Os mercados financeiros têm um hábito curioso. Quando alguém enriquece muito, rapidamente concluímos que estamos diante de um gênio. Poucas vezes paramos para perguntar se aquela riqueza nasceu de uma habilidade extraordinária ou de uma oportunidade rara que dificilmente poderá ser repetida. Leia mais (06/26/2026 - 18h00)

Michael Viriato escreve sobre como cuidar do seu dinheiro, poupar e planejar o futuro

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26.jun.2026 às 18h00

Michael Viriato Os mercados financeiros têm um hábito curioso. Quando alguém enriquece muito, rapidamente concluímos que estamos diante de um gênio. Poucas vezes paramos para perguntar se aquela riqueza nasceu de uma habilidade extraordinária ou de uma oportunidade rara que dificilmente poderá ser repetida.

Imagine um comerciante que consiga comprar uma mercadoria por R$ 100 e, sem modificá-la, encontre compradores dispostos a pagar R$ 150. Quanto mais vender, mais dinheiro acumulará para comprar novas mercadorias e repetir o processo.

O crescimento parecerá extraordinário, mas sua verdadeira vantagem não está na mercadoria. Está na diferença entre o preço que paga e o preço que consegue cobrar.

Foi uma lógica semelhante que transformou Michael Saylor, reconhecido no mundo por sua empresa e estratégia. Sua empresa, a Strategy, acumulou cerca de 847 mil bitcoins, adquiridos por aproximadamente US$ 64 bilhões. À primeira vista, parece uma história de ousadia e visão sobre o futuro do Bitcoin. Mas a estrutura financeira por trás desse crescimento merece tanta atenção quanto o próprio ativo.

O principal combustível da expansão não foi o negócio antigo de software da empresa. Também não foi a dívida, que representa uma parcela relativamente pequena de sua estrutura de capital. Dos cerca de US$ 64 bilhões investidos em bitcoin, apenas aproximadamente US$ 6,7 bilhões vieram de dívida conversível.

A maior parte dos recursos foi captada por meio da emissão de ações ordinárias e, mais recentemente, de ações preferenciais. Enquanto o mercado aceitava pagar um prêmio elevado pelas ações da Strategy em relação ao valor líquido dos bitcoins que ela possuía, a empresa emitia novos papéis, levantava bilhões de dólares e comprava ainda mais bitcoin. Na prática, novos investidores financiavam a expansão da companhia pagando um preço superior ao valor dos ativos que ela representava.

Michael Saylor nunca vendeu bitcoin. Vendeu ações que davam exposição ao bitcoin por um preço superior ao do próprio bitcoin.

Durante anos, essa engenharia financeira parecia "brilhante" aos olhos dos amantes do criptoativo. Mas ela dependia de uma condição muito específica: a disposição do mercado em continuar pagando esse prêmio. Ou seja, falando friamente, da ingenuidade de muitos.

Essa condição começa a mudar. As ações da Strategy acumulam queda de cerca de 48% no ano e de 79% em doze meses. Ao mesmo tempo, a forte desvalorização do Bitcoin fez com que o custo médio de aquisição da companhia ficasse aproximadamente 20% acima do preço de mercado do ativo.

O prêmio que sustentava sua estratégia foi drasticamente reduzido. Sem ele, torna-se muito mais difícil justificar novas emissões de ações para financiar novas compras de bitcoin. O motor que impulsionou o crescimento da empresa perde sua principal fonte de combustível.

Como acontece com quase toda oportunidade extraordinária, ela costuma morrer por sua fama. Diversas empresas passaram a copiar exatamente a mesma estratégia: emitir ações, captar recursos e comprar bitcoin. No Brasil, também algumas empresas, até listadas na B3, tentaram imitar a estratégia, mas chegaram tarde na festa.