fase de grupos, o argentino voltou a tocar no assunto: “Nos momentos mais difíceis, quem te ajuda seguir em frente é o seu companheiro. Alguns podem dizer que isso não tem nada a ver com futebol, mas eu penso justamente o contrário. Tem tudo a ver. Porque você entra em campo ao lado de alguém que sente as coisas do mesmo jeito que você.”

As ideias se encaixam em um dos conceitos de vantagem na análise do futebol: a superioridade socioafetiva. Essa é a capacidade tática e psicológica que nasce do alto nível de entrosamento entre dois ou mais jogadores, o que permite a antecipação de movimentos e resolução de situações sem a necessidade de comunicação verbal.

Os resultados positivos e o nível alto de desempenho deixam claro que a ideia de Scaloni é bem recebida pelo elenco. Mesmo assim, lideranças do grupo já fizeram questão de deixar isso claro.

Lionel Messi, próximo do treinador dentro e fora das quatro linhas, já reconheceu publicamente esses méritos. Em entrevista à Espn Argentina, em dezembro de 2025, Messi destacou justamente a maneira como Scaloni se relaciona com o elenco.

“O melhor que ele (Scaloni) fez, além de tudo que sabe de futebol, é a conexão com grupo. É a maneira de tratar os jogadores, de como se conectar com cada um. Ele conhece humanamente todos. E sabe exatamente como falar com cada um”, revelou o craque.

Lionel Messi e Lionel Scaloni após o título da Copa do Mundo de 2022 – Luis ROBAYO / EFE

Rodrigo De Paul, outra grande liderança do grupo, voltou a falar sobre Scaloni durante este Mundial. Mas após o título de 2022, em entrevista para a série El Método Scaloni, o meio-campista explicitou: “Scaloni enxerga seres humanos que jogam futebol, não jogadores profissionais. Ele sabe exatamente qual botão apertar em cada um, porque, obviamente, ninguém é igual. Em um vestiário existem personalidades diferentes, histórias diferentes.”

E prossegue: “Com essa relação, você começa a entregar mais do que imaginava. Começa a sentir que quem está falando com você realmente acredita em você, é sincero, olha nos seus olhos e fala a verdade. Fazer da pessoa alguém melhor é fazer do jogador um atleta melhor. Esse é o método.”

Extrair o melhor de seus atletas, tendo em vista as particularidades, é um pilar do trabalho na Era Scaloni. Muitas vezes, o profissional exime seus méritos, transferindo para os atletas, afirmando que o futebol, no fim das contas, se resume aos jogadores.

Em entrevista à Conmebol, disse: “Sou um treinador que não acredita em um sistema de jogo pensado a partir do treinador. Quem define o sistema são os jogadores. Como Maradona e Messi não jogariam juntos, se foram os dois melhores do mundo? O problema seria dos adversários, não nosso.”

Scaloni é um adepto de um futebol com menos amarras, especialmente na formação de atletas. Em entrevista ao treinador Jorge Valdano, no programa Universo Valdano, refletiu sobre como algumas narrativas podem prejudicar o surgimento de novos grandes jogadores. “Há prejuízos em dizer que o futebol mudou, que o potrero (termo argentino para futebol de rua) não existe mais. Eu converso muito sobre isso com o Pablo Aimar. Hoje precisamos nos preocupar muito mais com quem ensina e como ensina as crianças. O técnico, de certa forma, virou esse potrero”.

Otamendi, Di María, Messi, De Paul e Paredes comemoram título do Mundial de 2022 – Divulgação / Instagram

E continuou: “Se eu fico o tempo todo dizendo para a criança ‘passa a bola’, ‘joga de dois toques’, estou tirando justamente o que ela tem de melhor: a criatividade. Antigamente, na Argentina, surgiam muitos meias criativos. Hoje, o garoto dribla dois adversários e já escuta: ‘Passa a bola!’. Mas por quê? Se ele passou por dois, pode muito bem fazer o gol. Se ele tem capacidade para marcar quatro gols, deixa que faça. É esse jogador que vai fazer a diferença. A cultura do futebol argentino sempre foi a da picardia com a bola: driblar, superar adversários, dar um lençol, tabelar. Se a gente tentar controlar cada movimento do jogador como se estivesse com um joystick na mão, cometemos um grande erro.”