"Heartstopper" chega ao fim com adaptação para filme pela Netflix - Divulgação/Netflix Sempre que essa coluna se propõe a falar sobre o encerramento de uma produção, a linha de raciocínio costuma ser a mesma: finalizar uma série querida nunca é uma tarefa simples.
Existe uma expectativa enorme para que todos os personagens tenham um destino satisfatório, os conflitos encontrem um ponto final que faça sentido e o público saia com a sensação de que valeu a pena acompanhar aquela história por tantos anos.
“Heartstopper Para Sempre” assume essa responsabilidade e, embora nem sempre encontre o melhor caminho, consegue fazer aquilo que parecia mais importante, se despedir de Nick (Kit Connor) e Charlie (Joe Locke) com o mesmo carinho que marcou toda a trajetória da série.
Dirigido por Wash Westmoreland e escrito por Alice Oseman, criadora dos quadrinhos e da adaptação para a TV, o longa funciona como um epílogo para os acontecimentos da terceira temporada. Nessa reta final, Nick e Charlie lidam com uma etapa inevitável da vida: a chegada da faculdade, a possibilidade de um relacionamento à distância e o medo de que crescer também signifique se afastar de quem sempre esteve ao lado.
O filme está disponível na Netflix e encerra oficialmente a história iniciada em 2022.
A maior qualidade continua exatamente onde sempre esteve, a relação entre os atores protagonistas. Os dois preservam uma naturalidade rara em romances adolescentes.
Não existe esforço para convencer o público de que aqueles personagens se amam; isso já está estabelecido há muito tempo. O filme apenas acompanha duas pessoas tentando descobrir como continuar juntas quando a vida começa a apontar para direções diferentes.
Também é interessante perceber como Heartstopper mantém seu olhar acolhedor mesmo quando decide abordar temas mais complexos. O roteiro toca em inseguranças sobre o futuro, na pressão de amadurecer e até nas incertezas enfrentadas pela comunidade LGBTQIAPN+ em um cenário social cada vez mais instável.
São assuntos que aparecem de maneira delicada, sem transformar a leveza da franquia em um drama excessivamente pesado.
Pouco espaço pro elenco
O formato de filme, no entanto, cobra seu preço. Durante três temporadas, a série construiu um universo em que os personagens secundários tinham espaço para respirar. Tao, Elle, Tara, Darcy, Isaac e tantos outros deixaram de ser apenas coadjuvantes para formar um grupo pelo qual o público também criou carinho. Em menos de duas horas, esse equilíbrio desaparece.
Quase todos acabam limitados a pequenas participações, como se estivessem apenas cumprindo tabela antes dos créditos finais.
Essa pressa também afeta o principal conflito da história. O medo da distância, as inseguranças do casal e algumas decisões importantes surgem e se resolvem rápido demais.
Fica a impressão de que determinados momentos mereciam mais tempo para amadurecer emocionalmente. Não chega a comprometer a experiência, mas deixa evidente que essa história talvez respirasse melhor em uma temporada curta do que em um único longa.
Ainda assim, existe algo muito bonito na forma como Alice Oseman entende seus personagens. O interesse dela continua sendo em acompanhar pessoas comuns vivendo mudanças que qualquer um já enfrentou em algum momento da vida. Talvez seja essa simplicidade que tenha transformado “Heartstopper” em um fenômeno. Simplicidade já vista, por exemplo, na norueguesa “SKAM”.
Visualmente, o filme preserva a identidade da série. A fotografia continua iluminada, a trilha sonora acompanha o tom otimista da narrativa e pequenos recursos visuais que sempre fizeram parte da linguagem da adaptação aparecem de maneira discreta, funcionando quase como um último abraço para quem acompanhou essa jornada desde o início.
“Heartstopper Para Sempre” talvez não seja o encerramento perfeito. O ritmo acelerado impede que alguns conflitos tenham o peso que poderiam alcançar e reduz personagens que mereciam uma despedida mais generosa.
Mas o coração da história permanece intacto. E para uma obra que sempre acreditou na força dos pequenos gestos, talvez isso seja suficiente. É um adeus afetuoso e coerente com tudo o que a série construiu ao longo dos últimos anos.
*Fernando Martins é jornalista e grande entusiasta de produções televisivas. Criador do Uma Série de Coisas, escreve semanalmente neste espaço. Instagram: @umaseriedecoisas.
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